HOJE E SEMPRE
FOR NOW, FOREVER
NORA ROBERTS

Nora Roberts - MacGregors 05



A histria de um amor eterno...
Anna MacGregor, esposa do casamenteiro Daniel h 40 anos, tambm tem sua histria de amor para contar. Afinal, ela foi a primeira mulher que,Daniel MacGregor convenceu
a se casar. Nesse caso, com ele mesmo.
Em Hoje e Sempre, finalmente ficamos sabendo como Anna Whitfield foi cortejada pelo audacioso Daniel, e como ele enfrentou seu maior desafio:  conquistar o amor 
de sua vida!
Nesta histria envolvente, Nora Roberts, autora nmero 1 da lista de best sellers do The New York Times, revela mais uma vez porque  aclamada como um dos maiores 
talentos do romance contemporneo.

Digitalizao: Ana Cris
Reviso: Cris Paiva

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S..r.l.
Todos os direitos reservados. Proibidos a reproduo, o armazenamento ou a transmisso, no todo ou em parte, por quaisquer meios.

Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.

Copyright (c) 1987 by Nora Roberts
Originalmente publicado em 1987 por Silhouette Special Edition
Ttulo original: FOR NOW, FOREVER

Editorao Eletrnica: Ingrafoto   
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Aos cuidados de Virgnia Rivera
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Sangue bom, linhagem forte!

Os MacGregors tm como patriarca nos EUA o orgulhoso e intrometido Daniel MacGregor. Para garantir a perpetuao do nobre legado do cl, uma dos mais famosos das 
Terras Altas da Esccia, ele no hesita em colaborar com o destino para que seus filhos encontrem consortes  altura de sua famlia. Afinal, soberanos  a sua raa, 
e um bom sangue faz uma linhagem forte!
Quando jovem, Daniel Duncan MacGregor tinha uma grande ambio: construir um imprio que pudesse legar a sua famlia, devolvendo aos MacGregors sua antiga grandeza. 
Antes dos 30 anos, j era um milionrio. Mas precisava de uma mulher digna de construir uma famlia a seu lado: Anna Whitfield... que o rejeitou sem pensar duas 
vezes. Daniel no descansaria at conseguir o que queria. Anna jamais abriria mo de seus sonhos pelos de outra pessoa. E, na batalha entre os dois, o grande vencedor 
seria o amor.

1 Jogo de Seduo
2 Destino Tentador
3  Orgulho & Paixo
4 Encanto da Luz
5 Hoje e Sempre
6 Instinto do Amor
7 Beijos que Conquistam
8 O Amor Nunca  Demais
9  Um Vizinho Perfeito
10 Rebelde










Prlogo

- Me.
Anna MacGregor apertou as mos de seu filho quando ele agachou-se a seus ps. Pnico, medo e sofrimento emergiram em seu interior e encontraram uma parede slida 
de fora de vontade. Ela no iria perder o controle agora. No podia. Seus filhos estavam vindo.
- Caine. - Os dedos de Anna estavam gelados, porm firmes, quando tocaram os dele. Seu rosto estava quase sem cor devido ao estresse das ltimas horas, e os olhos 
estavam escuros. Escuros, jovens e assustados. Caine pensou que nunca tinha visto a me assustada antes. Jamais.
- Voc est bem?
-  claro. - Ela sabia do que ele precisava e beijou o rosto do filho. Com a mo livre, pegou a da nora quando ela sentou-se a seu lado. Nos longos cabelos escuros 
de Diana havia neve, que j comeava a derreter nos ombros do casaco. Anna respirou fundo antes de olhar para Caine.
- Vocs chegaram aqui rapidamente.
-Ns fretamos um avio. - Havia um menininho dentro do homem crescido, o advogado, o novo pai, que queria ganhar uma negao. Seu pai era invulnervel. Seu pai era 
o MacGregor. Ele no podia estar quebrado numa cama de hospital. - Como ele est?
Anna era mdica e podia dizer-lhe precisamente... as costelas quebradas, o pulmo comprometido, a concusso e o sangramento interno, que seus colegas estavam agora 
se esforando para deter. Ela era me tambm.
- Ele est sendo operado. - Anna apertou a mo na do filho e quase conseguiu sorrir. - Ele  forte, Caine. E o dr. Feinstein  o melhor do estado. - Ela precisava 
se apoiar nisso e em sua famlia. - Laura?
- Laura est com Lucy Robinson - respondeu Diana em tom calmo. Sabia bem como era controlar emoes. Vagarosamente, massageou os dedos de Anna. - No se preocupe.
- No estou preocupada. - Dessa vez, Anna conseguiu sorrir. - Mas voc conhece Daniel. Laura  a primeira neta dele. Estar cheio de perguntas quando acordar. - 
E ele acordaria, prometeu a si mesma. Por Deus, ele acordaria.
- Anna. - Diana passou um brao ao redor dos ombros de sua sogra. Ela parecia to pequena, to frgil. - Voc comeu?
- O qu? - Anna meneou a cabea de leve, ento se levantou. Trs horas. Daniel estava na sala de cirurgia h trs horas. Quantas vezes ela estivera na sala de cirurgia, 
lutando para salvar uma vida enquanto os parentes agonizavam naquelas salas de espera e corredores frios? Havia se esforado e estudado para ser mdica, a fim aliviar 
a dor, curar... fazer diferena de alguma forma. Agora, quando seu marido estava machucado, no podia fazer nada alm de esperar. Como qualquer outra esposa. No, 
no como qualquer esposa, corrigiu-se, porque sabia o que era uma sala de cirurgia, conhecia muito bem todos os sons e cheiros, bem como os instrumentos, as mquinas 
e o suor. Queria gritar. Cruzou os braos e andou at a janela.
Havia um poder de ferro atrs daqueles olhos escuros e tranqilos. Usaria esse poder para si mesma agora, para seus filhos, mas, principalmente, para Daniel. Se 
fosse possvel traz-lo de volta somente com seu desejo, ela o faria. Sabia que era preciso muito mais do que conhecimento profissional para tratar, para curar.
A neve tinha quase parado. A neve - pensou Anna enquanto a observava cair de forma fina - deixara as estradas escorregadias e perigosas. A neve havia cegado um jovem, 
fazendo-o perder o controle do carro e bater no tolo carro de dois lugares de Daniel. Ela cerrou os punhos.
Por que voc no estava na limusine, meu velho? O que estava tentando provar com aquele brinquedinho vermelho? Sempre querendo aparecer, sempre... Os pensamentos 
de Anna voltaram ao passado. Ela abriu as mos. Essa no era uma das razes pela qual se apaixonara por ele? No era um dos motivos pelo qual o amava e vivia com 
ele por quase quarenta anos? Que coisa, Daniel MacGregor, ningum pode lhe dizer nada. Anna pressionou os dedos nos olhos e quase riu. No podia contar o nmero 
de vezes que lhe dissera essa frase durante a vida toda. E o adorava por ser assim.
O som de passos a fez virar-se, fortificando-se. Ento viu Alan, seu filho mais velho. Daniel tinha jurado, antes de ter um filho, que um de seus filhos estaria 
na Casa Branca. Embora Alan estivesse perto de transformar o juramento em realidade, era o nico dos filhos que se parecia mais com ela do que com o pai. Os genes 
MacGregor eram fortes. Os MacGregors eram fortes. Anna deixou-se ser abraada por Alan.
- Ele ficar feliz por voc estar aqui. -A voz dela era firme, mas havia uma mulher em seu interior que queria chorar e chorar. - Mas vai lhe dar uma bronca por 
ter trazido sua esposa na condio em que ela est. - Anna sorriu para Shelby e ergueu uma das mos. Sua nora, de brilhantes cabelos ruivos, estava grvida. - Voc 
devia se sentar.
- Farei isso se voc fizer. - Sem esperar resposta, Shelby levou Anna para uma cadeira. No momento em que Anna se sentou, Caine colocou-lhe uma xcara de caf nas 
mos.
- Obrigada - murmurou ela e bebeu para agrad-lo. Podia sentir o gosto do caf, forte e quente, senti-lo queimar sua lngua, mas no podia sabore-lo. Anna ouvia 
o toque dos pagers, a rpida batida de sapatos de sola de borracha no piso frio. Hospitais. Eram sua casa tanto quanto a fortaleza que Daniel tinha construdo para 
os dois. Sempre se sentira confiante em hospitais, confortvel em seus corredores anti-spticos. Agora, sentia-se impotente.
Caine andava de um lado para o outro. Era a sua natureza fazer isso... vaguear, rondar. Como ela e Daniel haviam ficado orgulhosos quando ele ganhara seu primeiro 
caso. Alan sentou-se a seu lado, quieto, intenso, exatamente como sempre fora. Ele estava sofrendo. Ela observou Shelby segurar-lhe a mo e ficou contente. Seus 
filhos haviam escolhido bem os parceiros. Nossos filhos, pensou, tentando se comunicar com Daniel. Caine com Diana, uma mulher tranqila e com muita fora de vontade, 
Alan com Shelby, impetuosa e corajosa. Equilbrio era necessrio em um relacionamento, quase tanto quanto o amor, e tanto quanto a paixo. Anna descobrira isso. 
Seus filhos tinham descoberto. E sua filha...
- Rena! - Caine atravessou a sala, abraando a irm. 
Como eles se pareciam, pensou Anna vagamente. To delgados, to destemidos. De todos os seus filhos, Serena tinha o temperamento mais parecido com o de Daniel. E 
a teimosia. Agora, sua filha tambm era me. Anna podia sentir a fora silenciosa de Alan a seu lado. Eles todos haviam crescido. Quando isso acontecera? Ns fizemos 
um trabalho to bom, Daniel Ela fechou os olhos apenas por um momento. Um momento era tudo o que podia se permitir. Voc no ousaria me deixar para apreciar isso 
tudo sozinha.
- E papai? - Com uma das mos, Serena segurou a do irmo, com a outra, pegou a do marido.
- Ainda est sendo operado. - A voz de Caine era spera pelos cigarros e pelo medo quando se voltou para Justin: - Que bom que voc veio. Mame precisa de todos 
ns.
- Mame. - Serena foi ajoelhar-se aos ps da me, como sempre fazia toda vez que precisava de conforto ou de uma conversa. - Ele vai ficar bem.  teimoso e forte.
Mas Anna viu o apelo nos olhos da filha. Diga-me que ele vai ficar bem. Se voc disser, eu acreditarei.
-  claro que ele vai ficar bem. - Ela olhou para o marido da filha. Justin era jogador, assim como seu Daniel. Anna tocou o rosto de Serena. - Voc acha que ele 
perderia uma reunio como essa?
Serena deu uma risada trmula.
- Foi o que Justin falou. - Ela sorriu, vendo que Justin j tinha um brao ao redor do ombro da irm. - Diana. - Serena se levantou para trocar um abrao com a cunhada. 
- Como est Laura?
- Ela est maravilhosa. Acabou de ganhar o segundo dentinho. E Robert?
- Um terror. - Serena pensou no filho, que j adorava o av. - Shelby, como est se sentindo?
- Gorda. - Ela sorriu e tentou esconder o fato de que estava em trabalho de parto h mais de uma hora. - Liguei para o meu irmo. - Shelby voltou-se para Anna. - 
Grant e Gennie esto vindo. Espero que no tenha problema.
-  claro que no. -Anna acariciou-lhe a mo. - Eles so da famlia, tambm.
- Papai vai ficar radiante. - Serena engoliu o medo que lhe fechava a garganta. - Toda essa ateno. E ento h a notcia que Justin e eu vamos lhe dar. - Ela olhou 
para o marido, esperando que a coragem retornasse. - Justin e eu iremos ter outro beb. Para garantir a linhagem. Mame... - a voz falhou quando se ajoelhou de novo. 
- Daniel vai ficar to orgulhoso disso, no vai?
- Sim. - Anna beijou as duas faces de Serena. Pensou nos netos que tinha, e naqueles que teria. Famlia, continuidade, imortalidade. Daniel. Sempre Daniel. - Seu 
pai vai dizer que tudo isso se deve a ele.
- E no se deve? - murmurou Alan.
Anna lutou contra as lgrimas. Como eles conheciam bem o pai.
- Sim. Sim, tudo se deve a ele.
Houve mais murmrios, mais pessoas andando de um lado para o outro, apertos de mo, enquanto os minutos se arrastavam. Anna ps sua xcara de caf pela metade de 
lado, frio e indesejado. Quatro horas e vinte minutos. Estava demorando muito. A seu lado, Shelby tencionou e comeou a respirar fundo deliberadamente. De modo automtico, 
Anna colocou uma mo na barriga que levava seu neto.
- De quanto em quanto tempo esto as contraes?
- Menos de cinco minutos agora.
- Quando comearam?
- Algumas horas atrs. - Ela lanou um olhar a Anna que era um pouco excitado, um pouco apavorado. - Um pouco mais de trs horas, na verdade. Eu gostaria de ter 
marcado melhor o tempo.
- Marcou perfeitamente. Quer que eu v com voc?
- No. - Por um momento, Shelby enterrou o nariz no pescoo de Anna. - Ficarei bem. Todos ns ficaremos bem. Alan - ela estendeu as duas mos, querendo ajuda para 
se levantar - eu no vou ter o beb no Hospital Georgetown.
Ele a colocou de p, gentilmente.
- O qu?
- Eu vou t-lo aqui. Muito em breve. - Ela riu um pouco quando ele franziu o cenho. - No tente a lgica com um beb, Alan. Ele est pronto.
O cl inteiro se reuniu  volta de Shelby, oferecendo ajuda, conselho, apoio. De seu jeito calmo e eficiente, Anna providenciou uma enfermeira e uma cadeira de rodas. 
Com pouca confuso, preparou tudo para a nora.
- Vou descer para ver voc mais tarde.
- Ns ficaremos bem. - Shelby estendeu o brao para pegar a mo de Alan. - Todos ns. Diga a Daniel que ser um menino. Vou me certificar disso.
Anna observou quando Shelby e Alan desapareceram atrs das portas do elevador um momento antes de o dr. Feinstein entrar no corredor.
- Sam - exclamou Anna e estava a seu lado em segundos.
 porta da sala de espera, Justin ps a mo nas costas de Caine.
- D um minuto a ela - murmurou ele.
- Anna. - Feinstein tocou-lhe os ombros. Ela no era somente uma colega agora ou uma cirurgia que ele respeitava. Era a esposa de um paciente. - Ele  um homem forte.
Ela sentiu uma onda de esperana e ordenou a si mesma para manter a calma.
- Forte o bastante?
- Seu marido perdeu muito sangue, Anna, e no  mais jovem. Mas ns detivemos a hemorragia. - Ele hesitou, ento percebeu que a respeitava demais para poup-la. 
- Ns o perdemos uma vez na mesa. Em segundos, Daniel estava lutando para voltar. Se a vontade de viver contar, Anna, ele tem muita chance.
Ela cruzou os braos sobre o peito. Frio. Por que os corredores estavam to frios? 
- Quando poderei v-lo?
- Eles iro lev-lo para a UTI. - Sam estava com cimbras nas mos depois de horas de trabalho delicado. Mas manteve-as firmes nos ombros de Anna.
- Anna, eu no preciso lhe dizer o que as prximas 24 horas significam.
Vida ou morte.
- No, no precisa. Obrigada, Sam. Vou falar com meus filhos. Depois, subirei.
Ela virou-se para voltar a descer o corredor, uma mulher pequena e adorvel, com alguns fios grisalhos entremeados nos cabelos profundamente negros. O rosto era 
finamente alinhado, a pele to suave quanto fora em sua juventude. Tinha criado trs filhos, chegado ao topo em sua profisso e passado mais da metade de sua vida 
amando um homem.
- Ele saiu da cirurgia - disse ela calmamente, chamando o controle com o qual nascera. - Eles o esto levando para o Centro de Terapia Intensiva. A hemorragia foi 
controlada.
- Quando ns podemos v-lo? - A pergunta veio de diversos deles ao mesmo tempo.
- Quando ele acordar. - O tom de Anna era firme. Estava no comando de novo, e estar no comando era o que fazia de melhor. - Vou passar a noite aqui. - Ela consultou 
o relgio. - Ele pode acordar por alguns momentos e ficar melhor sabendo que estou por perto. Mas no poder falar at amanh. - Era toda a esperana que podia 
dar a eles. - Quero que vocs desam para a maternidade e dem uma olhada em Shelby. Fiquem com ela quanto tempo quiserem. Ento, vo para suas casas e esperem. 
Ligarei assim que houver alguma notcia.
- Mame...
Ela interrompeu Caine com um olhar.
- Faa o que estou mandando. Quero voc descansado e bem quando seu pai estiver pronto para v-lo. - Ela ergueu uma mo para o rosto de Caine. - Por mim.
Ana deixou os filhos e o conforto e foi para o seu marido.
Ele estava sonhando. Mesmo sob o efeito das drogas, Daniel sabia que estava sonhando. Era um mundo suave, repleto de vises, de memrias. Entretanto, lutou contra 
isso, querendo, precisando se orientar. Quando abriu os olhos, viu Anna. No precisava de mais nada. Ela era linda. Sempre linda. A mulher teimosa, forte e controlada 
que ele primeiro admirara, ento amara, e depois respeitara. Daniel tentou toc-la, mas no conseguiu erguer a mo. Furioso por sua fraqueza, tentou de novo, apenas 
para ouvir a voz de Anna sussurrar-lhe suavemente.
- Fique deitado, imvel, querido. Eu no vou a lugar algum. Vou ficar aqui e esperar. - Ele pensou ter sentido os lbios dela nas costas de sua mo. - Eu amo voc, 
Daniel MacGregor.
Os lbios dele se curvaram num sorriso. Os olhos se fecharam.





Um

Um imprio. Na poca em que tinha 15 anos de idade, Daniel MacGregor prometera a si mesmo que teria um, construiria um, governaria um. E sempre cumpria sua palavra.
Estava com 30 anos e trabalhando em seu segundo milho com o mesmo mpeto que o fizera ganhar o primeiro. Como sempre, usava corpo, crebro e pura astcia, em qualquer 
ordem que funcionasse melhor. Quando tinha ido para a Amrica cinco anos antes, Daniel levara o dinheiro que havia economizado trabalhando e ascendendo desde escavador 
at contador - chefe da Hamus McGuire. Levara tambm um crebro perspicaz e uma ambio gigantesca.
Ele poderia ter se passado por um rei. Com quase dois metros, possua uma constituio fsica que combinava com sua altura. Apenas o seu tamanho o deixara fora de 
muitas brigas, assim como havia induzido alguns homens a desafi-lo. De qualquer forma, estava bom para Daniel. Possua a reputao de ter um temperamento forte, 
mas considerava-se uma pessoa tranqila. No achava que tinha quebrado mais do que sua cota de narizes em sua poca. No se considerava bonito tambm. O maxilar 
era longo e quadrado e, na extremidade direita, havia uma cicatriz que adquirira quando uma trave solta cara sobre ele nas minas. Como um calmante para sua vaidade, 
tinha deixado crescer a barba quando adolescente. Uma dzia de anos mais tarde, a barba permanecia, profundamente ruiva e bem aparada ao redor do rosto, misturando-se 
com cabelos que eram mais longos do que o normal para homens. A combinao lhe dava um aspecto feroz e aristocrtico, o que o agradava. As mas do rosto eram altas 
e largas, e a boca parecia surpreendentemente macia em sua almofada de plos vermelhos. Os olhos eram profundamente azuis, e se iluminavam com humor e boa vontade 
quando ele sorria com sinceridade, assim como pareciam congelar quando sorria sem sinceridade.
Imponente. Aquele era um adjetivo apropriado para descrev-lo. Rude era um outro. Daniel no se importava com a forma como era descrito, contanto que no passasse 
despercebido. Era um jogador que arriscava com ousadia. Imveis eram sua fora propulsora, e o mercado de aes seu jogo de mesa. Quando jogava, o fazia para ganhar. 
Os riscos que assumira tinham valido a pena. E, ento, havia jogado mais. Nunca pretendia fazer jogos muito seguros, porque, com segurana, eles se tornavam tediosos.
Apesar de ter nascido pobre, Daniel MacGregor no idolatrava o dinheiro. Usava-o com eficcia, divertia-se com ele. Dinheiro era como poder, e poder era uma arma.
Na Amrica, encontrou-se numa vasta arena de rotas e negociaes. Havia Nova York com seu ritmo acelerado e ruas movimentadas. Um homem com crebro e coragem poderia 
construir uma fortuna l. Havia Los Angeles, com seu glamour e apostas altas. Um homem com imaginao poderia formar um imprio. Daniel tinha passado um tempo em 
ambos os lugares, feito negcios em cada costa, mas escolheu Boston como sua base e seu lar. No era somente dinheiro e poder que procurava, mas estilo. Boston, 
com seu charmoso mundo antigo, sua dignidade teimosa e seu esnobismo natural, adequava-se perfeitamente a seu temperamento.
Daniel descendia de uma longa linha de guerreiros que tinham vivido tanto de acordo com sua inteligncia quanto de suas espadas. O orgulho que sentia em relao 
 sua descendncia era forte, to forte quanto sua ambio. Pretendia ver sua linhagem continuar com filhos e filhas fortes. Como um homem de viso, no tinha problema 
em visualizar seus netos assumindo o que ele fundara e ampliando seu patrimnio. No haveria imprio sem famlia para compartilh-lo. Para iniciar uma famlia, precisava 
de uma esposa adequada. Arranjar uma, para Daniel, era to desafiador e lgico quanto adquirir uma boa propriedade. Tinha ido ao baile de vero de Donahues a fim 
de especular as duas coisas.
Detestava o colarinho apertado pela gravata. Quando um homem possua a constituio fsica de um touro, gostava de ter o pescoo livre. Suas roupas haviam sido feitas 
em Boston por um alfaiate da rua Newbury. Daniel as usava porque seu tamanho exigia isso, para que obtivesse prestgio. A ambio o colocara em um terno, mas no 
era obrigado a gostar disso. Um outro homem vestido com um elegante traje preto e camisa de seda teria parecido distinto. Daniel, tanto de terno preto quanto de 
camisa xadrez, parecia exibicionista. E preferia dessa maneira.
Cathleen Donahue, a filha mais velha de Maxwell Donahue, tambm preferia assim.
- Sr. MacGregor. - Recm-formada na Sua, Cathleen sabia como servir ch, bordar e flertar com elegncia. -Espero que esteja apreciando a nossa pequena festa.
Ela tinha o rosto que parecia de porcelana e cabelos que pareciam linho. Daniel pensou que era uma pena que os ombros da garota fossem to estreitos, mas ele tambm 
sabia como flertar.
- Estou apreciando mais agora, srta. Donahue. Sabendo que a maioria dos homens no gostava de risadinhas, Cathleen riu baixo e suavemente. Suas saias de tafet farfalharam 
quando ela posicionou-se ao lado dele no fim da longa mesa de buf. Agora, qualquer pessoa que parasse para provar trufas ou musse de salmo, os veria juntos. Se 
ela virasse a cabea apenas por um segundo, podia ter um vislumbre do reflexo dos dois em um dos espelhos estreitos que alinhavam a parede. Decidiu que gostava do 
que via.
- Meu pai me contou que voc est interessado em comprar uma parte da terra nos penhascos que ele possui em Hyannis Port. - Ela piscou duas vezes. - Espero que no 
tenha vindo aqui esta noite para discutir negcios.
Daniel pegou dois copos de uma bandeja quando o garom passou. Teria preferido usque em copo grosso a champanhe em taa de cristal, mas um homem que no se adaptava 
a certas circunstncias, fracassava em outras.
Enquanto bebia, estudou o rosto de Cathleen. Sabia que Maxwell Donahue no teria discutido negcios com a filha mais do que teria discutido moda, mas Daniel no 
a culpava por mentir. Em vez disso, deu-lhe crdito por saber como descobrir informaes. Mas, enquanto a admirava por isso, era precisamente a razo pela qual no 
a considerava a esposa adequada. Sua esposa estaria muito ocupada cuidando dos filhos para se preocupar com negcios.
- Negcios vem em segundo lugar para uma mulher adorvel. Voc j esteve nos penhascos?
-  claro. - Ela virou a cabea, de modo que a luz refletisse as flores de diamante nas orelhas. - Mas prefiro a cidade. Voc ir ao jantar dos Ditmeyer na prxima 
semana?
- Se eu estiver na cidade.
- Quantas viagens! - Cathleen sorriu antes de dar um gole no champanhe. Ela se sentiria muito confortvel com um marido que viajasse. - Deve ser excitante.
- So negcios - disse ele. Ento acrescentou: - Mas voc acabou de voltar de Paris.
Satisfeita que Daniel estivera ciente de sua ausncia, Cathleen quase sorriu.
- Trs semanas no foram o bastante. Fazer compras sozinha tomou quase todo o tempo que eu tinha. Voc no imagina quantas horas tediosas passei experimentando roupas 
para achar este vestido.
Ele a olhou de cima a baixo, como ela esperava.
- S posso lhe dizer que valeu a pena.
- Bem, obrigada. - Enquanto ela se exibia, a mente de Daniel comeou, a vagar. Sabia que mulheres se interessavam por roupas e estilos de cabelos, mas teria preferido 
uma conversa mais estimulante. Percebendo que estava perdendo a ateno dele, Cathleen tocou-lhe o brao.
- J esteve em Paris, sr. MacGregor?
Ele estivera em Paris e vira o que a guerra podia fazer com a beleza. A bonita loira sorrindo-lhe nunca seria tocada pela guerra. Por que seria? Ainda assim, vagamente 
insatisfeito, Daniel bebeu o lquido borbulhante.
- Alguns anos atrs. - Ele olhou ao redor, para o brilho das jias e o cintilar dos cristais. Havia um cheiro no ar que s podia ser descrito como riqueza. Em cinco 
anos, se acostumara com isso, mas no tinha esquecido do cheiro da poeira de carvo. Nunca pretendia esquecer. -Gosto mais da Amrica do que da Europa. Seu pai sabe 
como organizar uma festa.
- Fico feliz que voc aprove. Est gostando da msica?
Daniel ainda sentia falta do lamento da gaita de fole. A orquestra composta de doze homens com gravatas brancas era um pouco estranha para seu gosto, mas sorriu.
- Muito.
- Achei que talvez no estivesse gostando. - Ela enviou-lhe um olhar derretido por sob os clios. -Voc no est danando.
Em um gesto corts, Daniel pegou o champanhe de Cathleen e ps os dois copos sobre uma mesa.
- Oh, mas vou danar, sita. Donahue - murmurou ele e levou-a para a pista de dana.
- Cathleen Donahue continua sendo bvia. - Myra Lornbridge mordiscou um canap e suspirou.
- Mantenha suas garras escondidas, Myra. - A voz era baixa e suave, mais por natureza do que de propsito.
- No me importo quando uma pessoa  rude, engenhosa, ou at mesmo um pouco estpida. - Com outro suspiro, Myra terminou o canap. - Mas detesto quando algum  
to bvia.
- Myra.
- Tudo bem, tudo bem. - Myra tocou a musse de salmo. - A propsito, Anna, adorei o seu vestido.
Anna olhou para o tecido de seda cor-de-rosa do vestido.
- Voc o escolheu.
- Eu lhe disse que adorei. - Myra deu um sorriso de satisfao pela maneira como as pregas drapejavam os quadris de Anna. Muito chique. - Se voc desse s suas roupas 
metade da ateno que d a seus livros, deslocaria o nariz empinado de Cathleen Donahue.
Anna apenas sorriu e observou os danarinos.
- No estou interessada no nariz de Cathleen.
- Bem, no  muito interessante. E quanto ao homem que est danando com ela?
- O gigante de cabelos ruivos?
- Ento, voc notou.
- No sou cega. - Ela perguntou-se quando poderia escapar dali com dignidade. Queria muito ir para casa e ler a publicao mdica que o dr. Hewitt lhe enviara.
- Sabe quem ele ?
- Quem?
- Anna. - Pacincia era uma virtude que Myra tinha apenas com as amigas mais ntimas. - No se faa de desentendida.
Com uma risada, Anna deu um gole no vinho.
- Tudo bem, quem  ele?
- Daniel Duncan MacGregor. - Myra fez uma breve pausa, esperando despertar o interesse de Anna. Com 24 anos, Myra era rica e atraente. Mas no linda. Mesmo em sua 
melhor aparncia, sabia que nunca seria linda. Entendia que beleza era um caminho para o poder. Crebro era um outro. Myra usava seu crebro. - Ele  o garoto maravilha 
atual. Se voc prestasse mais ateno em quem  quem em nossa pequena sociedade, reconheceria o nome.
Sociedade, com seus jogos e restries, no interessava a Anna em absoluto.
- Por que eu deveria? Voc me conta tudo.
- Isso lhe serviria se eu no lhe contasse.
Mas Anna apenas sorriu e deu mais um gole em seu drinque.
- Tudo bem, eu vou lhe contar. - Fofoca era uma tentao a qual Myra achava impossvel resistir. - Ele  escocs, o que suponho que  bvio pela aparncia e nome 
que tem. Voc devia ouvi-lo falar. A voz  to forte que parece cortar um nevoeiro.
Naquele momento, Daniel deu uma gargalhada to alta e forte que fez Anna arquear as sobrancelhas.
- Parece que a voz dele poderia cortar qualquer coisa.
- Ele  um pouco rude, mas algumas pessoas - Myra deu um olhar significativo na direo de Cathleen Donahue -, acreditam que um milho de dlares ou algo assim suavizaria 
qualquer coisa.
Percebendo que o homem estava sendo medido e julgado pelo tamanho de sua conta bancria, Anna sentiu uma onda de compaixo.
- Espero que ele saiba que est danando com uma vbora - murmurou ela.
- Ele no parece estpido. Comprou aes do banco Old Line Savings and Loan seis meses atrs.
- Verdade? - Anna deu de ombros. Negcios s a interessavam quando envolviam um oramento hospitalar. Sentindo o movimento  sua esquerda, virou-se e sorriu para 
Herbert Ditmeyer, parado com um cavalheiro no familiar. - Como vai?
- Prazer em v-lo. - Ele era apenas alguns centmetros mais alto do que Anna, e tinha o rosto magro e asctico de um estudante, com cabelos escuros que prometiam 
afinar dentro de alguns anos. Mas transmitia uma fora que Anna respeitava, e possua um senso de humor que somente pessoas inteligentes podiam entender. - Voc 
est adorvel. - Ele gesticulou para o homem a seu lado.
- Meu primo, Mark. Anna Whitfield e Myra Lornbridge.
- O olhar de Herbert se demorou apenas um momento em Myra, mas assim que a orquestra comeou a tocar uma valsa, perdeu a calma e pegou o brao de Anna. -Voc devia 
estar danando.
Anna acompanhou-lhe os passos com naturalidade. Adorava danar, mas preferia faz-lo com algum que sabia. Herbert estava  vontade.
- Eu soube que voc est merecendo os parabns, sr. Promotor. - Ela sorriu para o rosto confivel dele.
Herbert tambm sorriu. Era jovem para a posio, mas no pretendia parar ali. Se no considerasse um comportamento inadequado, teria contado a Anna sobre suas ambies.
- Eu no sabia que as notcias de Boston corriam to rapidamente quanto as de Connecticut. - Ele olhou para onde Myra estava danando com o seu primo. - Eu deveria 
ter percebido.
Anna riu quando eles giraram ao redor de outro casal.
- Porque estive fora da cidade, no significa que no quero acompanhar o que est acontecendo aqui em Boston. Voc deve estar muito orgulhoso.
-  um comeo - disse Herbert alegremente. - E voc... mais um ano e teremos de cham-la de dra. Whitfield.
- Mais um ano - murmurou Anna. - s vezes, parece uma eternidade.
- Impaciente, Anna? Isso no se parece com voc. Sim, parecia-se, mas ela sempre conseguia esconder isso com sucesso.
- Quero que seja oficial. No  segredo nenhum que meus pais desaprovam.
- Eles podem desaprovar - acrescentou Herbert -, mas sua me no tem problema nenhum em mencionar que voc  a melhor aluna da classe por trs anos consecutivos.
- Verdade? - Surpresa, Anna pensou sobre aquilo. Sua me sempre fora mais inclinada a elogiar seu estilo de cabelo do que suas notas. - Terei de ficar grata por 
isso ento, embora ela ainda tenha a esperana de que algum homem vai aparecer e me fazer esquecer as salas de cirurgia e as comadres.
Enquanto ela falava, Herbert a virou. Anna encontrou-se fitando diretamente os olhos de Daniel MacGregor. Sentiu os msculos do estmago se contrarem. Nervos? Ridculo. 
Sentiu um arrepio percorrendo-lhe a coluna de cima a baixo. Medo? Absurdo.
Apesar de ainda estar danando com Cathleen, ele olhou para Anna. Olhou-a de um jeito que faria qualquer mulher enrubescer. Anna o encarou de volta friamente, enquanto 
seu corao disparava. Talvez tivesse sido um erro. Ele pareceu tomar seu olhar como um desafio e sorriu muito vagarosamente.
Com uma admirao objetiva, ela o observou agir. Olhando para um outro homem no canto da pista, Daniel lhe fez um sinal rpido e quase imperceptvel. Em pouco tempo, 
Cathleen encontrou-se danando nos braos de um outro homem. Anna preparou-se para o prximo passo.
Com a destreza de um homem experiente, Daniel circulou entre os danarinos. Tinha notado Anna no momento em que ela comeara a danar. Notado, observado e, ento, 
avaliado. Assim que ela o fitou daquela maneira fria e analtica, ele foi fisgado. Ela no tinha a estatura de Cathleen, mas era pequena e delicada. Os cabelos eram 
escuros e pareciam quentes e macios, combinando com os olhos, tambm escuros. A tonalidade rosa do vestido acentuava a pele suave e cremosa. Parecia uma mulher que 
se encaixaria com perfeio nos braos de um homem.
Com a confiana que sempre o acompanhava, Daniel bateu no ombro de Herbert.
- Posso interromper?
Daniel esperou somente at que Herbert tirasse a mo da cintura de Anna para comear a danar com ela.
- Foi muita esperteza de sua parte, sr. MacGregor.
O fato de ela saber seu nome. e de ter certeza de que a pequena mulher se encaixaria com perfeio nos seus braos agradaram-no muito. O aroma feminino era como 
raios da lua, suave e tranqilo.
- Obrigado, srta...
- Whitfield. Anna Whitfield. Foi tambm muito rude. 
Ele a fitou por um momento, porque a voz sria no combinava com o rosto tranqilo e adorvel. Sempre apreciando uma surpresa, Daniel riu at que cabeas se viraram.
- Sim, mas eu fao o que d certo. No creio que j a vi antes, srta. Anna Whitfield, mas conheo seus pais.
- Isso  bem possvel. - A mo que a segurava era grande, forte e incrivelmente gentil. A palma da mo de Anna comeou a formigar. -  novo em Boston, sr. MacGregor?
- Terei de dizer que sim, porque estou vivendo aqui h apenas dois anos, e no h duas geraes.
Ela inclinou um pouco a cabea de modo que pudesse encontrar-lhe os olhos.
- Voc tem de voltar pelo menos trs geraes para no ser novo.
- Ou voc tem de ser inteligente. - Ele a girou em trs crculos rpidos.
Agradavelmente surpresa que, para o tamanho dele, MacGregor possua leveza nos ps, Anna relaxou um pouco. Seria uma pena desperdiar a msica.
- Ouvi dizer que voc  esperto.
- Voc ouvir isso novamente. - Ele no se incomodou em manter o tom de voz baixo, embora a pista de dana estivesse congestionada. Poder, no propriedade, era seu 
forte.
- Ouvirei? - Anna arqueou uma sobrancelha. - Que estranho. - Apenas se voc no entender o sistema - corrigiu ele, tranqilamente. - Se no pode ter as geraes 
atrs de voc, precisa de dinheiro na frente.
Embora sabendo que aquilo era verdade, Anna no gostou de ambas as formas de esnobismo.
- Que sorte a sua que a sociedade tem padres to flexveis.
A voz seca e desinteressada dela o fez sorrir. Anna Whitfield no era uma tola, assim como no era um tipo predatrio coberta de seda, como Cathleen Donahue.
- Voc tem o rosto parecido com uma mulher de um camafeu que minha av usava em volta do pescoo.
Anna arqueou uma sobrancelha e quase lhe sorriu. O olhar o fez perceber que ele no dissera nada alm da verdade.
- Obrigada, sr. MacGregor, mas  melhor guardar os seus elogios para Cathleen. Ela  mais suscetvel.
Daniel franziu o cenho e os olhos nublaram, parecendo forte e formidvel, mas a expresso rapidamente desapareceu, antes que Anna pudesse avaliar a prpria reao.
- Voc tem uma lngua afiada, moa. Admiro uma mulher que fala o que pensa... at certo ponto.
Sentindo-se hostil por nenhuma razo que pudesse nomear, Anna manteve os olhos diretamente nele.
- Que ponto  esse, sr. MacGregor?
- At o ponto em que deixa de ser feminina. Antes que ela antecipasse o movimento dele, Daniel a conduziu para as portas do terrao. At aquele momento, Anna no 
tinha percebido como o salo de baile se tornara quente e abafado. Independentemente disso, sua reao normal com um homem que no conhecia, seria desculpar-se com 
firmeza, e finalmente voltar a entrar. Em vez disso, encontrou-se parada onde estava, com os braos de Daniel ainda ao seu redor, a luz da lua refletindo nos ladrilhos 
e o aroma de rosas preenchendo o ar.
- Tenho certeza de que voc tem a sua definio do que  ou no feminino, sr. MacGregor, mas pergunto-me se leva em conta o fato de que estamos no sculo XX.
Ele gostava do jeito como ela permanecia parada em seus braos, insultando-o sutilmente.
- Sempre considerei feminilidade uma coisa constante, srta. Whitfield, no algo que muda com os anos ou com a moda.
- Entendo. - Os braos dele pareciam se encaixar ao redor de Anna com muita facilidade. Ela afastou-se para andar at a extremidade do terrao, perto do jardim. 
O ar era mais doce ali, a luz da lua mais turva. A msica se tornava mais romntica com a distncia.
Ocorreu-lhe que estava tendo uma conversa privada, que poderia ter se aproximado de uma discusso, com um homem que acabara de conhecer. Contudo, no sentia vontade 
de interromper a conversa. Aprendera a se sentir confortvel na presena dos homens. Tinha de fazer isso. Como a nica mulher em sua turma na faculdade de medicina, 
Anna tinha aprendido a lidar com os homens no nvel deles, e a fazer isso sem ferir-lhes os egos constantemente. Passara o primeiro ano de crticas e insinuaes 
permanecendo calma e se concentrando nos estudos. Agora, estava prestes a entrar no ltimo ano de medicina, e era aceita pela maioria de seus colegas. Todavia, tinha 
plena conscincia do que enfrentaria quando iniciasse sua especializao. O estigma de ser rotulada como no feminina ainda a machucava um pouco, mas h muito j 
tinha se resignado a isso.
- Estou certa de que seu ponto de vista sobre as qualidades femininas so fascinantes, sr. MacGregor. -Abainha do vestido raspou na parede de ladrilhos quando Anna 
se virou. - Mas no acho que seja algo que quero discutir. Conte-me, o que exatamente voc faz em Boston?
Ele no a ouvira. No tinha ouvido nada desde o momento que ela se virar para encar-lo. Os cabelos balanavam suavemente sobre os ombros delicados e alvos. No 
fino tecido de seda cor-de-rosa, o corpo parecia to delicado quanto porcelana chinesa. A luz da lua refletia-lhe o rosto, de modo que a pele parecia mrmore, e 
os olhos to escuros quanto a noite. Um homem no ouvia nada alm de trovo quando era atingido por um raio luminoso.
- Sr. MacGregor? - Pela primeira vez desde que tinham sado ao ar livre, os nervos de Anna comearam a se exaltar. Ele era enorme, um estranho e a estava olhando 
como se tivesse enlouquecido. Ela endireitou os ombros, e lembrou a si mesma que podia lidar com qualquer situao que surgisse. - Sr. MacGregor?
- Sim. - Daniel saiu do mundo da fantasia e se aproximou. Estranhamente, Anna relaxou. Ele no parecia to perigoso quando estava a seu lado. E possua olhos lindos. 
Sim, havia uma simples razo gentica para a sua cor peculiar. Ela poderia ter escrito um artigo sobre eles. Mas eram lindos.
- Voc trabalha em Boston, no trabalha?
- Trabalho. - Talvez fosse um truque da luz que a fazia parecer to perfeita, etrea e sedutora. - Eu compro. - Ele pegou-lhe a mo porque contato pessoal lhe era 
vital. E porque uma parte sua queria se certificar que ela era de verdade. - Eu vendo.
A mo de Daniel era quente e to gentil quanto fora no momento em que haviam danado. Atina retirou sua mo.
- Que interessante. O que voc compra?
- O que eu quiser. - Sorrindo, ele se aproximou mais um pouquinho. - Qualquer coisa.
O pulso de Anna acelerou, a pele esquentou. Sabia que havia causas emocionais, assim como fsicas para aquelas sensaes. Embora no pudesse pensar nisso no momento, 
no recuou.
- Tenho certeza de que  um trabalho muito satisfatrio. Isso me leva a pensar que voc vende o que no quer mais.
- Em resumo, srta. Whitfield. E mediante um lucro. Homem arrogante, pensou ela pacificamente, e inclinou a cabea.
- Algumas pessoas podem considerar isso arrogncia, sr. MacGregor.
Ela o fez rir com o jeito frio e calmo com que falava, o jeito frio e calmo com que o olhava, enquanto ele podia ver traos de paixo naqueles olhos escuros e profundos. 
Aquela era uma mulher, pensou, que podia fazer um homem esperar na soleira da porta com buqus de flores e caixas de bombons em formato de corao.
- Quando um homem pobre  arrogante, isso  rude, srta. Whitfield. Quando se trata de um homem prspero, chama-se estilo. Eu j fui as duas coisas.
Ela sentiu que havia alguma verdade naquelas palavras, mas no estava disposta a ceder.
- Estranho, nunca achei que arrogncia mudasse com os anos ou com a moda.
Daniel pegou um charuto enquanto a observava.
- Ponto para voc. - O isqueiro foi aceso, iluminando os olhos azuis por um instante. Naquele momento, Anna percebeu que ele era perigoso, afinal de contas.
- Ento, talvez devssemos dizer que empatamos. - O orgulho a impediu de dar um passo atrs. A dignidade a impediu de dar continuidade ao que estava, apesar da lgica, 
se tornando interessante. -Agora, se me der licena, sr. MacGregor, eu realmente preciso entrar.
Daniel segurou-lhe o brao de uma maneira que era tanto abrupta como possessiva. Anna no se desvencilhou, e no ficou parada. Meramente olhou-o como uma duquesa 
olharia para um plebeu coberto de poeira. Deparado com aquela desaprovao serena, a maioria dos homens teria tirado a mo e murmurado um pedido de desculpas. Daniel 
sorriu-lhe. Ali estava uma moa, pensou, que faria os joelhos de um homem tremer.
- Eu a verei novamente, srta. Anna Whitfield.
- Talvez.
- Eu a verei novamente. - Ele ergueu-lhe a mo para os lbios. Anna sentiu o roar surpreendentemente suave da barba contra seus dedos e, por um momento, o trao 
de paixo que Daniel vira nos olhos dela, voltou com fora total. - E novamente.
- Duvido que teremos muitas oportunidades de nos socializar, uma vez que s ficarei em Boston por alguns meses. Agora, se me der licena...
- Por qu?
Ele no soltou sua mo, o que a perturbou mais do que poderia se permitir demonstrar.
- Por que o qu, sr. MacGregor?
- Por que voc s ficar em Boston por alguns meses? - Se ela estivesse partindo para se casar, isso poderia mudar as coisas. Daniel a olhou e decidiu que no permitiria 
que nada mudasse.
- Vou voltar para Connecticut no fim de agosto, para meu ltimo ano da faculdade de medicina.
- Faculdade de medicina? - Ele arqueou as sobrancelhas. - Voc no vai ser enfermeira? - A voz de Daniel carregava a vaga perplexidade de um homem que no entendia, 
 possua pouca tolerncia por mulheres profissionais.
- No. - Ela esperou at senti-lo relaxar. - Vou ser cirurgia. Obrigada pela dana.
Mas ele segurou-lhe o brao de novo antes que Anna pudesse chegar  porta.
- Voc vai abrir os corpos de pessoas? - Pela segunda vez, ela ouviu a gargalhada estrondosa dele. - Est brincando.
Apesar de irritada, Anna conseguiu parecer simplesmente entediada.
- Prometo-lhe que sou muito mais divertida quando brinco. Boa noite, sr. MacGregor.
- Mdico  profisso de homem.
- Aprecio a sua opinio. Mas acredito que no essa coisa de emprego de homem, se uma mulher  capaz de faz-lo. 
Ele bufou, deu uma tragada no charuto e murmurou: 
- Isso  uma bobagem.
- Sucintamente colocado, sr. MacGregor, e, mais uma vez, rude. Voc  persistente. - Ela andou em direo s portas do terrao sem olhar para trs. Mas pensou nele. 
Ousado, grosseiro, exibicionista e tolo.
Daniel pensou em Anna enquanto a observava misturar-se com a multido. Fria, teimosa, desafiadora e ridcula.
Estavam ambos encantados.


Dois

- Conte-me tudo.
Anna colocou a bolsa sobre a toalha de Unho branco e sorriu para o garom, que aguardava pacientemente seu pedido.
- Quero um coquetel de champanhe.
- Dois - decidiu Myra e inclinou-se para frente. - E ento?
Sem pressa, Anna olhou ao redor do restaurante tranqilo, decorado em tons pastel. Havia meia dzia de pessoas que conhecia pelo nome, diversas outras que conhecia 
de vista. Achava o lugar aconchegante, seguro e calmo. Algumas vezes, na correria das aulas e dos estudos, ansiava por momentos como aquele. Algum dia, teria de 
haver um jeito de desfrutar ambas as coisas na sua vida.
- Sabe, uma coisa de que sinto falta de morar em Connecticut  almoar aqui. Estou satisfeita por sua sugesto.
- Anna. - Myra no via razo para desperdiar tempo com conversa educada quando havia novidades a serem compartilhadas. - Conte-me.
- Contar o qu? - murmurou Anna, e apreciou a expresso frustrada nos olhos da amiga.
Myra tirou um cigarro da fina cigarreira de ouro, deu duas batidinhas nele, ento o acendeu.
- Conte-me o que aconteceu entre voc e Daniel MacGregor.
- Ns danamos uma valsa. - Anna pegou o cardpio e comeou a estud-lo. Mas pegou-se batendo os ps no ritmo da msica que soou de volta em sua cabea.
- E?
Ela desviou os olhos do cardpio.
- E, o qu?
- Anna! - Myra parou de falar quando os drinques foram servidos. Impaciente, empurrou o coquetel para o lado. - Vocs ficaram sozinhos no terrao por um bom tempo.
- Verdade? - Anna deu um gole no champanhe, decidiu-se por salada e fechou o cardpio.
- Sim, verdade. - Com exibicionismo calculado, Myra soprou fumaa para o teto. -Aparentemente, vocs devem ter encontrado algum assunto para conversar.
- Creio que encontramos. - O garom voltou, e Anna pediu sua salada. Ainda muito frustrada, Myra pediu lagosta Newburg e disse a si mesma que no jantaria.
- Bem, sobre o que vocs conversaram?
- Lembro-me de que um dos tpicos foi sobre feminilidade. -Anna deu um outro gole casual em seu drinque, mas no foi totalmente capaz de esconder a expresso raivosa 
dos olhos. Vendo isso, Myra apagou o cigarro e animou-se.
- Imagino que o sr. MacGregor tenha algumas opinies formadas sobre o assunto.
Anna deu mais um gole, saboreando o gosto do champanhe antes de largar o copo.
- O sr. MacGregor  um grosseiro teimoso. Totalmente satisfeita, Myra apoiou o queixo na mo.
O pequeno vu atado ao chapu caiu-lhe sobre os olhos, mas no lhe ocultou o entusiasmo.
- Eu estava quase certa sobre a teimosia, mas teria apostado contra a parte de ele ser grosseiro. Conte-me.
- Ele admira uma mulher que fala o que pensa - continuou Anna, irritada - at certo ponto. At certo ponto - repetiu com um suspiro no muito feminino. - E esse 
ponto surge sempre que algo conflita com a opinio dele.
Um pouco desapontada, Myra deu de ombros.
- Ele se parece com qualquer outro homem.
- So homens assim que vem as mulheres como subsidirias da virilidade deles. - Recostando-se, Anna comeou a tamborilar os dedos em um ritmo lento e firme sobre 
a toalha da mesa. - Somos timas enquanto estivermos assando bolos, trocando fraldas dos bebs e esquentando os lenis.
Myra deu um gole no champanhe. 
- Meu Deus, ele mexeu com voc em muito pouco tempo. 
Deliberadamente, Anna recuou. Detestava perder a calma, e reservava o privilgio para alguma coisa que considerasse realmente importante. Lembrou a si mesma de que 
Daniel MacGregor no tinha tais qualificaes.
- Ele  rude e arrogante - disse ela mais calmamente, a Myra considerou por um momento. 
- Pode ser - concordou ela. - Mas isso no  necessariamente um ponto contra ele. Eu preferia estar perto de um homem arrogante do que de um tedioso.
- Tedioso ele no . Voc no viu a manobra que fez com Cathleen?
Os olhos de Myra se iluminaram. 
- No.
- Ele sinalizou para que um homem interrompesse a dana dos dois, de modo que pudesse afastar Herbert e danar comigo.
- Que esperto! - Myra sorriu em aprovao, ento riu da expresso de Anna. - Vamos, querida, voc tem de admitir que foi esperteza. E Cathleen estava muito envolvida 
com seu prprio charme para notar. - Myra suspirou de prazer quando sua lagosta foi servida. - Sabe, Anna, voc devia estar lisonjeada.
- Lisonjeada? - Ela espetou a salada com o garfo. -No vejo por que eu deveria me sentir lisonjeada porque um homem enorme, tolo, que se acha muito importante, preferiu 
danar comigo.
Myra parou um pouco para apreciar o cheiro da lagosta.
- Ele  certamente enorme, e talvez seja tolo, mas  importante. E, de um jeito rude,  atraente. Obviamente, pelo modo como voc dispensa outros homens, no est 
interessada em um tipo suave e sofisticado.
- Tenho que pensar em minha carreira, Myra. No tenho tempo para homens.
- Querida, h sempre tempo para os homens. - Com uma risada, ela levou uma garfada da lagosta  boca. - No estou dizendo que voc deva lev-lo a srio.
- Fico feliz em ouvir isso.
- Mas no vejo por que deve dispens-lo.
- No tenho inteno de enrolar o homem.
- Voc est sendo teimosa.
Anna riu. Um dos motivos por que gostava tanto de Myra era pela forma como sua amiga via as coisas claramente... do jeito dela.
- Estou sendo eu mesma.
- Anna, sei o que se tornar mdica significa para voc, e voc sabe o quanto admiro o que est fazendo. - Mas - continuou ela antes que Anna pudesse interromper 
-, voc ficar em Boston durante o vero, de qualquer forma. Que mal pode haver em ter uma escolta agradvel que obviamente a levar para sair?
- No preciso de escolta.
- Precisar e ter so duas coisas diferentes. - Myra quebrou a ponta de um. pozinho e jurou a si mesma que s comeria metade. - Diga-me, Anna, seus pais ainda a 
esto pressionando sobre sua deciso de se formar em medicina? Continuam selecionando homens elegveis para faz-la mudar de idia?
- Eles j selecionaram trs candidatos em potencial para mim s neste vero. - Ela tivera de convencer a si mesma que deveria se divertir com aquilo e quase conseguira. 
- No topo da lista, est o neto do mdico da minha me. Ela acha que a conexo dele com a medicina pode me influenciar.
- Ele  atraente? - Myra descartou a pergunta com um aceno de mo quando viu a expresso de Anna. - Esquea, ento. A questo  que seus pais vo continuar colocando 
todos esses homens no seu caminho, esperando que algum d certo. - Ela passou um pouco de manteiga no po. - Mas, se voc estiver saindo com algum...
- Como Daniel MacGregor.
- Por que no? Ele certamente pareceu interessado ontem  noite.
Anna pegou o po em que Myra havia passado manteiga e deu uma mordida.
- Porque  desonesto. Eu no estou interessada.
- Isso pode impedir sua me de convidar todos os homens solteiros, entre 24 e 40 anos, para tomar um ch na sua casa.
Anna suspirou longamente. Myra tinha razo naquela questo. Se pelo menos seus pais entendessem do que ela precisava, pelo que estava aspirando... Para seu prprio 
bem. Quantas vezes tinha ouvido essa frase em particular? Se um dia se casasse, e se um dia tivesse filhos, essas quatro palavras jamais sairiam de sua boca.
Anna estava bastante ciente de que seus pais haviam parado de discutir sobre seu ingresso na faculdade de medicina, porque acreditavam piamente que ela desistiria 
antes do fim do primeiro semestre. Se no fosse por tia Elsie, Anna sabia que provavelmente no teria conseguido cursar a faculdade de forma alguma. Elsie Whitfield, 
a irm mais velha do pai de Anna fora bastante excntrica... uma solteirona, que tinha ganhado dinheiro, alguns diziam, vendendo bebida alcolica durante a Lei Seca. 
Anna mal podia culp-la pela forma como ganhara dinheiro, uma vez que tia Elsie lhe deixara uma herana grande o bastante para sua instruo e independncia, sem 
estabelecer qualquer condio.
No se case com um homem a menos que esteja absolutamente certa disso, Anna lembrou-se do conselho de Elsie. Se voc tem um sonho, persiga-o. A vida  muito curta 
para covardes. Use o dinheiro, Anna, e se torne algum, faa alguma coisa para si mesma.
Agora, ela estava a poucos meses da realizao de seu sonho... graduar-se, e depois fazer a especializao. No seria fcil para seus pais aceitarem. Seria ainda 
mais difcil quando soubessem que pretendia comear a especializao no hospital Boston General... e que no pretendia morar em casa enquanto no a tivesse concludo.
- Myra, estou pensando em morar sozinha.
Com o garfo na metade do caminho para a boca, Myra parou.
- Voc disse isso a seus pais?
- No. - Anna afastou o prato de salada para o lado e perguntou-se por que a vida era to complicada quando tantas coisas lhe pareciam claras. - Eu no quero aborrec-los, 
mas est na hora. Nunca me vero como a mulher adulta que sou enquanto eu estiver morando com eles. Alm disso, se eu no quebrar o elo agora, iro esperar que eu 
continue morando em casa depois que me formar.
Myra recostou-se e terminou seu champanhe.
- Acho que tem razo. Tambm acho que seria mais sbio voc contar-lhes depois que o fato for consumado.
- Concordo. Gostaria de passar a tarde procurando apartamento?
- Eu adoraria. Mas depois de uma musse de chocolate. - Ela sinalizou para o garom. - Entretanto, Anna, isso no resolve o problema com Daniel MacGregor. 
- No existe um problema.
- Oh, acho que voc pode contar com um. Musse de chocolate - ela disse para o garom. - No economize no chantilly. 
                                                          
Em seu escritrio recentemente decorado, Daniel sentado atrs de uma enorme mesa de carvalho, acendeu um charuto. Havia acabado de fechar um negcio no qual comprara 
a maior parte de uma companhia que fabricaria televises. Calculava que o que era agora uma novidade se tornaria artigo de consumo nas casas americanas em questo 
de poucos anos.
Alm disso, gostava de assistir a um pouco de boxe. Comprar alguma coisa que o entrelinha lhe dava imensa satisfao. No entanto, seu maior projeto no momento era 
impedir a falncia do Old Line Savings and Loan e transformar o banco na maior instituio de emprstimos em Boston. Ele j tinha comeado concedendo dois grandes 
emprstimos e refinanciando diversos outros. Acreditava que fazer o dinheiro circular era faz-lo crescer. O gerente do banco estava apavorado, mas Daniel imaginava 
que o homem cederia ou encontraria outro emprego. Enquanto isso, Daniel tinha algumas pesquisas para fazer.
Anna Whitfield. Conhecia a histria da famlia dela porque o pai de Anna era um dos melhores advogados do estado. Daniel quase o contratara antes de decidir-se pelo 
mais jovem e mais flexvel Herbert Ditmeyer. Agora que Herbert fora eleito promotor, ele poderia ter de repensar sobre isso. Talvez o pai de Anna Whitfield fosse 
a resposta. J tinha decidido que Anna era.
A casa da famlia dela em Beacon Hill fora construda no sculo XVIII. Seus ancestrais haviam sido patriotas, que tinham comeado uma vida nova no Novo Mundo e prosperado. 
Por diversas geraes, os Whitfield formavam uma unidade slida na sociedade de Boston.
Daniel respeitava imensamente uma linhagem forte. Prncipe ou indigente, no importava, mas fora e resistncia. Anna Whitfield tinha uma boa linhagem. Esse era 
o principal pr-requisito para uma esposa. Ela possua a cabea no lugar. No levou muito tempo para ele descobrir que, embora ela estivesse estudando alguma coisa 
to estranha como medicina, era a melhor aluna da classe. Daniel no pretendia que seus filhos tivessem uma me com crebro fraco. Ela era adorvel. Um homem procurando 
por uma esposa e pela me de seus filhos precisava apreciar a beleza. Especialmente uma beleza daquele tipo suave.
Ela tambm no era ingnua. Daniel no queria uma esposa cegamente obediente, que sorrisse com afetao... embora esperasse uma mulher que respeitasse a autoridade 
do chefe da famlia.
Havia uma dzia de mulheres que poderia cortejar e; conquistar, mas nenhuma lhe apresentara aquela qualidade extra. Um desafio. Aps um nico encontro com Anna, 
Daniel estava certo de que ela lhe daria isso. Ser perseguido por uma mulher alimentava o ego, mas um desafio... um desafio esquentava o sangue. E ele era guerreiro 
o bastante para ansiar por uma luta.
Se sabia fazer alguma coisa, era preparar o terreno para conquistar o que queria. Primeiro, descobria as foras e fraquezas do oponente. Ento, jogava com ambas. 
Pegando o telefone, recostou-se em sua cadeira e comeou.
Algumas horas depois, estava lutando com o n de sua gravata preta de seda. O nico problema em ser rico, at onde podia ver, era a parte do vesturio. No havia 
dvida de que era uma figura imponente vestido de preto, mas nunca deixava de se sentir tenso com a restrio dos movimentos. Entretanto, se um homem ia sair para 
conquistar uma mulher, teria mais vantagens se vestisse seu melhor traje.
De acordo com suas informaes, Anna Whitfield passaria a noite assistindo a um bale com as amigas. Daniel teria de agradecer seu contador por t-lo convencido a 
alugar um camarote no teatro. Podia no t-lo usado muito at agora, mas esta noite compensaria tudo.
Estava assobiando quando desceu a escada para o primeiro piso. A maioria das pessoas consideraria sua casa de vinte cmodos um pouco de exagero para um nico homem, 
mas, para Daniel, a casa com janelas altas e pisos brilhantes era uma declarao: enquanto a possusse, jamais precisaria voltar para o chal de trs cmodos no 
qual crescera. A casa dizia o que Daniel precisava dizer... que o homem que a possua tinha sucesso, presena e estilo. Sem essas coisas, Daniel Duncan MacGregor 
estaria de volta s minas, com a poeira de carvo em sua pele e os olhos avermelhados.
Ao p da escada, parou para falar:
- McGee! - E sentiu uma tola onda de prazer pelo modo como sua voz grossa ecoou atravs das paredes.
- Senhor. - McGee andou ao longo do grande hall, a postura ereta e firme. J tinha servido outros cavalheiros, mas nenhum to pouco convencional ou to generoso 
quanto MacGregor. Alm disso, agradava-o trabalhar para um compatriota escocs.
- Vou precisar do carro.
- Est esperando pelo senhor do lado de fora.
- O champanhe?
- Gelado,  claro, senhor.
- As flores?
- Rosas brancas. Duas dzias como o senhor requisitou. 
- timo, timo. - Daniel estava na metade do caminho para a porta quando parou e se virou. - Sirva-se de usque, McGee. Voc tem a noite livre.
Sem mudar a expresso, McGee inclinou a cabea.
- Obrigado, senhor.
Assobiando de novo, Daniel foi para o carro que o esperava. Comprara o Rolls prateado por um capricho, mas no tinha motivo para se arrepender. Tinha dado ao jardineiro 
o emprego extra de chofer, e agradara a ambos presenteando o homem com um uniforme cinza perolado e um chapu. A gramtica de Steven podia ser falha, mas uma vez 
que estava atrs do volante, ele era a dignidade personificada.
- Boa noite, sr. MacGregor. - Steven abriu a porta, ento poliu a maaneta com um pano macio antes de fech-la novamente. Daniel podia ter comprado o Rolls, mas 
Steven cuidava do carro como um filho.
Aps acomodar-se no luxuoso banco traseiro, Daniel abriu a maleta que o esperava. Levariam 15 minutos para chegar ao teatro, o que significava que teria esses minutos 
para trabalhar. Tempo ocioso era para quando ficasse velho.
Se as coisas sassem conforme o planejado por ele, teria aquele pedao de terra em Hyannis Port na semana seguinte. Os penhascos, o rochedo cinza, o gramado alto. 
tudo o lembrava da Esccia. Faria seu lar l, uma casa que j podia imaginar. Nada se compararia com aquela imagem.
Assim que a casa estivesse pronta, ele a preencheria com uma esposa e filhos. Ento, pensou em Anna.
As rosas brancas estavam espalhadas no assento a seu lado. O champanhe estava coberto com gelo. Assim que se sentasse durante a apresentao de bale estaria iniciando 
sua corte. Pegando uma rosa, cheirou-a. O aroma era suave e doce. Rosas brancas eram as suas favoritas. No levara muito tempo para descobrir isso. Uma mulher no 
resistiria a duas dzias delas, no resistiria ao luxo que ele tinha a oferecer. Devolveu a rosa para junto das outras. Estava decidido. Levaria um curto perodo 
de tempo at que a tornasse sua. Satisfeito, recostou-se e fechou a maleta quando Steven parou em frente ao teatro.
- Duas horas - disse ele ao motorista. Ento, num impulso, pegou uma das rosas novamente. No faria mal algum comear sua campanha um pouco mais cedo.
A cena no saguo do teatro era bonita e brilhante. Vestidos longos em tons pastel contrastavam com ternos escuros. Havia o brilho de prolas e diamantes, e o perfume 
feminino por todo lado. Daniel vagou entre a multido. Seu tamanho e presena, adicionados ao seu jeito casual, fascinavam muitas mulheres. Ele sorriu. Uma mulher 
que era facilmente fascinada seria facilmente tediosa. Oscilaes de humor no eram o que um homem sbio procurava em uma parceira. Especialmente quando o prprio 
homem tinha inclinao para mudanas de humor.
Enquanto andava por entre a multido, de vez em quando era parado para uma palavra amigvel ou para um cumprimento. Gostava das pessoas. Portanto, achava fcil socializar-se, 
tanto no saguo de um teatro quanto no pior de seus canteiros de obras. Uma vez que era, em primeiro, e em ltimo lugar, um homem de negcios, sentia-se  vontade 
conversando sobre um assunto... enquanto pensava em outro totalmente diferente. No considerava isso desonesto, era, simplesmente, prtico. Assim, enquanto parava 
aqui e ali para falar com algum, estava realmente procurando por Anna.
Quando a avistou, ficou to impressionado quanto tinha ficado no baile. Ela estava de azul-claro. Um azul que fazia a pele alva brilhar como neve. Os cabelos estavam 
presos por fivelas no topo da cabea, de modo que  o rosto sem moldura parecia-se mais do que nunca com o camafeu da av de Daniel. Ele sentiu uma onda de desejo, 
ento, alguma coisa mais forte e mais profunda do que esperava. Ainda assim, aguardou pacientemente at que ela virasse a cabea e seus olhos se encontrassem. Anna 
no enrubesceu ou flertou, como outras mulheres teriam feito, mas simplesmente sustentou-lhe o olhar com calma e apreciao. Daniel sentiu a excitao e o desafio 
do jogo enquanto se aproximava.
Num movimento que era muito suave para ser considerado rude, dirigiu-se a ela e ignorou o grupo ao redor.  
- Srta. Whitfield, da valsa.
Quando ele lhe ofereceu a rosa, Anna hesitou, ento viu que no havia um meio educado de recusar. Mesmo enquanto pegava a flor, o aroma da mesma preencheu-lhe os 
sentidos.
- Sr. MacGregor, no creio que conhea minha amiga, Myra. Myra Lornbridge, Daniel MacGregor.
- Como vai? - Myra ofereceu a mo, medindo-o com cuidado. Ele a fitou diretamente nos olhos, a expresso fria e cautelosa. Myra descobriu, embora no estivesse certa 
se gostava do homem, que o respeitava. - Ouvi falar muito a seu respeito.
- J fiz alguns negcios com seu irmo. - Ela era menor do que Anna, embora mais rechonchuda. Uma olhada disse a Daniel que a moa era terrvel, porm interessante.
- No foi por ele que ouvi a seu respeito. Jasper nunca faz fofocas, infelizmente.
Daniel enviou-lhe um sorriso rpido.
- Motivo pelo qual aprecio fazer negcios com ele. Voc gosta de bale, srta. Whitfield?
- Sim, muito. - Ela cheirou a rosa involuntariamente, ento, irritada consigo mesma, baixou as mos.
- Sinto no ter visto muitos bales, e parece no ter o mesmo impacto sobre mim. - Ele acrescentou um sorriso triste ao charme da rosa. - Eu soube que ajuda se voc 
conhecer a histria ou se assistir na companhia de algum que realmente aprecia o bale.
- Tenho certeza de que isso  verdade.
- Eu gostaria de lhe pedir um grande favor.
Sinais de aviso brilharam na mente de Anna, fazendo-a estreitar os olhos.
- Pode pedir,  claro.
- Tenho um camarote. Se voc se sentar comigo, talvez possa me mostrar como apreciar a dana.
Anna apenas sorriu. No era fcil convenc-la.
- Em outras circunstncias, eu ficaria feliz em ajud-lo, mas estou aqui com amigas e...
-No se importe conosco - interrompeu Myra. E ainda por cima, acrescentou: - Seria uma pena que o sr. MacGregor assistisse  Giselle sem apreciar o espetculo completamente, 
voc no acha? - Com o semblante perverso, sorriu para Anna. - Vocs dois, vo em frente.
- Fico grato. - Daniel fitou Myra, e seus olhos, os quais estiveram frios, aqueceram com humor. - Muito grato, srta. Whitfield?
Daniel ofereceu o brao. Por um instante, Anna considerou jogar a rosa no cho e amass-la sob o p antes de sair andando. Ento, sorriu e enlaou o brao no dele. 
Havia melhores maneiras de vencer um jogo, alm de exploso de raiva. Daniel a conduziu, piscando para Myra enquanto andava. Myra recebeu a piscada e a carranca 
de Anna com a mesma confiana.
- No  estranho manter um camarote no teatro quando voc no  capaz de apreci-lo?
- Negcios - disse Daniel brevemente, enquanto eles subiam a escada. - Porm, esta noite, tenho certeza de que vai valer a pena todo o dinheiro que gastei aqui.
- Oh, pode contar com isso. - Anna passou pelas portas e se sentou. Cuidadosamente, colocou a rosa no colo e permitiu que Daniel removesse o casaco de renda cor 
de marfim que ela vestia. Sob ele, os ombros de Anna estavam nus. Ambos se tornaram conscientes do que o toque mais leve de pele contra pele podia provocar. Ela 
cruzou as mos e decidiu dar-lhe exatamente o que ele havia pedido.
- Agora, vou lhe fazer um resumo da histria. - Em um tom de professora de jardim da infncia, Anna contou-lhe a histria de Giselle. Sem lhe dar a chance de fazer 
qualquer comentrio durante o discurso, discorreu tudo que sabia sobre bale em geral. O bastante, pensou, para fazer um homem forte dormir.
- Ah, a vem a cortina. Agora, preste ateno.
Satisfeita com sua ttica, Anna recostou-se e preparou-se para se divertir. No podia se concentrar. Nos primeiros dez minutos, sua mente vagou diversas vezes. Daniel 
estava sentado, quieto ao seu lado, mas no se sentia intimidado. Ela tinha certeza disso. Pensou que, se virasse a cabea apenas alguns centmetros, o veria sorrindo. 
Olhou para a frente. Myra iria pagar por t-la deixado na companhia de um ruivo brbaro, pensou. E Anna no o olharia. No faria isso, prometeu a si mesma, nem mesmo 
pensaria a respeito dele. Em vez disso, absorveria a msica, as cores, a dana do bale que amava. Era romntico, excitante, comovente. Se pudesse apenas relaxar, 
esqueceria que estava ali. Decidida, respirou fundo cinco vezes. Ento, ele tocou-lhe a mo, fazendo seu corao disparar.
-  tudo sobre amor e sorte, no ? - murmurou Daniel.
Ela percebeu que, brbaro ou no, ele entendia, e, pelo tom calmo da voz, parecia apreciar. Incapaz de resistir, Anna virou a cabea. Os rostos de ambos estavam 
perto, as luzes eram fracas. A msica suave os envolvia. Uma pequena parte do corao de Anna enfraqueceu e ela se perdeu nele.
- A maioria das coisas .
Ele sorriu, e, na luz parca, pareceu incrivelmente viril, incrivelmente gentil.
- Uma coisa sbia para se lembrar, Anna.
Antes que ela pudesse pensar em resistir, ele entrelaou os dedos dela com os seus. De mos dadas, assistiram  dana juntos.
Daniel manteve-se perto durante o intervalo, oferecendo-lhe um drinque e canaps antes que ela pudesse impedi-lo. De alguma maneira, distraiu-a at que era tarde 
demais para dar uma desculpa e juntar-se s amigas para a ltima parte do espetculo. Quando Anna se sentou, depois do intervalo, disse a si mesma que estava apenas 
sendo educada, permanecendo no camarote at o final. No era uma questo de querer estar l, ou de estar se divertindo, mas de boas maneiras. Conseguiu ficar sentada 
de maneira adequada por cinco minutos antes de ser envolvida novamente pelo romance da histria.
Sentiu lgrimas nos olhos quando Giselle deparou-se com  tragdia. Apesar de manter o rosto virado e piscar furiosamente, Daniel percebeu sua emoo. Sem uma palavra, 
passou-lhe um leno. Ela o aceitou com um pequeno suspiro.
-  to triste - murmurou Anna. - No importa quantas vezes eu veja.
- Algumas coisas bonitas so tristes de propsito, para que possamos apreciar as coisas bonitas que no so.
Surpresa, ela virou-se para ele novamente, com os clios ainda molhados pelas lgrimas. Daniel MacGregor no parecia um brbaro quando falava daquela maneira. De 
alguma forma, Anna desejava que parecesse. Perturbada, virou-se para ver a dana final.
Quando os aplausos morreram e as luzes se acenderam, ela estava composta. Por dentro, as emoes ainda estavam em turbilho, mas culpou a histria da pea polisse 
Sem deixar transparecer as emoes, aceitou a mo de Daniel no momento em que ele a ajudou a levantar-se.
- Posso honestamente dizer que nunca apreciei tanto um bale antes. - Da maneira corts que podia agir sem aviso, beijou-lhe a mo delicadamente. - Obrigado, Anna.
Cautelosa, ela pigarreou.
- De nada. Se me der licena agora, preciso encontrar minhas amigas.
Daniel continuou segurando-lhe a mo enquanto saam do camarote.
- Tomei a liberdade de dizer  sua amiga Myra que eu a levarei para casa.
- Voc...
-  o mnimo que posso fazer - interrompeu ele suavemente -, depois de ter sido to gentil em me instruir. Isso me fez pensar por que voc no pensou em lecionar.
A voz de Anna esfriou enquanto eles desciam a escada para o saguo. Ele estava rindo dela, mas isso j lhe acontecera antes.
- No  prudente assumir responsabilidades por uma outra pessoa sem perguntar antes. Eu poderia ter planos.
- Estou  sua disposio.
Anna no perdia a pacincia facilmente, mas estava perto.
- Sr. MacGregor...
- Daniel.
Ela abriu a boca, ento a fechou novamente, at que estivesse certa de que poderia permanecer calma.
- Aprecio a oferta, mas posso ir para casa sozinha.
- Anna, voc j me acusou de ser rude uma vez. - Ele falou alegremente enquanto a conduzia para seu carro. - Que tipo de homem eu seria se, no mnimo, no a levasse 
para casa?
- Acho que ambos sabemos o tipo de homem que voc .
- Verdade. - Ele parou do lado de fora da porta, onde algumas pessoas ainda conversavam. -  claro, se voc estiver com medo, eu lhe chamo um txi.
- Com medo? - Os olhos dela se iluminaram. Paixo, ardor, raiva, no importava. Daniel estava comeando a adorar aquele olhar. - Voc  prepotente.
- Constantemente. - Com um gesto, ele indicou a porta que Steven mantinha aberta. Muito zangada para pensar, Anna entrou e foi cumprimentada pelo aroma quente de 
rosas. Cerrando os dentes, colocou-as nos braos de modo que pudesse se sentar o mais perto possvel da porta. Levou apenas um minuto para perceber que Daniel era 
muito decidido para tornar a distncia vivel.
- Voc sempre mantm flores em seu carro?
- Apenas quando estou escoltando uma linda mulher.
Anna desejou que tivesse coragem de jogar as flores pela janela.
- Voc planejou isso cuidadosamente, no planejou? Daniel tirou a rolha do champanhe gelado.
- No faz sentido planejar se voc no  cuidadoso.
- Myra diz que eu deveria ficar lisonjeada.
- Tenho a impresso de que Myra  uma mulher inteligente. Aonde voc gostaria de ir?
- Para casa. - Ela aceitou o champanhe e deu um gole para acalmar os nervos. - Preciso acordar cedo manh. Estou trabalhando no hospital.
- Trabalhando? - Ele virou-se para ela e franziu o cenho, enquanto colocava a garrafa de volta no gelo. - Voc no disse que ainda falta um ano para terminar a faculdade?
- Mais um ano antes que eu tenha o diploma e comece a fazer a especializao. No momento, meu emprego inclui apenas esvaziar comadres.
- Isso no  algo que uma mulher como voc deveria estar fazendo. - Daniel acabou a primeira taa de champanhe e serviu-se de outra.
- Eu lhe asseguro que aceitarei sua opinio para o que valer a pena.
- No pode me dizer que voc gosta disso.
- Posso lhe dizer que gosto de saber que estou fazendo alguma coisa para ajudar outras pessoas. - Ele bebeu de novo, e manteve a taa erguida. - Deve ser difcil 
para voc entender, uma vez que no se trata de negcios, e sim de humanidade.
Ele poderia t-la corrigido, ento. Poderia ter contado que doava grande quantidade de dinheiro para servios mdicos em benefcio dos mineradores em sua regio, 
na Esccia. No era algo que seu contador tinha aconselhado, mas uma coisa que tinha de fazer. Em vez disso, focou-se na nica coisa destinada a deix-la furiosa.
- Voc deve estar pensando em casamento e uma famlia.
- Porque uma mulher no  capaz de fazer mais nada, exceto cuidar de uma criana puxando seu avental, enquanto o irmo se enfia por baixo dele?
As sobrancelhas de Daniel se arquearam. Supunha que devia estar acostumado com o jeito brusco com que as mulheres americanas falavam as coisas.
- Porque uma mulher  feita para ter um lar e uma famlia. Para o homem  mais fcil, Anna. Ele s tem de sair e ganhar dinheiro. A mulher segura o mundo nas mos.
A maneira como ele falou aquilo fez Anna sentir dificuldade em retrucar.
- J lhe ocorreu que um homem no precisa fazer uma escolha entre ter uma famlia ou ter uma carreira?
- No.
Ela quase riu quando se virou para encar-lo. 
-  claro que no. Por que lhe ocorreria? Aceite meu conselho, Daniel, procure uma mulher que no tenha dvidas sobre o que quer e para o que foi feita. Encontre 
uma que no tenha de lutar contra oponentes imaginrios.
- No posso fazer isso.
Havia um meio sorriso em seu rosto, mas desapareceu rapidamente. O que viu nos olhos dele a fez sentir tanto pnico quanto excitao. 
- Oh, no. - Anna falou rapidamente e bebeu o resto do champanhe. - Isso  ridculo.
- Talvez. - Ele segurou-lhe o rosto nas mos e observou-a arregalar os olhos. - Talvez no. Mas, de qualquer forma, eu escolhi voc, Anna Whitfield, e quero ter 
voc. 
- Voc no escolhe uma mulher do jeito que escolhe uma gravata. - Ela tentou reunir dignidade e indignao, mas seu corao estava batendo descompassado. 
- No, voc no escolhe. - Daniel percebeu a sbita ;j mudana na respirao dela, e passou um polegar ao longo do maxilar delicado para sentir o calor. - E um homem 
no aprecia uma pea de roupa, como se fosse um tesouro, da maneira que aprecia uma mulher.
- Acho que voc enlouqueceu. - Anna ps uma das mos sobre o pulso dele, mas a mo enorme no se moveu. - Nem mesmo me conhece.
- Vou conhec-la melhor.
- No tenho tempo para isso. - Ela olhou ao redor, frentica, e viu que ainda estavam a vrios quarteires de sua casa. Ele era louco, decidiu. O que estava fazendo 
no banco de trs de um Rolls com um homem louco?
A inesperada onda de pnico de Anna o agradou.
- Para o qu? - murmurou ele e alisou-lhe o rosto com o polegar.
- Para nada disso. - Talvez pudesse zombar dele. No, tinha de ser firme. - Flores, champanhe, luar.  bvio que voc est tentando ser romntico e eu...
- Deveria ficar quieta por um minuto - disse ele, e encerrou a questo fechando a boca sobre a dela.
Anna agarrou as rosas no colo at que um espinho picou-lhe a pele. Ela nunca chegou a notar. Como poderia ter imaginado que a boca de Daniel seria to suave ou to 
habilidosa? Um homem daquele tamanho devia parecer desajeitado ou dominador quando passava os braos ao redor de uma mulher. Ele a puxou para si como se tivesse 
feito isso incontveis vezes. A barba roou o rosto de Anna, sensibilizando-lhe a pele, enquanto ela se esforava para permanecer insensvel. Seus dedos cocavam 
de vontade de acariciar-lhe a barba, e ela a alcanou antes que o bom senso pudesse impedir.
Alguma coisa quente e poderosa a envolveu. A paixo que mantinha firmemente controlada, lutou para se libertar e zombar de tudo que um dia acreditara sobre si mesma. 
Se Daniel era louco, ela tambm era. Com um gemido que era em parte protesto, em parte confuso, segurou-lhe os ombros e correspondeu.
Daniel havia esperado uma luta, ou, no mnimo, indignao. Pensara que ela se desvencilharia e lhe desse um daqueles olhares frios para coloc-lo em seu lugar. Em 
vez disso, Anna pressionou-se contra ele e fez sua atitude impulsiva chamejar como uma tocha ao vento. No sabia que ela podia tirar-lhe o controle com dedos to 
delicados, e deix-lo vazio e vulnervel. No sabia que ela lhe despertaria um desejo to avassalador. Anna era apenas uma mulher, uma que ele escolhera para completar 
seus planos de sucesso e poder. No deveria faz-lo esquecer tudo, e apenas querer senti-la e prov-la.
Ele sabia o que era querer... uma mulher, riqueza, poder. Agora, com Anna pressionada contra seu corpo, com o aroma das rosas invadindo-lhe os sentidos e o gosto 
doce preenchendo-lhe a alma, ela era todas essas coisas em uma s. Quer-la era querer tudo.
Anna estava sem flego quando eles se separaram. Sem flego, excitada e assustada. Para combater a sua ; fraqueza, usou o ataque.
- Suas maneiras continuam sendo rudes, Daniel. Ele ainda podia ver traos de paixo nos olhos dela,
ainda sentia paixo vibrando em Anna.
- Voc ter de me aceitar como eu sou, Anna.
- No preciso aceit-lo de maneira alguma. -Dignidade, disse ela a si mesma. A qualquer custo, necessitava preservar algum resqucio de dignidade. Um beijo no banco 
de trs de um carro no significava nada mais do que o tempo que levava para realiz-lo. Foi s naquele momento que Anna percebeu que estavam parados na porta de 
sua casa.
H quanto tempo!, perguntou-se. Se estava vermelha, era de raiva, disse a si mesma. Lutou com a maaneta da porta antes que o motorista desse a volta e a abrisse 
para ela.
- Leve as rosas, Anna. Elas combinam com voc. Ela apenas o olhou por sobre o ombro.
- Adeus, Daniel.
- Boa noite - corrigiu ele, e observou-a correr pela calada, com o vestido azul-claro girando ao redor das pernas. As rosas permaneciam no assento, ao lado de Daniel. 
Pegando uma delas, bateu-a contra seus lbios. O boto no era to macio ou to doce quanto Anna. Daniel o largou. Ela deixara as flores para trs, mas ele as enviaria 
para a sua residncia na manh seguinte, talvez acrescentando mais uma dzia. Tinha apenas comeado.
Sua mo no estava completamente firme quando pegou a garrafa de champanhe. Daniel encheu a taa at a boca e virou-a num longo gole.


Trs

Na manh seguinte, Anna estava trabalhando no hospital. O tempo que passava l lhe trazia, ao mesmo tempo, prazer e frustrao. Nunca fora capaz de explicar para 
ningum a excitao que sentia quando entrava no hospital, nem para seus pais nem para seus amigos. Ningum entenderia a satisfao que lhe dava saber que era parte 
daquilo... o aprendizado e a cura.
A maioria das pessoas achava o hospital um lugar horrvel. Para elas, as paredes brancas, as luzes brilhantes e o cheiro de anti-sptico significavam doena, at 
mesmo morte. Para Anna, significavam vida e esperana. As horas que passava l a tornavam mais determinada a ser parte da comunidade mdica, assim como as horas 
que passava lendo livros e artigos de medicina a tornavam mais determinada a aprender tudo que pudesse.
Anna tinha um sonho que nunca fora capaz de compartilhar com ningum. Para ela, era simples e pretensioso: queria fazer diferena. A fim de realizar o seu sonho, 
precisava devotar horas de sua vida ao aprendizado.
Trabalhando como leiga, separando roupas de cama distribuindo revistas, ainda aprendia. Observava mdicos residentes fazerem turnos aps cochilos. Um grande nmero 
deles no conseguiria se tornar mdicos, independentemente de quo altas suas notas tivessem sido na faculdade. Mas ela conseguiria. Anna observava, ouvia e reforava 
sua deciso.
Aprendeu uma outra coisa, algo que estava determinada a jamais esquecer. A espinha dorsal do hospital no eram os cirurgies ou os mdicos residentes. No eram os 
administradores, embora eles fizessem oramentos e regras. Era a equipe de enfermagem e de funcionrios. Os mdicos examinavam e diagnosticavam, mas os enfermeiros 
curavam, pensou Anna. Passavam horas em p, andavam quilmetros de corredores todos os dias. Qualquer chapu que estivessem usando... recepcionistas, atendentes 
de enfermagem, pessoal de apoio... Anna via a mesma coisa: dedicao, geralmente combinada com fadiga.
Foi ento que, no vero antes de seu ltimo ano da faculdade de medicina, fez uma promessa a si mesma. Seria mdica, cirurgia, mas seria uma mdica com a compaixo 
de uma enfermeira.
- Oh, srta. Whitfield. - A sra. Kellerman, a enfermeira chefe, parou Anna com um ligeiro sinal de mo, ento acabou de preencher um relatrio. Ela era enfermeira 
pelo mesmo tempo que era viva, 20 anos. Aos 50, era forte como ao e incansvel como uma adolescente. Kellerman era gentil com os pacientes e dura com as enfermeiras. 
- A sra. Higgs do quarto 521 est perguntando por voc.
Anna mudou de brao a pilha de revistas que carregava. O quarto 521 seria sua primeira parada.
- Como ela est hoje?
- Estvel - Kellerman respondeu sem olhar para cima. Estava no meio de um turno de dez horas e no tinha tempo para conversa fiada. - Passou uma noite tranqila.
Anna reprimiu um suspiro. Sabia que Kellerman teria checado o relatrio mdico da sra. Higgs pessoalmente e poderia ter lhe dado informaes exatas. Tambm conhecia 
a opinio de Kellerman sobre o sistema. Mulheres deveriam trabalhar em certas reas, homens em outras. No havia cruzamento. Em vez de questionar Kellerman, Anna 
desceu o corredor. Iria ver por si mesma.
As persianas estavam abertas no quarto da sra. Higgs. A luz do sol penetrava e fazia brilhar as paredes e lenis brancos. O rdio tocava baixinho. A sra. Higgs 
estava deitada calmamente na cama. O rosto magro possua rugas mais profundas do que o normal para uma mulher que ainda no chegara aos 60 anos. Os cabelos eram 
finos e grisalhos. As marcas de blush que ela tinha aplicado naquela manh coloriam as faces plidas. Embora a cor da mulher deixasse Anna apreensiva, sabia que 
tudo que podia ser feito estava sendo feito. Nas pontas das mos fracas, as unhas da sra. Higgs estavam pintadas de vermelho forte. O que fez Anna sorrir. A sra. 
Higgs lhe dissera uma vez que podia perder sua boa aparncia, mas nunca sua vaidade.
Porque os olhos da mulher estavam cerrados, Anna fechou a porta suavemente. Aps largar as revistas, andou at a prancheta com o relatrio aos ps da cama.
Como Kellerman tinha dito, o estado da sra. Higgs era estvel, sem melhoras ou pioras por mais de uma semana.
A presso sangnea estava um pouco baixa e ela ainda era incapaz de comer alimentos slidos, mas havia passado a noite confortavelmente. Satisfeita, Anna foi at 
a janela para fechar as persianas.
- No, querida, eu gosto do sol.
Anna virou-se e encontrou a sra. Higgs sorrindo-lhe.
- Desculpe-me, acordei a senhora?
- No, eu estava devaneando um pouco. -A dor estava sempre l, mas a sra. Higgs continuou sorrindo enquanto estendia uma das mos. - Eu tinha esperana que voc 
viesse hoje.
- Oh, eu tinha de vir. - Anna se sentou ao lado da cama. - Peguei uma revista de modas emprestada de minha me. Espere at que veja o que Paris est nos preparando 
para o outono.
Com uma risada, a sra. Higgs desligou o rdio.
- Eles nunca sero melhores do que nos anos 1920. Nessa poca, havia moda com ousadia. E claro, voc precisava ter pernas longas e coragem. - Ela conseguiu uma piscada. 
- Eu tinha.
- A senhora ainda tem.
- A coragem, no as pernas. - Suspirando, a sra. Higgs mudou de posio. Anna levantou-se imediatamente para arrumar os travesseiros. - Eu sinto saudade de ser jovem, 
Anna.
- Eu gostaria de ser mais velha.
A sra. Higgs sentou-se ereta, com dificuldade, e deixou Anna cobri-la.
- No deseje que os anos passem rapidamente.
- No anos. - Anna sentou-se na beira da cama. - Apenas o prximo ano.
- Voc ter o seu diploma num piscar de olhos. Ento, de vez em quando, vai sentir falta de todo o trabalho e confuso que teve para consegui-lo.
- Tenho de acreditar na sua palavra quanto a isso. -Eficiente e discreta, Anna tomou-lhe a pulsao. - No momento, tudo em que posso pensar  em terminar o vero 
e recomear.
- Ser jovem  como ter um presente maravilhoso e no saber ao certo o que fazer com ele. Conhece aquela enfermeira bonita, alta, com cabelos ruivos?
Reedy, pensou Anna quando tirou os dedos do pulso da mulher. Pelo relatrio da sra. Higgs, ela no deveria tomar medicao antes de uma hora.
- Conheo-a de vista.
- Ela estava me ajudando esta manh. Uma pessoa to doce. Vai se casar em breve. Gosto de ouvi-la falar sobre o namorado. Voc nunca fala.
- Nunca falo o qu?
- Sobre o seu namorado.
Havia algumas flores levemente murchas em um vaso ao lado da cama. Anna sabia que uma das enfermeiras devia t-las levado, porque a sra. Higgs no tinha famlia. 
Inclinando-se, tocou as flores para tentar reanim-las.
- Eu no tenho um.
- Oh, no acredito nisso. Uma jovem adorvel como voc deve ter muitos namorados. 
- Eles me distraem quando fazem fila na minha porta - brincou Anna, ento sorriu quando a mulher mais velha deu uma risadinha.
- Isso no est muito longe da verdade, imagino. Eu s tinha 25 anos quando perdi meu marido. Ento decidi que nunca mais me casaria de novo.  claro, tive namorados. 
- Um pouco sonhadora, um pouco triste, a sra. Higgs olhou para o teto. - Eu poderia lhe contar histrias que a deixariam chocada.
Com uma risada, Anna jogou os cabelos para trs. A luz do sol bateu sobre seus olhos, tornando-os mais profundos, mais calorosos.
- A senhora no poderia me chocar.
- Foi uma brincadeira terrvel, lamento, mas eu me diverti tanto. Agora, eu desejaria...
- O que desejaria, sra. Higgs?
- Eu desejaria que tivesse me casado com um deles. Que tivesse me casado e tido filhos. Ento haveria algum que se importasse comigo e se lembrasse de mim.
- H pessoas que se importam com a senhora. - Anna pegou-lhe a mo novamente. - Eu me importo.
Ela no cederia  dor, ou pior,  autopiedade. A sra. Higgs apertou a mo de Anna.
- Mas deve existir um homem em sua vida. Algum especial.
- Ningum especial. H um homem - continuou Anna em tom frio. - Ele  uma chateao.
- Que homem no ? Conte-me sobre ele.
Porque os olhos cansados haviam se iluminado, Anna decidiu distrair a mulher.
- O nome dele  Daniel MacGregor.
- Ele  bonito?
- No... sim. -Anna deu de ombros, depois descansou o queixo na mo. - Ele no  o tipo de homem que vemos em uma revista, mas certamente no  comum. Tem quase 
dois metros de altura, eu diria.
- Ombros largos? - perguntou a sra. Higgs, animando-se.
- Definitivamente. - Ela tinha decidido faz-lo parecer muito grande para a alegria da sra. Higgs, ento percebeu que no precisava exagerar. - Parece ser capaz 
de levantar dois homens em cada ombro.
Encantada, a sra. Higgs recostou-se.
- Sempre gostei de homens grandes. Anna comeou a fazer uma careta, ento admitiu para
si mesma que sua descrio de Daniel era melhor para; sra. Higgs do que a moda de Paris.
- Ele tem cabelos ruivos - continuou Anna e fez uma pausa antes de acrescentar -, e barba.
- Barba! - Os olhos da sra. Higgs brilharam. - Que elegante.
- No. - A imagem de Daniel veio  mente de Anna com muita facilidade. -  mais arrojado. Mas ele tem olhos lindos. Muito azuis. - Ela franziu o cenho, lembrando-se. 
- E tende a olhar diretamente.
- Um homem ousado. - A sra. Higgs assentiu em aprovao. - Eu nunca pude tolerar um homem fracote. O que ele faz?
-  um homem de negcios. Bem-sucedido. Arrogante.
- Est ficando cada vez melhor. Agora, diga-me por que ele  uma chateao?
- Ele no aceita um simples no como resposta. - Irrequieta, Anna se levantou e andou at a janela. - Deixei muito claro que no estou interessada.
- O que o tornou determinado a faz-la mudar de idia.
- Alguma coisa assim. - Eu escolhi voc, Anna Whitfield. E quero ter voc. - Ele me mandou flores todos os dias desta semana.
- Que tipo de flores? Divertida, Anna virou-se.
- Rosas brancas.
- Oh. - A sra. Higgs deu um suspiro que era jovem e desejoso. - Faz mais anos do que posso contar desde que algum me enviou rosas.
Emocionada, Anna estudou-lhe o rosto. A sra. Higgs estava cansada.
- Eu ficarei feliz em lhe trazer as minhas. Elas tm um aroma maravilhoso.
- Voc  uma criatura meiga, mas no  a mesma coisa, ? Houve uma poca... -A voz falhou, e ela meneou a cabea. - Bem, j passou agora. Talvez voc deva prestar 
mais ateno neste Daniel. Nunca  sbio rejeitar afeio.
- Terei mais tempo para afeio depois que eu terminar minha residncia.
- Ns sempre achamos que teremos mais tempo. -Com um outro suspiro, a sra. Higgs fechou os olhos. - Estou apostando em Daniel - murmurou e adormeceu.
Anna observou-a por um momento. Deixando a sra. Higgs com a luz do sol e a revista de Paris, fechou a porta silenciosamente.
Horas depois, saiu para o sol da tarde. Seus ps estavam cansados, mas sentia-se animada. Tinha passado a ltima parte de seu turno na maternidade, ouvindo as novas 
mes e segurando bebs. Perguntou-se quanto tempo levaria antes que estivesse grvida e que trouxesse uma nova vida ao mundo.
- Voc fica ainda mais linda quando sorri. Assustada, Anna virou-se. Daniel estava encostado
contra o capo de um conversvel azul-marinho. Estava vestido de maneira mais casual do que das outras vezes em que ela o vira, de cala esporte e uma camisa aberta 
no colarinho. Enquanto a brisa leve despenteava-lhe os cabelos, ele sorria-lhe. Daniel estava maravilhoso, embora ela detestasse admitir. Enquanto Anna hesitava, 
tentando pensar na melhor maneira de lidar com a situao, ele endireitou o corpo e se aproximou.
- Seu pai me disse que voc estava aqui. - Ela parecia to... competente, de saia escura e blusa branca, constatou ele. No to delicada quanto estivera em vestidos 
cor-de-rosa ou azul, mas igualmente adorvel.
Em um gesto casual, Anna ps os cabelos atrs da orelha. 
- Oh, eu no sabia que voc conhecia meu pai.
- Agora que Ditmeyer  promotor, preciso de um outro advogado.
- Meu pai. - Anna lutou contra uma onda de raiva. -Certamente espero que voc no o tenha contratado por minha causa.
O sorriso de Daniel foi lento e fcil. Sim, ela era adorvel.
- No misturo negcios com assuntos pessoais, Anna. Voc no retornou nenhum de meus telefonemas.
Desta vez, ela sorriu.
- No.
- Seus modos me surpreendem.
- No deveriam, considerando seus prprios modos, mas, em todo caso, eu lhe enviei um bilhete.
- No considero exatamente comunicao um pedido formal para que eu pare de enviar flores.
- Voc tambm no parou de envi-las.
- No. Voc trabalhou o dia inteiro?
- Sim. Ento, agora, se me der licena...
- Eu vou lev-la para casa.
Anna inclinou a cabea da maneira fria que ele passara a esperar.
- Muita gentileza sua, mas no  necessrio. Est um dia lindo e no moro longe.
- Tudo bem, eu a acompanho a p.
Ela descobriu que estava cerrando os dentes. Decidiu se acalmar.
- Daniel, tenho certeza de que fui muito clara com voc.
- Sim, voc foi. E eu tambm fui claro. - Ele pegou-lhe as mos nas suas. - Portanto,  uma questo de ver qual de ns resiste por mais tempo. Espero que seja eu. 
No h mal algum em nos conhecermos melhor, h?
- Tenho certeza de que h. - Anna comeou a ver um dos motivos por que ele era to bem-sucedido nos negcios. Quando queria, esbanjava charme. Nem todos os homens 
podiam enfrentar um desafio com um sorriso amigvel no rosto. - Por favor, solte as minhas mos.
-  claro... se voc der uma volta de carro comigo. A raiva brilhou nos olhos dela.
- No aceito chantagens.
-  justo. - Porque estava comeando a respeit-la, e porque ainda queria vencer, ele liberou-lhe as mos. -Anna, est uma tarde linda. Venha dar uma volta comigo. 
Ar fresco e sol fazem bem para a sade, no fazem?
- Fazem. - Que mal havia naquilo? Talvez se o distrasse um pouco, poderia convenc-lo a pr sua considervel energia em alguma outra atividade. - Tudo bem, uma 
volta curta ento. Seu carro  lindo.
- Gosto muito, embora Steven faa biquinho toda vez que saio sem ele e o Rolls. Uma coisa pattica para um homem adulto fazer. - Ele comeou a abrir a porta para 
Anna, ento parou. - Voc dirige?
-  claro.
- timo. - Daniel pegou as chaves do bolso e entregou-as para ela.
- No entendo. Voc quer que eu dirija?
- A menos que voc no queira.
Os dedos de Anna se curvaram em volta das chaves.
- Eu adoraria, mas como sabe que no sou imprudente?
Ele a olhou por um momento, ento caiu numa gargalhada encantadora. Antes que ela se desse conta, Daniel a ergueu e girou-a nos braos em dois crculos estonteantes.
- Anna Whitfield, estou louco por voc.
- Louco - murmurou ela, tentando arrumar a saia e a dignidade quando seus ps tocaram o solo novamente.
- Vamos, Anna. - Ele se sentou no banco de passageiro com um sorriso perverso. - Minha vida e meu carro esto em suas mos.
Meneando a cabea, ela circulou o veculo e acomodou-se atrs do volante. Incapaz de resistir, enviou-lhe um sorriso frio e perverso.
- Voc  um jogador, certo, Daniel?
- Certo. - Ele recostou-se quando o motor foi ligado. - Por que no samos um pouco da cidade? O ar  mais puro.
Dois quilmetros, pensou Anna enquanto afastava-se do meio-fio. Trs no mximo.
Logo eles j haviam andado uns 15 quilmetros para fora da cidade e estavam rindo.
-  maravilhoso - gritou ela sobre o vento. - Eu nunca tinha dirigido um conversvel antes.
- Combina com voc.
- Vou me lembrar disso quando decidir comprar meu prprio carro. -Anna mordiscou o lbio inferior enquanto lidava com uma curva. - Talvez, eu procure por um em breve. 
Vou me mudar para um apartamento mais perto do hospital, mas um carro  sempre til.
- Voc vai sair da casa dos seus pais? Ela assentiu.
- No prximo ms. Eles no protestaram tanto quanto eu esperava. Suponho que a melhor coisa que j fiz foi cursar a faculdade fora do estado. Tudo que tenho de fazer 
 convenc-los que no precisam mobiliar o apartamento para mim.
- No gosto da idia de voc morando sozinha. Anna virou a cabea brevemente.
- No  problema seu, claro, mas, de qualquer forma, sou adulta. Voc mora sozinho, no mora?
-  diferente.
- Por qu?
Ele abriu a boca, ento voltou a fech-la. Por qu? Porque, apesar de no se preocupar consigo mesmo, preocupava-se com ela. Todavia, aquela no era uma razo que 
Anna aceitaria. Daniel j a conhecia o bastante para saber disso.
- No moro sozinho - ele a corrigiu. - Tenho empregados. - De modo presumido, esperou pelo argumento que viria.
- No acho que terei espao para algum empregado. Olhe como a grama  verde aqui.
- Voc est mudando de assunto.
- Sim, estou. Voc sempre tira tardes de folga?
- No. - Daniel resmungou um pouco, ento deixou o assunto anterior morrer. Poderia verificar o apartamento dela e decidir se era realmente seguro. Se no fosse, 
poderia facilmente compr-lo. - Mas decidi que apanh-la no hospital era a nica maneira de v-la sozinha novamente.
- Eu poderia ter dito no.
- Sim. Eu estava apostando que diria. O que voc faz l? No pode enfiar agulhas e facas em pessoas ainda.
Anna riu de novo. O cheiro do vento era delicioso.
- Pela maior parte do tempo, visito pacientes, converso com eles, levo-lhes revistas. s vezes, ajudo a trocar as roupas de cama, se for preciso.
- No  para isso que voc est estudando.
- No, mas estou aprendendo de qualquer forma. Os mdicos, e mesmo as enfermeiras, no podem dar muita ateno pessoal aos pacientes, devido  falta de tempo e ao 
grande nmero de doentes. Estou livre para fazer isso agora, mesmo que por um curto perodo de tempo. O que me ajuda a entender como  ficar deitado l, hora aps 
hora, doente, desconfortvel ou somente entediada. Irei me lembrar disso quando comear a minha prtica.
Daniel nunca tinha pensado naquilo dessa forma, mas recordava-se da doena demorada que tirara a vida de sua me quando ele tinha dez anos. Lembrava-se tambm de 
como fora difcil para ela ficar confinada a uma cama. O cheiro enjoativo do quarto de doente era to claro para Daniel agora quanto o cheiro das minas.
- Ficar cercada de pessoas doentes o tempo todo no incomoda voc?
- Se me incomodasse, eu no sentiria a necessidade de ser mdica.
Daniel observou o modo como o vento jogava os cabelos de Anna para trs. Ele adorara sua me, costumava se sentar a seu lado todos os dias, mas sentira pavor de 
enfrentar a doena e assisti-la morrer aos poucos. Anna, jovem, vital, estava escolhendo passar a vida enfrentando doenas.
- No entendo voc.
- Eu nem sempre entendo a mim mesma.
- Conte-me por que voc vai quele hospital todos os dias.
Ela pensou em seu sonho. Por que ele entenderia se ningum mais entendia? Ento, lembrou-se da sra. Higgs. Talvez Daniel pudesse compreender aquilo.
- H uma mulher no hospital agora. H algumas semanas, eles a operaram, removeram-lhe um tumor e parte do fgado. Sei que ela est sofrendo, mas raramente reclama. 
Ela precisa conversar, e posso lhe dar isso. E tudo que posso fazer em relao  medicina agora.
- Mas isso  importante.
Anna virou-se para ele novamente, e os olhos estavam escuros e intensos.
- Sim, para ns duas. Hoje ela estava me dizendo que desejaria ter se casado de novo depois que o marido faleceu.    Quer que algum se lembre dela. O corpo est 
desistindo,  ' mas a mente  to viva. Hoje eu lhe contei sobre...
- Voc falou sobre mim.
Anna podia ter mordido a lngua. Em vez disso, explicou cuidadosamente:
- A sra. Higgs puxou o assunto sobre homens, e eu disse a ela que conhecia um que era uma chateao.
Ele pegou-lhe a mo e beijou-a.
- Obrigado.
Lutando para no rir, Anna acelerou o carro.
- De qualquer forma, descrevi voc. Ela ficou impressionada.
- Como voc me descreveu? 
- Voc  vaidoso, tambm, Daniel? 
- Absolutamente.
- Arrogante, arrojado. No sei se me lembrei de incluir "rude". A questo , se eu ainda posso me sentar e conversar com ela por alguns minutos todos os dias, levar 
um pouco do mundo externo para o quarto de hospital, torno as coisas mais fceis. Um mdico deve lembrar-se de que diagnstico e tratamento no so suficientes. 
Talvez no tenham valor algum sem compaixo.
- No acho que voc v esquecer disso. Anna sentiu uma onda de emoo.
- Voc est tentando me elogiar de novo.
- No. Estou tentando entend-la.
- Daniel. - Como ela lidaria com ele agora? Podia lidar com a arrogncia, com o exibicionismo, at mesmo com seu jeito autoritrio. Mas como lidava com gentileza? 
- Se voc realmente quer me entender, oua-me. Conseguir um diploma, comear a minha prtica no so apenas as coisas mais importantes da minha vida. Por enquanto, 
so apenas desejos. Quero isso h muito tempo. Trabalhei duro demais para ser distrada agora por algo ou por algum. Ele trilhou um dedo pelo ombro dela.
- Voc me considera uma distrao, Anna?
- Isso no  brincadeira.
- No, nada disso  brincadeira. Quero que voc seja minha esposa.
O carro desviou quando as mos de Anna tremeram no volante. Pisando no freio, ela parou no acostamento.
- Isso  um sim? - Porque gostava de ver o semblante chocado dela, Daniel sorriu.
Levou mais alguns segundos para Anna encontrar a voz. No, ele no estava brincando. Era insano.
- Voc  louco. Ns nos conhecemos h uma semana, nos vimos pouqussimas vezes, e est me pedindo em casamento? Se voc faz negcios com esse tipo de abandono, no 
entendo como ainda no faliu.
- Porque eu sei quais negcios fazer e quais recusar, Anna - ele aproximou-se e tocou-lhe os ombros. - Eu podia ter esperado para pedi-la em casamento, mas no vejo 
sentido quando estou to certo.
- Voc est certo? - Com um longo suspiro, Anna tentou controlar o caos de emoes em seu interior. - Talvez possa interess-lo saber que so necessrias duas pessoas 
para se fazer um casamento. Duas pessoas decididas que se amam.
Ele descartou aquilo.
- Somos duas pessoas.
- No quero me casar, nem com voc nem com ningum. Tenho um outro ano de faculdade, minha especializao, minha residncia.
- Posso no gostar da idia de voc se tornar mdica - nem ele achava que poderia faz-la desistir -, mas estou disposto a fazer algumas concesses.
- Concesses? - Anna queria explodir de raiva. - Minha carreira no  uma concesso. - Sua voz estava muito baixa, calma demais. - Tentei ser razovel com voc, 
Daniel, mas simplesmente no me ouve. Tente enfiar isso na cabea. Est perdendo o seu tempo.
Ele a puxou para mais perto, excitado pela raiva dela, furioso pela rejeio.
- O tempo  meu para perder como quiser.
No to gentil como tinha sido antes, nem to paciente, ele a beijou. Talvez Anna resistisse, Daniel no sabia. Naquele momento, estava absorto demais no desejo 
que o consumia, as emoes percorrendo-o loucamente para ter conscincia de conformidade ou objeo.
Os lbios de Anna estavam quentes do sol forte, a pele macia de qualquer mgica feminina que ela usava. Ele a queria. No era mais uma questo de escolher ou de 
qualquer plano que fizera. O desejo totalmente avassala-dor o conduzia.
Era assim que Anna pensava que ele seria: forte, exigente, perigoso, excitante. No conseguiu objetar, embora soubesse que seria simples. Fria. Como podia ser fria 
quando seu corpo tinha ficado em chamas de repente? Insensvel. Como podia ignorar as sensaes que a percorriam? Apesar de toda a lgica, apesar de toda a fora 
de vontade, derreteu-se contra ele. Derretendo-se, deu mais do que sabia possuir. Absorveu mais do que imaginava querer.
Ela quereria de novo. Enquanto o sangue corria freneticamente nas veias, soube disso. Enquanto Daniel estivesse perto, enquanto se lembrasse dos toques dele, iria 
querer novamente. Como podia impedir aquilo? Por que queria impedir? Havia respostas. Estava certa de que havia respostas se pudesse procur-las. Necessitava de 
lgica, mas a fraqueza a dominou at que estava perdida rio poder que eles criavam juntos.
Quando a clareza de seus pensamentos retornou, estava mesclada com paixo. Paixo, Anna podia controlar. Lutando contra arrependimentos, voltou a dirigir. Endireitou-se 
no assento, e olhou para frente at que estivesse certa de que podia falar.
- Eu no vou v-lo de novo.
A primeira onda de medo o surpreendeu. Daniel a reprimiu e virou o rosto dela para o seu.
- Ambos sabemos que isso no  verdade.
- Estou falando srio.
- Tenho certeza disso. Mas no  verdade.
- Que coisa, Daniel, ningum pode lhe dizer nada. Era a primeira vez que ele a via expressar a raiva
abertamente, e, embora ela tivesse se controlado com rapidez, Daniel viu que o temperamento de Anna era forte o bastante para ser respeitado.
- Mesmo se eu estivesse apaixonada por voc, o que no  verdade - continuou ela -, nada poderia resultar disso.
Ele enrolou uma mecha de cabelos dela no dedo e soltou.
- Vamos esperar e ver.
- No vamos. -Ana freou e teve um sobressalto quando uma buzina soou. Um senhor de idade que estava atrs desviou o carro e parou ao lado deles o tempo suficiente 
para olh-los e gritar alguma coisa que foi perdida sob o som do motor no momento em que continuou a dirigir na estrada. Quando Daniel comeou a rir, Anna voltou 
para o acostamento, parou e deitou a testa no volante, rindo, tambm. Nunca conhecera ningum que pudesse deix-la to furiosa, to fraca, e ainda faz-la rir.
- Daniel, esta  a situao mais ridcula que j vivi. -Ainda rindo, ela levantou a cabea. - Eu quase acreditei que poderamos ser amigos se voc parasse de tentar 
me seduzir.
- Ns seremos amigos. - Ele inclinou-se para frente e a beijou de leve antes que ela pudesse se mover. - Quero uma esposa, uma famlia. Chega uma hora que um homem 
precisa dessas coisas, ou nada mais vale a pena.
Anna dobrou os braos sobre o volante e descansou o queixo neles. Calma novamente, olhou para o gramado alto ao longo da estrada.
- Acredito nisso... para voc. Tambm acredito que decidiu se casar e comeou a procurar pela mulher mais adequada para satisfazer seus planos.
Ele se movimentou, desconfortvel. No seria fcil ter uma esposa que podia ler tudo aquilo to bem. Mas tinha escolhido Anna.
- Por que voc pensa assim?
- Porque, para voc, tudo se resume a negcios. - Ela lhe lanou um olhar firme. - De um jeito ou de outro.
Ele no podia mentir... no para ela.
- Talvez sim. A questo : voc  adequada. Somente voc.
Suspirando, ela recostou-se.
- Casamento no  uma transao de negcios, ou no deveria ser. No posso ajud-lo, Daniel. - Anna ligou o carro novamente. -  hora de voltarmos.
Daniel colocou uma mo de leve sobre o ombro dela antes que Anna comeasse a virar o volante.
-  tarde demais para voltarmos, Anna. Para ns dois.


Quatro

Raios brilhavam no cu e troves soavam alto, mas ainda no chovia. A noite, embora o vero mal tivesse comeado, estava quase sufocante. De vez em quando, o vento 
passava por entre as rvores, mas sem som e sem refrescar o ar. Apreciando o calor e a ameaa de uma tempestade, Myra parou na frente da casa dos Ditmeyer, freando 
com violncia e fazendo os pneus cantarem.
- Que barulho horrvel. - Ela abaixou o protetor solar do carro para ver o rosto no espelhinho. - Realmente preciso consertar isso.
- Seu rosto? - O sorriso suave de Anna foi recebido com bom-humor.
- Antes que ele se acabe, certamente, mas, no momento, falo desse barulho horrvel.
- Voc pode tentar dirigir com um pouco mais de... discrio - sugeriu Anna.
- Que graa teria?
Rindo, Anna desceu do carro.
- Lembre-me de no deix-la dirigir meu carro novo.
- Carro novo? - Myra bateu a porta, ento ajeitou a ala do vestido. - Quando voc comprou um carro?
Devia ter alguma coisa no ar, pensou Anna, que a fazia se sentir to impaciente, to impulsiva.
- Estou pensando em comprar um amanh.
- timo. Eu vou com voc. Um apartamento novo, um carro novo. - Myra deu o brao para Anna enquanto elas andavam. Os aromas dos perfumes delas, um sutil, o outro 
extravagante, se misturaram. - O que deu na pequena e tranqila Anna?
- Provei o gosto da liberdade. - Jogando a cabea para trs, ela olhou para o cu. Estava cheio de nuvens. Excitao. -Uma nica experincia e descobri que sou insacivel.
No era uma palavra que Myra associasse a Anna, exceto no que se referia aos estudos. A menos que estivesse enganada, os pensamentos de sua amiga tinham se desviado 
de assuntos sobre medicina. Especulando, tocou o lbio superior com a lngua.
- O quanto ser que Daniel MacGregor tem a ver com isso?
Anna parou para arquear uma sobrancelha antes de tocar a campainha. Reconheceu a expresso nos olhos de Myra e sabia exatamente como lidar com ela.
- O que ele tem a ver com o fato de eu querer comprar um carro?
- Eu estava pensando sobre a palavra insacivel. Era difcil manter o semblante srio, mas Anna conseguiu ignorar o sorriso perverso que Myra lhe deu.
- Voc est interpretando as coisas de maneira errada, Myra. Eu apenas decidi que quero voltar para Connecticut com estilo.
- Um carro vermelho - decidiu Myra. - E berrante.
- No, um carro branco, acho. E de classe.
- Vai combinar com voc, no vai? - Com um suspiro, Myra deu um passo atrs para estudar Anna. O vestido era da cor do interior de uma pra, muito claro, com as 
mangas finas e abotoadas nos pulsos. - Se eu tentasse usar um vestido dessa cor, desapareceria no papel de parede. Voc parece ter sado de uma vitrine de padaria.
Com uma outra risada, Anna pegou-lhe o brao novamente.
- No vim aqui para ser provocada. De qualquer forma, cor forte combina com voc, Myra, de um jeito que no combina com mais ningum.
Satisfeita, Myra comprimiu os lbios.
- Sim, combina mesmo, verdade?
No momento em que o mordomo dos Ditmeyer abriu a porta, Anna entrou. No podia explicar por que se sentia to bem. Talvez fosse porque sua rotina no hospital estava 
se tornando cada vez mais gratificante. Talvez fosse a carta do dr. Hewitt e a fascinante tcnica cirrgica que ele lhe contara. Certamente no tinha nada a ver 
com as rosas brancas que continuavam a chegar todos os dias.
- Sra. Ditmeyer.
Vigorosa e formidvel em voile de tonalidade lavanda, Louise Ditmeyer veio cumprimentar suas duas convidadas.
- Anna, como voc est linda. - Ela parou para estudar o vestido cor de pssego de Anna. -Adorvel - continuou. - Tons pastel so bastante adequados para uma garota 
jovem. E, Myra, como vai voc? - Ela olhou para o vestido verde-esmeralda vivido de Myra. A desaprovao era evidente em seus olhos.
- Muito bem, obrigada - disse Myra docemente. Mulher tola.
- Est maravilhosa, sra. Ditmeyer - Anna falou rapidamente, capaz de ler os pensamentos de Myra. Para manter a amiga na linha, deu-lhe uma leve cutucada nas costelas. 
- Espero que no tenhamos chegado muito cedo.
- De forma alguma. H vrias pessoas no salo. Venham. - A sra. Ditmeyer liderou o caminho.
- Parece um couraado - murmurou Myra.
- Ento, cuidado com o que fala ou voc vai ser torpedeada.
- Espero muito que seus pais venham. - A sra. Ditmeyer parou na entrada do salo e deu uma olhada prazerosa para seus convidados.
- Eles no perdero a festa - Anna a assegurou, e perguntou-se se algum ousaria dizer a Louise Ditmeyer que a cor de lavanda a fazia parecer doente.
A sra. Ditmeyer sinalizou para um empregado.
- Charles, traga xerez para as moas. Estou certa de que vocs duas podem se misturar  multido. Tenho muito a fazer. - Com isso, ela partiu.
Sentindo-se arrojada, Myra foi para o bar.
- Usque em vez de xerez, Charles.
- E um martni - acrescentou Anna. - Seco. Tente se comportar, Myra. Sei que ela  irritante, mas  a me de Herbert.
- Fcil para voc dizer. - Resmungando, Myra pegou o seu drinque. - Na opinio dela, voc tem aurola e asas.
Anna recuou com a descrio.
- Voc est exagerando.
- Tudo bem, s aurola, ento.
- Ajudaria se eu derrubasse meu drinque no tapete? - Anna tirou a azeitona de dentro do copo.
- Voc no faria isso - comeou Myra, ento engasgou quando Anna inclinou o copo. - No! - Ela o endireitou com uma risada. - Esqueci como voc gosta de um desafio. 
- Pegando a azeitona de Anna, comeu-a. - Eu no me importaria muito se voc derrubasse na bruxa, mas o carpete  bonito demais. Pobre Herbert. - Ela virou-se para 
estudar os outros convidados. - L est ele, monopolizado pela didtica caadora de homens, Mary O'Brian. Sabe, ele  atraente de um jeito intelectual. E uma pena 
que seja to...
- To, o qu?
- Bom - concluiu Myra. - Agora - ela ergueu o copo para esconder o sorriso -, tem algum que no acho que possa ser chamado de bom.
Anna nem precisou se virar. O salo pareceu menor e mais quente, de sbito. Mais quente e mais carregado. Ela sentiu a excitao, lembrou-se da emoo. Por um momento, 
o pnico a assolou. As portas do terrao estavam  sua direita. Poderia passar por elas e sair num instante. Daria uma desculpa mais tarde, qualquer desculpa.
- Meu Deus. - Myra colocou uma mo no brao de Anna e sentiu-a tremer. - Voc est mal.
Furiosa consigo mesma, Anna largou o copo e o pegou de novo.
- No seja ridcula.
Divertimento foi mesclado com preocupao. 
- Anna, sou eu. A pessoa que mais ama voc.
- Ele  persistente, isso  tudo. Absurdamente persistente. O que me deixa nervosa.
- Tudo bem. - Myra conhecia bem a amiga para tentar convenc-la do contrrio. - Vamos deixar as coisas como esto, por enquanto. Mas, uma vez que voc parece precisar 
de um minuto para se recompor, vamos resgatar Herbert.
Anna no discutiu. Precisava de um minuto. Uma hora. Talvez de anos. No importava que tivesse analisado sua reao a Daniel e julgado-a como sendo puramente fsica. 
A reao permanecia, e se tornava maior cada vez que o via. No se importava com a excitao que ele podia faz-la sentir s pelo fato de estar na mesma sala, portanto, 
o ignoraria e relaxaria. Sempre tinha conseguido controlar as reaes de seu corpo. Respire devagar, disse a si mesma. Concentre-se nos msculos individuais: A tenso 
nos seus ombros diminuiu. Eles estavam, afinal de contas, numa festa, cercados por outras pessoas. No era como se estivessem sentados em um carro parado numa estrada 
deserta. O estmago dela se contraiu.
- Ol, Herbert. - Myra colocou-se ao lado dele. - Mary.
- Myra. - Obviamente irritada pela interrupo, Mary voltou-se para Anna. Quando fez isso, Herbert rolou os olhos. Divertida e sentindo compaixo, Myra enlaou o 
brao no dele. - Pondo alguns criminosos na cadeia ultimamente?
Antes que ele pudesse comentar, Mary enviou a Myra um olhar de repreenso.
- Voc faz parecer como se isso fosse um jogo. Herbert  uma parte muito importante de nosso sistema judicial.
- Verdade? - Myra arqueou a sobrancelha de um jeito que s ela podia fazer. - E pensei que ele s jogasse bandidos na priso.
- Regularmente. - O tom de Herbert era seco, o olhar solene. Assentiu para Myra. - Fao o possvel para me certificar de que as ruas fiquem seguras. Voc devia ver 
as fendas na minha maleta.
Encantada com a rapidez com que ele entrara no jogo, Myra aproximou-se mais e piscou.
- Oh, Herbert, eu simplesmente adoro homens dures.
Aquilo era, infelizmente, uma imitao inteligente e cruel de Cathleen Donahue, a melhor amiga de Mary. Ela fungou e tencionou.
- Se vocs me derem licena.
- Acho que o nariz dela  desconjuntado. - Myra pareceu inocente. - Anna, qual  a sua opinio mdica?
- Malcia terminal. - Anna deu um tapinha no rosto de Myra. - Cuidado, querida,  contagioso.
- Belo desempenho.
Anna congelou, ento, forou-se a relaxar. Como teria adivinhado que um homem to grande podia se mover to silenciosamente?
- Boa noite, sr. MacGregor. - Myra estendeu uma mo amigvel. O jantar festivo no seria tedioso, afinal. - Gostou do bale?
- Muito, assim como gostei de sua representao. 
Herbert cumprimentou Daniel com um rpido aperto de mo.
- Voc vai descobrir que Myra nunca  enfadonha. Lisonjeada e surpresa, Myra voltou-se para ele.
- Bem, obrigada. - Movida por impulso, tomou uma deciso. Amava Anna como uma irm. Resolveu fazer o que era melhor para ela. - Acho que gostaria de um outro drinque 
antes do jantar. Voc tambm, Herbert. - Sem dar-lhe a chance de concordar, ela o levou dali.
Meneando a cabea, Daniel observou-a conduzir Herbert atravs da multido.
- Ela  incrvel.
Anna olhou a amiga indo para o bar.
- Oh, ela  definitivamente incrvel.
- Gosto dos seus cabelos.
Ela quase levou uma mo para cima antes que pudesse deter-se. Porque no tivera tempo de arrumar os cabelos depois de seu turno no hospital, simplesmente os penteara 
para trs. Esperara parecer sofisticada na melhor das hipteses, e competente na pior. Seu rosto estava exposto e vulnervel.
- J esteve na casa dos Ditmeyer antes?
- Voc est mudando de assunto de novo.
- Sim. J esteve?
Um sorriso curvou os lbios dele.
- No.
- H uma coleo maravilhosa de Waterford na sala de jantar. Voc devia dar uma olhada quando formos jantar.
- Voc gosta de cristais?
- Sim. Parecem frios at que a luz os toca, ento, h tantas surpresas.
- Se voc concordasse em jantar comigo em minha casa, eu poderia lhe mostrar a minha coleo.
Anna ignorou a primeira parte da sentena, mas comentou a segunda.
- Voc faz colees?
- Gosto de coisas pequenas.
O tom era claro. O olhar de Anna foi direto e calmo como sempre.
- Se isso  um elogio, aceito pelo valor que tem. Mas no tenho inteno de ser colecionada.
- Eu no a quero em uma prateleira ou em um vaso de cristal. Apenas quero voc. - Ele pegou-lhe a mo, entrelaando os dedos de ambos para que ela no a removesse. 
- Voc  arisca - comentou, e descobriu que o fato o agradava.
- Cuidado. - Sem mover a cabea, Anna olhou para as mos unidas de ambos. - Voc tem a minha mo.
Ele pretendia mant-la.
- J notou como sua mo se encaixa bem na minha? Anna o fitou.
- Voc tem mos grandes. Qualquer mo se encaixaria na sua.
- Acho que no. - Mas ele liberou-lhe a mo, apenas para segurar-lhe o brao.
- Daniel...
- Parece que ns vamos jantar.
Ela no podia comer. Seu apetite nunca era muito grande, o que constantemente fazia Myra reclamar, mas, naquela noite, estava inexistente. No comeo, achou que era 
um truque do destino o fato de Daniel estar sentado ao seu lado na longa mesa do banquete. Mas, estudando-lhe a expresso, teve certeza de que ele arranjara aquilo. 
Daniel serviu-se de sopa e frutos do mar sem problemas, enquanto ela beliscava pela segurana da boa forma.
Ele era atencioso, irritantemente atencioso, enquanto fazia tudo, exceto ignorar a mulher  sua direita. Inclinava-se para mais perto e murmurava ao ouvido dela 
encorajando-a a comer um pouco mais disso ou experimentar aquilo. Forada a manter os modos adequados, Anna lutou por compostura. Seus pais estavam sentados perto 
da cabeceira da mesa. Daquela direo, ela via tanto especulao quanto aprovao. Cerrou os dentes e tentou engolir o bife Wellington. No demorou muito a perceber 
que havia especulao na outra ponta da mesa tambm. Viu os sorrisos, cabeas assentindo, ouviu sussurros atrs de mos erguidas. Daniel estava deixando claro, publicamente, 
que os considerava um casal.
Os nervos de Anna, sempre to bem controlados, comearam a esquentar. Muito deliberadamente, cortou um pedao de carne.
- Se voc no parar de brincar de pretendente apaixonado - murmurou ela, sorrindo-lhe -, vou jogar meu copo de vinho no seu colo. O que vai deix-lo muito sem graa.
Daniel acariciou-lhe a mo.
- No, voc no vai fazer isso.
Anna respirou profundamente e aguardou a hora certa. Assim que a sobremesa foi servida, correu a mo ao longo da mesa e deu uma cotovelada. Se Daniel no tivesse 
olhado para baixo naquele instante preciso, estaria com o colo cheio de burgundy. Num reflexo, agarrou o copo rapidamente, o qual se inclinou na outra direo. Antes 
que pudesse endireit-lo, metade do contedo caiu sobre a toalha da mesa. Ouviu Anna praguejar baixinho e quase caiu na gargalhada.
- Desajeitado. - Ele enviou um olhar apologtico em direo  anfitri. - Tenho as mos to grandes. - Sem expressar arrependimento, usou uma delas para dar um tapinha 
na perna de Anna por baixo da mesa. Apesar de no ter certeza, pensou t-la ouvido cerrar os dentes.
- No foi nada. - A sra. Ditmeyer olhou para o dano e decidiu que poderia ter sido pior. -  para isso que servem as toalhas. Voc no derramou vinho na prpria 
roupa, derramou?
Daniel sorriu para a mulher, depois para Anna.
- Nem uma gota. - Quando a conversa voltou ao ritmo normal, ele inclinou-se sobre Anna. - Admirvel e muito ligeira. Eu a acho cada vez mais excitante.
- Voc estaria mais empolgado se minha mira tivesse sido melhor.
Daniel ergueu o copo e tocou o dela.
- O que acha que nossa anfitri faria se eu a beijasse aqui e agora?
Anna pegou sua faca e examinou-a como se estivesse admirando o padro. O olhar que enviou a Daniel era duro como pedra.
- Sei o que eu faria.
Desta vez, ele riu, alto e longamente.
- Estou perdido, Anna, voc  a nica mulher para mim. - A declarao chamou a ateno das pessoas dos dois cantos da mesa. - Mas no vou beij-la agora. No quero 
que experimente sua primeira cirurgia em mim.
Aps o jantar, houve jogo de bridge no salo. Apesar de detestar o jogo, Anna considerou participar, a fim de se manter ocupada e em um grupo. Antes que conseguisse, 
todavia, foi levada para a parte externa da casa por meia dzia de pessoas mais jovens.
A tempestade ainda ameaava e a lua estava coberta por nuvens, mas havia uma brisa refrescando o ar. Enquanto a chuva se aproximava, o vento comeou a danar ao 
redor de sua saia. Havia luzes colocadas estrategicamente aqui e ali, de modo que as rvores e o jardim fossem banhados por um brilho suave. Algum tinha ligado 
o rdio do lado de dentro, e a msica soava atravs das janelas. O grupo passeava por ali sem destino, ento, as pessoas vagarosamente emparelharam-se.
- Voc entende de jardins? - Daniel lhe perguntou. 
Anna no esperara se livrar dele facilmente. Dando de ombros, manteve diversas de suas amigas  vista.
- Um pouco.
- Steven  melhor motorista do que jardineiro. - Daniel inclinou-se para cheirar uma grande penia branca. - Ele  cuidadoso, mas lhe falta imaginao. Eu gostaria 
de algo mais...
- Esplendoroso? - sugeriu Anna. Ele gostou da palavra.
- Sim, esplendoroso. Colorido. Na Esccia, ns tnhamos a urze, e os arbustos eram repletos de rosas selvagens. No do tipo bonito que voc compra em floriculturas, 
mas fortes, com caules da grossura de um polegar e espinhos que podiam realmente fur-lo. - Ignorando o murmrio de desaprovao de Anna, ele arrancou uma flor e 
colocou-a atrs da orelha dela. -  agradvel olhar para flores delicadas, v-las nos cabelos de uma mulher, mas rosas selvagens... duram mais.
Ela esquecera que no queria ficar sozinha com ele, esquecera de manter uma distncia segura de suas amigas. Perguntava-se como seria o aroma de uma rosa selvagem, 
e se um homem como Daniel a arrancaria ou a deixaria crescer como quisesse.
- Voc sente saudade da Esccia?
Ele a fitou por um momento, perdido nos prprios pensamentos.
- s vezes. Quando no estou muito ocupado e posso pensar nisso. Sinto saudade dos penhascos, do mar e da grama, que  mais verde do que tem o direito de ser.
Estava na voz dele, percebeu Anna. Luto. Ela nunca imaginara que fosse possvel ficar de luto por uma terra, somente por pessoas.
- Voc vai voltar? - Ela encontrou-se precisando saber e com medo da resposta.
Daniel desviou o olhar por um momento, e um raio no cu refletiu no rosto dele. O corao de Anna disparou violentamente. Ele parecia com a imagem que ela sempre 
pensou que Thor teria... corajoso, rude, invulnervel. Quando ele falou, a voz era calma e deveria t-la tranqilizado. Ela sentiu apenas mais excitao.
- No. Um homem faz seu prprio lar em seu prprio tempo.
Anna alisou uma vinha frgil da glicnia. Apenas um truque de luz, disse a si mesma. Era tolice ficar emocionada por um truque de luz.
- Voc no tem famlia l?
- No. - Ela pensou ter ouvido sofrimento na voz dele, um sofrimento mais profundo do que o de luto, mas o rosto de Daniel estava impassvel quando a olhou. - Sou 
o ltimo de minha linhagem. Preciso de filhos, Anna. - Ele no a tocou. No precisava. - Preciso de filhos e filhas. Quero que voc os d para mim.
Por que, quando ele ainda falava um absurdo, de repente no parecia mais to absurdo? Desconcertada, Anna continuou andando.
- No quero discutir com voc, Daniel.
- timo. - Ele a segurou pela cintura e a girou. A expresso solene que estivera nos olhos de Daniel foi substituda por um sorriso. - Vamos viajar para Maryland 
e nos casar pela manh.
- No! - Embora aquilo tivesse ferido a dignidade de Anna, ela tentou desvencilhar-se.
- Tudo bem. Se voc quer um grande casamento, vou esperar uma semana.
- No, no, no! - Por que aquilo parecia engraado, Anna no sabia, mas comeou a rir quando ele a puxou para seu peito. - Daniel MacGregor, sob todo esse cabelo 
vermelho, voc tem a cabea mais dura que conheo. No vou me casar com voc amanh. No vou me casar com voc em uma semana. No vou me casar com voc nunca.
Ele ergueu-lhe os ps do solo de modo que os rostos de ambos ficassem no mesmo nvel. Depois de se recuperar do choque, Anna achou aquilo estranho e no uma sensao 
inteiramente desagradvel.
- Quer apostar? - disse ele simplesmente.
Ela arqueou a sobrancelha e a voz era fria como um riacho de montanha.
- Perdo?
- Meu Deus, que mulher! - exclamou ele e beijou-a com ardor. As vises que vieram  mente de Anna giraram to rapidamente que ela no podia separ-las. - Se eu no 
quisesse fazer a coisa honrada, juro que eu a jogaria sobre meu ombro e acabaria logo com isso. - Ento, ele riu e beijou-a novamente. - Em vez disso, vou fazer 
uma aposta com voc.
Se Daniel a beijasse mais uma vez, ela ficaria to aturdida que no se lembraria do prprio nome. Agarrando-se  dignidade, colocou as mos sobre os ombros largos 
e olhou-o com firmeza.
- Daniel, ponha-me no cho.
- No - replicou ele e sorriu.
- Voc ficar aleijado se no fizer isso.
Daniel lembrou-se da ameaa com o copo de vinho. Um compromisso, decidiu, e colocou-a no cho, mas manteve as mos ao redor de sua cintura.
- Uma aposta - repetiu.
- No sei sobre o que voc est falando.
- Voc disse que eu era um jogador, e estava certa. E quanto a voc?
Anna descobriu que suas mos estavam descansando contra o peito largo e abaixou-as.
- Certamente no.
- Ah! - Havia tanto desafio nos olhos dele que Anna achou difcil resistir. - Agora voc est mentindo. Qualquer mulher que decide ser mdica, torcendo o nariz para 
a sociedade, tem sangue de jogadora nas veias.
E ele estava certo. Ela inclinou a cabea.
- Qual  a aposta?
- Boa menina. - Daniel teria lhe erguido os ps do cho novamente se ela no tivesse franzido o cenho. - Digo que voc ter um anel meu no seu dedo dentro de um 
ano.
- E eu digo que no terei.
- Se eu ganhar, voc passa a primeira semana como minha esposa na cama. No faremos nada, exceto comer, dormir e fazer amor.
Se ele pretendia choc-la, no obtivera sucesso. Anna meramente assentiu.
- E se voc perder?
Os olhos dele estavam vivos com o desafio, com o gosto da vitria.
- Escolha.
Anna sorriu. Acreditava em apostas altas.
- Voc faz uma doao para o hospital, o bastante para construir uma nova ala.
Ele no hesitou.
- Feito.
Se Anna tinha certeza de alguma coisa era de que ele cumpriria sua promessa, independentemente de quo absurdas fossem as circunstncias. Solenemente, estendeu a 
mo. Daniel a aceitou para um aperto oficial, ento, levou-a aos lbios.
- Eu nunca joguei alto para perder, nem farei isso. Agora, deixe-me beij-la, Anna. - Quando ela afastou-se, ele a segurou novamente. - Fizemos a aposta e nomeamos 
o prmio, mas quais so as chances? - Ele roou os lbios contra a testa dela e sentiu-a tremer. - Sim, Anna, meu amor, quais so as chances?
Lentamente, deslizou a boca sobre a pele dela, provocando, prometendo, mas no lhe encontrando a boca. As mos, de repente gentis e confiantes, subiam e desciam 
para brincar com a pele sensvel do pescoo de Anna, ento voltando para a cintura delicada. Ele pde sentir o instante em que o corpo delicado cedeu s prprias 
necessidades e s dele. Sentiu seu prprio desejo aumentar. Mas continuou vagarosamente, sem esforo para seduzir.
Um trovo soou novamente, mas ela achou que era seu prprio corao. Quando o raio brilhou, era como se fosse fogo em seu sangue. O que era paixo? O que era necessidade? 
O que era emoo? Como podia saber quando nenhum homem nunca a fizera sentir nada disso com tanta intensidade? Sabia que era vital separ-los, mas os sentimentos 
se misturavam em uma nica sensao incandescente.
Aquilo era bonito. Enquanto seu corpo se tornava fluido, pde reconhecer isso. Aquilo era perigoso. Quando seus msculos relaxaram, Anna aceitou isso.
A boca de Daniel roava sobre a sua, mas no se demorava. Frustrada, desejosa, ela gemeu e se aproximou. Ele riu, ou foi o trovo novamente?
Ento o cu se abriu e a chuva caiu sobre eles. Praguejando, Daniel ergueu-a.
- Voc me deve um beijo, Anna Whitfield - gritou ele. Ficou parado por um momento enquanto a chuva ensopava-lhe os cabelos ruivos. A luz do relmpago estava nos 
olhos azuis. - No pense que vou esquecer. - Com isso, apertou-a mais nos braos e correu para o terrao.
Era de se admirar que estava distrada no hospital no dia seguinte? Anna encontrou-se andando pelos corredores, ento precisando parar e decidir para aonde estava 
indo e o que estava fazendo. Aquilo a preocupava, enfurecia-a. E se conseguisse seu diploma, tivesse pacientes e se tornasse absolutamente agitada? No podia se 
permitir pensar em nada, exceto em seus deveres enquanto estivesse no hospital.
Mas recordava-se da louca excitao de ser carregada nos braos por Daniel em meio  tempestade de vero. Lembrava-se tambm da forma como ele entrara pelas portas 
do terrao e transformara o calmo jogo de bridge num caos, exigindo toalhas secas e usque para ela. Deveria ter sido humilhante. Anna achou doce. Havia uma outra 
coisa que a preocupava. Pensando como os olhos de Louise Ditmeyer haviam se arregalado, Anna deu uma risadinha. Daniel certamente adicionava tempero a um jantar 
tranqilo e sossegado.
Ela passou a maior parte do dia nos quartos, levando livros e revistas para os pacientes e conversando com eles enquanto estavam deitados em camas colocadas lado 
a lado. Falta de privacidade, pensou, podia ser to debilitante quanto a doena que os levara para l. Mas no havia muito espao, nem muitos mdicos. Anna sorriu, 
pensando que aquela aposta impulsiva que fizera com Daniel poderia resultar em algum bem.
Com uma olhada no relgio, percebeu que tinha menos de uma hora para encontrar Myra. Hoje, escolheria seu carro novo. Alguma coisa prtica, certamente, lembrou a 
si mesma. Mas no sem graa. Talvez fosse tolice ficar excitada com a compra de quatro rodas e um motor, mas continuou pensando nas caminhadas longas e solitrias 
que fazia. No tinha falado menos que a verdade para Myra quando lhe dissera que queria liberdade. Pensou sobre isso agora e a desejou. Todavia, no podia encerrar 
o dia sem passar no quarto da sra. Higgs.
Planejando o resto de seu dia enquanto se encaminhava para l, Anna subiu para o quinto andar. Levaria Myra para jantar e pagaria a conta. Sua amiga adoraria isso.
Ento, talvez sassem da cidade e fizessem um teste com o carro novo. Algum fim de semana em breve, elas iriam para a praia e passariam o dia sob o sol. Satisfeita 
com a idia, entrou no quarto 521. E ficou boquiaberta.
- Oh, Anna, temamos que voc no viesse. 
Sentada na cama, com os olhos brilhantes, a sra. Higgs brincava com a ponta do lenol. Sobre a mesa ao lado dela, havia um vaso de rosas vermelhas, frescas, lindas 
e cheirosas. Sentado ao lado da cama como um pretendente, estava Daniel.
- Eu lhe disse que Anna no iria embora sem antes vir ver como voc estava. - Daniel se levantou e ofereceu-lhe a cadeira.
- No,  claro que eu no iria. - Confusa, Anna aproximou-se da cama. -A senhora parece tima hoje.
A sra. Higgs tocou os prprios cabelos. A enfermeira ruiva a tinha ajudado a pente-los naquela manh, mas ela no pudera lav-los por uma semana.
- Eu teria me arrumado melhor se soubesse que teria visita. - Ela olhou para Daniel com um sorriso de pura adorao.
- A senhora est adorvel. - Ele pegou-lhe uma das mos finas entre as suas.
Daniel soava sincero. O que mais impressionou Anna foi que a voz dele no carregava o tom arrogante que tantas pessoas usavam quando falavam com doentes ou idosos. 
Alguma coisa brilhou nos olhos da sra. Higgs. Era tanto gratido quanto orgulho.
- E importante estar com a melhor aparncia quando voc recebe a visita de um cavalheiro. No concorda, Anna?
- Sim,  claro. - Anna andou at o p da cama e tentou ler o relatrio discretamente. -As flores so lindas. Voc no mencionou que viria ao hospital, Daniel.
Ele piscou para a sra. Higgs.
- Gosto de surpresas.
- No foi gentileza de seu jovem homem vir me visitar?
- Ele no ... -Anna parou e suavizou a voz. - Sim, foi.
- Bem, sei que vocs dois querem ir embora, e no vou prend-los. -A sra. Higgs falou rapidamente, mas era bvio que estava com pouca energia. - Voc vai voltar? 
- Ela pegou a mo de Daniel. -Adorei conversar com voc.
Ele ouviu o apelo que ela tentou desesperadamente esconder.
- Eu voltarei. - Inclinando-se, beijou-lhe o rosto. 
Quando Daniel deu um passo atrs, Anna ajeitou os travesseiros da sra. Higgs, e deixou-a mais confortvel com alguns movimentos eficientes. Ele viu, ento, que as 
mos de Anna no eram apenas macias, delicadas e feitas para serem beijadas, mas tambm eram competentes, fortes e seguras. Aquilo lhe causou um momento de desconforto.
- Agora, tente descansar. A senhora no deve fazer esforo.
- No se preocupe comigo. - A sra. Higgs suspirou. - V se divertir.
Ela estava quase dormindo quando eles saram do quarto.
- Voc acabou aqui por hoje? - perguntou Daniel enquanto seguiam o corredor.
-Sim.
- Eu a levo para casa.
- No, vou encontrar Myra. - Como sempre, o elevador era lento e temperamental. Anna apertou o boto e esperou.
- Ento, levo voc at l. - Ele a queria para si, em casa, longe do hospital onde ela parecia to eficiente.
- No  necessrio. Vou encontr-la a poucas quadras daqui. -Anna entrou no elevador, seguida por Daniel.
- Jante comigo esta noite.
- No posso. Tenho planos. - As mos dela estavam unidas quando as portas se abriram de novo.
- Amanh?
- No sei, eu... - Com as emoes abaladas, ela saiu para o sol e o ar fresco. - Daniel, por que voc veio aqui hoje?
- Para ver voc,  claro.
- Voc foi ver a sra. Higgs. - Ela continuou andando. Apenas mencionara o nome da paciente uma vez. Como ele se lembrara? E por que tinha se importado?
- Eu no deveria? Pareceu-me que ela gosta muito de um pouco de companhia.
Anna meneou a cabea, lutando para encontrar as palavras certas. No sabia que ele podia ser gentil, no verdadeiramente gentil quando o gesto no lhe trazia nenhum 
ganho. Estava na rea de negcios, afinal de contas, onde ganhos, perdas e contas deviam ser constantemente balanceados. O preo das rosas no teria significado 
nada para Daniel, mas o presente significara muito para a sra. Higgs. Imaginou se ele sabia.
- O que voc fez significa mais nesse estgio da doena do que qualquer remdio poderia dar a ela. - Anna parou e ento virou-se. Daniel pde ver as emoes nos 
olhos dela, a intensidade de sentimentos que mexia com ele. - Por que voc fez isso? - perguntou ela. - Para me impressionar?
Ningum podia mentir para olhos como aqueles. Ele fizera aquilo para impression-la, e tinha ficado incrivelmente satisfeito com a idia at que comeara a conversar 
com a sra. Higgs. Vira nela um espelho da beleza de sua me desaparecendo, e tambm dignidade, apesar do cansao. E voltaria a visitar a mulher, no por Anna, mas 
por si mesmo. No havia como explicar-lhe isso, e no tinha nenhuma inteno de expor seus sentimentos, os quais eram s seus havia tanto tempo.
- A idia principal foi impression-la. Eu tambm queria ver o que havia naquele lugar que faz voc voltar todos os dias. Ainda no compreendo completamente, mas 
entendo parte disso.
Quando ela no respondeu, Daniel enfiou as mos nos bolsos enquanto eles andavam. Aquela mulher o preocupava mais do que imaginara. Queria agrad-la... surpreendia-se 
com o quanto queria agrad-la. Queria v-la sorrir novamente. Estava at mesmo preparado para receber um daqueles olhares frios e rgios. Frustrado, fez uma careta, 
olhando em frente.
- Bem, voc ficou impressionada ou no?
Ela parou para encar-lo. Os olhos estavam frios, mas Daniel no podia l-los. Ento, Anna o pegou totalmente de surpresa. Colocou as mos nas laterais do rosto 
dele. Sem pressa e com tranqilidade, desceu-lhe o rosto at que pudesse tocar-lhe os lbios com os seus. Foi apenas um beijo leve, mas foi o suficiente para abalar 
Daniel. Ela o manteve ali por um momento, prendendo-lhe o olhar. Ento, sem dizer uma palavra, liberou-o e partiu.
Pela primeira vez na vida, Daniel se viu sem fala.


Cinco

Daniel estava sentado em seu escritrio do Old Line Savings and Loan, fumando um de seus charutos e ouvindo o longo relatrio do gerente do banco. O homem conhecia 
a movimentao bancria, admitiu Daniel, assim como era especialista em clculos. Mas no conseguia ver mais de um palmo  sua frente.
-Consequentemente, em adio s minhas outras recomendaes, sugiro que o banco execute a hipoteca da propriedade Halloran. Leiloar esta propriedade cobriria o montante 
do capital em questo, alm disso, numa estimativa conservadora, renderia 5% de lucro.
Daniel bateu o charuto no cinzeiro.
- Conceda-o.
- Perdo?
- Eu disse para conceder o emprstimo a Halloran, Bombeck.
Bombeck ajeitou os culos no nariz e mexeu em sua papelada.
- Talvez o senhor no tenha entendido que os Halloran esto seis meses atrasados com os pagamentos da hipoteca. Nos ltimos dois meses, eles no conseguiram pagar 
os juros. Mesmo que Halloran ache um emprego, como diz que vai achar, no podemos esperar que o pagamento seja atualizado dentro deste trimestre. Tenho todos os 
nmeros aqui.
- No duvido disso - murmurou Daniel, entediado. O trabalho, pensou, nunca deveria entediar uma pessoa, ou ela perderia o talento.
Tirando papis da gaveta, Bombeck colocou-os sobre a mesa de Daniel. Eles eram, assim como Bombeck, organizados e assiduamente corretos.
- Se o senhor desejar olh-los, tenho certeza de que poderemos...
- D aos Halloran mais seis meses para atualizar os juros.
Bombeck empalideceu.
- Seis... - Pigarreando, ele mudou de posio na cadeira. As mos elegantes estavam unidas. - Sr. MacGregor, tenho certeza de que sua compaixo pelos Halloran  
admirvel, mas deve entender que um banco no pode ser dirigido baseado em sentimentalismo.
Daniel tragou o seu charuto, pausou e soltou a fumaa. Havia um sorriso muito leve na boca, mas os olhos, se Bombeck tivesse ousado encar-los, estavam frios como 
gelo.
- Verdade, Bombeck? Aprecio que tenha me dito isso.
Bombeck umedeceu os lbios.
- Como gerente do Old Line...
- Que estava prestes a falir um ms atrs, quando eu o comprei...
- Sim. - Bombeck pigarreou de novo. - Realmente, sr. MacGregor, este  precisamente o ponto. Como gerente, sinto que  meu dever dar-lhe o benefcio de minha experincia. 
Trabalho com bancos h 15 anos.
- Quinze? - Daniel disse como se estivesse impressionado. - Catorze anos, oito meses e dez dias. - Daniel tinha os registros de todos os funcionrios que trabalhavam 
com ele, at mesmo das faxineiras. - Isso  timo, Bombeck. Talvez se eu lhe explicar em outros termos, voc possa entender meu modo de pensar. - Daniel recostou-se 
em sua cadeira, de modo que o sol que entrava pela janela de trs refletia em seus cabelos, deixando-os com cor de fogo. Apesar de no ter planejado daquela maneira, 
ficara mais do que satisfeito com o efeito. - Voc estima 5% de lucro se ns executarmos a hipoteca e leiloarmos a propriedade Halloran. Entendi corretamente?
Bombeck percebeu o sarcasmo nas palavras.
- Exatamente, sr. MacGregor.
- timo, timo. Todavia, nos doze anos restantes da hipoteca Halloran, ns veramos o lucro a longo prazo, falando de forma conservadora, triplicar.
- A longo prazo,  claro. Eu poderia calcular os nmeros exatos, mas...
- Excelente. Ento ns nos entendemos. Conceda o emprstimo. - Porque gostava de fazer isso, Daniel esperou um pouco antes de soltar sua bomba: - Iremos baixar as 
taxas da hipoteca um quarto por cento, comeando no prximo ms.
- Abaixar? Mas sr. MacGregor...
- E aumentar os juros das contas de poupana para a taxa mais alta permitida.
- Sr. MacGregor, isso vai colocar o Old Line no vermelho. 
- A curto prazo - concordou Daniel rapidamente. - A longo prazo... Voc entendeu a coisa de longo prazo, no entendeu, Bombeck? A longo prazo, vamos compensar isso 
com volume. Old Line ter as taxas de hipoteca mais baixas do estado.
Bombeck sentiu o estmago revolver-se e engoliu em seco. 
- Sim, senhor.
- E as taxas mais altas em contas de poupana.
Ele quase podia ver notas de dlar voando com pequenas asas.
- Vai custar ao banco... - Bombeck nem mesmo podia imaginar. - Eu poderia calcular os valores em alguns dias. Tenho certeza de que entender o que estou tentando 
dizer. Com uma poltica como essa, em seis meses...
- Old Line ser a maior instituio de emprstimo do estado - Daniel terminou suavemente. - Estou feliz por chegarmos a um acordo. Faremos propagandas nos jornais.
- Propagandas - murmurou Bombeck como se estivesse sonhando.
- Alguma coisa grande - Daniel mediu com as mos, divertindo-se -, porm distinta. Por que voc no estuda algumas sugestes e depois me retorna? Vamos dizer, por 
volta das dez, amanh?
Levou alguns segundos para que Bombeck percebesse que estava sendo dispensado. Muito atordoado para discutir, organizou seus papis e se levantou. Assim que ele 
saiu, Daniel apagou o charuto no cinzeiro.
Um tolo de crebro fraco, pensou. O que precisava era de algum jovem, recm-formado e ansioso. Poderia salvar o orgulho de Bombeck inventando um novo cargo para 
o homem. Daniel possua fortes sentimentos em relao  lealdade e, tolo ou no, Bombeck trabalhava no Old Line havia quase 15 anos. Era algo que poderia discutir 
com Ditmeyer. Ali estava um homem em cuja opinio Daniel confiava. 
Os banqueiros tinham de se dar conta de que o negcio deles era jogar. Era certamente o de Daniel. Levantando-se, andou at a janela atrs de sua mesa e olhou para 
Boston. Naquele ponto, toda sua vida era um jogo. O dinheiro que ganhara poderia ser perdido. Ele deu de ombros. Ganharia novamente. O poder que agora exercia poderia 
desaparecer. Ele o construiria de novo. Mas havia uma coisa que comeava a compreender que, se perdesse, jamais poderia ser substituda. Anna.
Quando ela deixara de ser parte de seu plano e se tornara sua vida? Em que momento ele tinha perdido o controle do negcio e se apaixonado? Podia precisar isso ao 
instante... ao instante que Anna segurara seu rosto nas mos, fitara-lhe os olhos solenemente e roara os lbios nos dele. O que Daniel sentira ia alm de atrao, 
alm de desejo, alm de desafio.
Sua corte sistemtica fora por gua abaixo. O plano traado to cuidadosamente estava aos farrapos. Desde aquele momento, ele se tornara apenas um homem totalmente 
enfeitiado por uma mulher. O que aconteceria agora? Essa era uma pergunta para a qual no tinha resposta. Quisera uma esposa que ficasse sentada em casa pacientemente, 
enquanto ele cuidava dos negcios. Essa no era Anna. Quisera uma mulher que no questionasse suas decises, mas somente as transformasse em fato. Essa no era Anna. 
Havia uma parte da vida dela que sempre permaneceria separada de Daniel. Se ela tivesse sucesso em sua ambio, e ele estava comeando a acreditar que teria, Anna 
seria mdica dentro de um ano. Para Anna, isso no seria somente um ttulo, mas um meio de realizao pessoal. Poderia um homem cujos negcios requeriam tanto dele, 
ocupando-o longas horas por dia, ter uma esposa cuja profisso exigia exatamente a mesma coisa?
Quem cuidaria da casa?, perguntou-se, passando os dedos pelos cabelos. Quem cuidaria das crianas? Era melhor que a esquecesse agora e encontrasse uma outra mulher 
que ficasse contente em fazer essas coisas e nada mais. Seria melhor aceitar o conselho que Anna lhe dera e escolher uma mulher com a qual no tivesse de lutar contra 
oposies.
Ele precisava de um lar. Era difcil admitir, at para si mesmo, o quo desesperadamente precisava. Necessitava de famlia... do aroma de po assando na cozinha, 
flores enfeitando a casa. Aquelas eram as coisas com as quais tinha crescido, coisas de que vinha sendo privado havia muito tempo. No podia ter certeza que as teria 
com Anna. Entretanto, se encontrasse tais coisas sem ela, no achava que teriam valor.
Que mulher! Daniel consultou o relgio. Ela estaria quase terminando no hospital agora. Ele tinha uma reunio na cidade em uma hora. Determinado a no deixar sua 
vida ser dirigida pelos horrios de outra pessoa, sentou-se atrs da mesa novamente e pegou o relatrio de Bombeck. Aps um pargrafo, largou-o de novo. Praguejando 
com mau humor, saiu de sua sala.
Anna tinha passado cinco horas em p. Sentindo cansao e satisfao, pensou num longo banho quente e numa noite tranqila com um livro. Talvez apenas tomasse banho 
e planejasse como iria decorar seu apartamento. Em duas semanas, teria as chaves na mo e os cmodos para mobiliar. Se seus ps no estivessem to doloridos, iria 
at algumas lojas de antigidade agora. Com prazer, pensou no conversvel branco esperando-o estacionamento ao lado do hospital. O carro significava mais do que 
o fato de no ter de andar at em casa. Significava independncia.
Tirando as chaves da bolsa, balanou-as na mo e sentiu-se nas nuvens. Nunca considerara seu ego muito grande, mas quando seu pai tinha quase babado sobre o estofamento, 
e, ento exigido dar uma volta, Anna sentira o ego inchar. Ele a aprovara finalmente. Ela havia usado o prprio dinheiro, o prprio julgamento e no recebera nenhuma 
crtica. Lembrou-se da forma como arrastara sua me para o lado de fora e a colocara no banco traseiro com o marido. Anna tinha passeado por Boston por quase uma 
hora, com seus pais aconchegados como dois adolescentes no assento de trs.
Entendeu, ento, que seus pais comeavam a enxerg-la como mais que uma garotinha que precisava de orientao. Se j tivessem percebido isso ou no, agora a aceitavam 
como adulta. Talvez, pensou, apenas talvez, sentissem orgulho quando ela ganhasse seu diploma.
Feliz, Anna jogou as chaves no ar e as pegou novamente. Esbarrou em Daniel.
- Voc no olhou para onde estava indo.
Ela estava feliz antes, mas ficou ainda mais feliz ao v-lo. Quase admitiu isso.
- No, eu no olhei.
No caminho, Daniel j tinha decidido como lidar com ela. Do seu jeito.
- Voc vai jantar comigo esta noite. - Quando Anna abriu a boca, ele a segurou pelos ombros. A voz era alta o bastante para fazer cabeas se virarem, e os olhos 
furiosos o suficiente para faz-las seguir em frente. - No aceitarei nenhum argumento. Estou cansado deles, e no tenho tempo para isso, de qualquer forma. Voc 
vai jantar comigo esta noite. Esteja pronta s sete horas.
Havia um nmero de coisas que ela poderia fazer. Em espao de segundos, Anna pensou em todas elas. Mas decidiu que o melhor caminho era o menos esperado.
- Tudo bem, Daniel - disse ela com discrio.
- Eu no me importo com... O qu?
- Eu disse que estarei pronta. - Ela o fitou, o semblante calmo, o sorriso sereno, tirando-o totalmente do equilbrio, como Anna sabia que aconteceria.
- Eu... Certo, ento. - Com a expresso sria, Daniel enfiou as mos nos bolsos. - Esteja pronta. - Ele tinha conseguido precisamente o que queria, mas parou no 
meio do caminho para seu carro e olhou para trs. Anna estava parada no mesmo lugar, iluminada pelo sol. O sorriso permanecia tranqilo e doce como o beijo de um 
anjo. - Malditas mulheres - resmungou Daniel quando abriu a porta do carro. No se podia confiar nelas.
Anna esperou at que ele partisse, ento caiu na gargalhada. V-lo tropeando e gaguejando tinha sido melhor do que qualquer discusso. Ainda rindo, foi para seu 
carro. Uma noite com Daniel, admitiu, certamente seria mais interessante do que um livro. Virando a chave na ignio, sentiu-se poderosa. Tinha controle. E gostava 
disso.
Ele levou-lhe flores. No as rosas brancas que ainda insistia em mandar-lhe dia aps dia, mas pequenas violetas de seu prprio jardim. Agradou-lhe v-la arranjando 
as flores num pequeno vaso de cristal enquanto falava com os pais dela. Daniel parecia grande e ousado na delicada sala de estar de sua me. Sentia-se to nervoso 
e fraco como um adolescente no seu primeiro encontro. Tenso, sentou-se em uma cadeira que combinaria mais com uma casa de bonecas, e aceitou uma xcara de ch morno 
da sra. Whitfield.
- Voc deve vir jantar conosco em breve - disse-lhe a sra. Whitfield. A chegada constante das rosas a tinha deixado bastante esperanosa. Assim como lhe dera algo 
para alardear aos quatro cantos. A verdade era que no entendia a filha e nunca entenderia.  claro, podia dizer a si mesma que Anna sempre fora uma criana doce 
e adorvel, mas, exceto por coisas simples como escolher um tecido para um vestido ou a refeio de um cardpio, desconhecia a filha. Anna, com sua teimosia calma 
e ambies inabalveis, estava fora de sua compreenso.
Todavia, a sra. Whitfield no era tola. Viu a maneira como Daniel olhava para a sua filha e entendeu muito bem. Com um estranho misto de alvio e tristeza, imaginou 
Anna casada e criando sua prpria famlia. Se os modos de Daniel eram um pouco rudes, sabia que sua Anna os suavizaria rapidamente. Talvez ela se tornasse av em 
um ano ou dois. Era um outro pensamento que trazia emoes conflitantes. Bebendo o ch, a sra. Whitfield observou Daniel.
- Entendo que voc e John so parceiros de negcios agora, mas tero de manter isso no escritrio.  claro, no sei nada sobre o negcio, de qualquer forma. - Ela 
inclinou-se para dar um tapinha carinhoso na mo de Daniel. - John no me conta nada, por mais que eu insista.
- E ela insiste - murmurou o sr. Whitfield.
- Ora, John. - Com uma risada leve, ela lhe enviou um olhar furioso. Se aquele homem tivesse srias intenes com sua filha, e estava certa que sim, pretendia descobrir 
tudo sobre ele. - Todos tm curiosidade sobre as negociaes do sr. MacGregor. Isso  natural. Outro dia mesmo, Pat Donahue me contou que voc comprou uma propriedade 
deles em Hyannis Port. Espero que no esteja pensando em sair de Boston.
Daniel no precisava cheirar o ar para saber em que direo o vento soprava.
- Gosto de Boston.
Decidindo que j o deixara suar tempo demais, Anna entregou o casaco a Daniel. Grato, ele se levantou rapidamente e ajudou-a a vesti-lo.
- Tenham uma excelente noite, crianas. - A sra. Whitfield teria se levantado para acompanh-los at a porta, mas o marido colocou uma mo em seu ombro.
- Boa noite, me. - Anna beijou o rosto da me, ento sorriu para o pai. Nunca soubera que ele era to perceptivo. Com um sorriso, beijou-o tambm.
- Divirtam-se. - Em um velho hbito, ele acariciou-lhe a cabea.
Assim que saram, Daniel descobriu que finalmente podia voltar a respirar.
- Sua casa  muito...
- Abarrotada de coisas - terminou Anna, ento riu e enlaou o brao no dele. - Minha me gosta de preench-la com qualquer coisa que lhe chame a ateno. No me 
dei conta, at alguns anos atrs, de como meu pai  tolerante. - Satisfeita que Daniel levara o conversvel azul, ela ergueu as saias e acomodou-se no assento. - 
Aonde ns vamos jantar?
Ele assumiu seu prprio lugar e ligou o motor.
- Vamos jantar em casa. Na minha casa.
Anna sentiu seus nervos ficarem tensos. Usando sua melhor arma, a fora de vontade, reprimiu o frio no estmago. No tinha esquecido da sensao de controle. Lidaria 
com ele.
- Entendo.
- Estou cansado de restaurantes, de multides. - A voz dele era tensa. Bem, Daniel est nervoso, pensou ela, e sentiu uma onda de prazer. O homem era enorme. A voz 
possua um timbre que podia fazer vidraas baterem, mas estava nervoso com o fato de passar uma noite com ela. No foi fcil, mas Anna tentou no se sentir convencida 
demais.
- Oh? Eu tinha a impresso de que voc gostava de estar cercado de muitas pessoas - comentou ela calmamente.
- No quero um bando delas olhando para ns enquanto comemos.
-  incrvel como algumas pessoas podem ser rudes, no ?
- E se quero conversar com voc, no preciso que metade de Boston me oua.
- Naturalmente no.
Com um suspiro, Daniel partiu com o carro.
- E se voc est preocupada com decncia, eu tenho empregados.
Ela lhe lanou um olhar manso.
- No estou nem um pouco preocupada.
Sem saber como lidar com aquilo, ele estreitou os olhos. Ela estava fazendo alguma espcie de jogo, isso era certo. Daniel apenas no sabia de que tipo nem quais 
eram as regras.
- Voc est muito segura de si mesma de repente, Anna.
- Daniel. - Ela alcanou a maaneta e desceu. - Sempre fui uma pessoa segura.
Com uma longa olhada, Anna decidiu que gostava da casa dele. Ficava separada da rua por uma cerca viva que chegava  altura de seus ombros. A privacidade que a barreira 
proporcionava no era fria ou impessoal, como um muro, mas era to firme quanto. Enquanto olhava para as janelas altas, algumas das quais j estavam suavemente iluminadas 
atrs das cortinas, pde sentir a mistura de aromas que vinha do jardim lateral.
Ervilhas-de-cheiro, reconheceu Anna, e sorriu. Tinha uma fraqueza por elas. Daniel escolhera uma casa imponente, grande o bastante para uma famlia de dez pessoas, 
mas no esquecera de transform-la em um lar, com coisas to simples quanto flores. Ela esperou por ele na entrada no caminho.
- Por que voc a escolheu?
Daniel seguiu-lhe o olhar para casa. Viu os tijolos, atraentemente desbotados com a idade, as janelas com suas persianas recm-pintadas. No havia a sensao de 
parentesco ou de posse. Afinal de contas, uma outra pessoa a construra. Quando inalou o ar noturno, no sentiu o cheiro doce das ervilhas, mas o aroma de Anna.
- Porque  grande.
Ela sorriu com aquilo e virou-se para ver um pardal sobre o galho de uma rvore no jardim da frente.
- Suponho que isso tenha lgica. Voc pareceu desconfortvel na sala de minha me, como se, caso se virasse, fosse bater em uma das paredes. Esta casa combina mais 
com voc.
- Por enquanto - murmurou ele. Tinha outros planos. -  possvel ver o pr-do-sol dessas janelas. - Daniel apontou e, ento, pegou-lhe o brao para conduzi-la pelo 
caminho. - Mas no por muito tempo.
- Por qu?
- Progresso. Eles iro construir prdios altos, bloqueando a viso. No em todos os lugares, mas em muitos. Eu vou comear a trabalhar em um deles no prximo ms. 
-Abrindo a porta, esperou que ela entrasse no hall.
As espadas sobre a parede  sua esquerda foram a primeira coisa que chamou a ateno de Anna. No eram ornamentos delicados e quase femininos, usados em duelos entre 
fanfarres. Eram espadas de folhas largas, grossas e pesadas, com punhos no decorados e lminas mortalmente afiadas. Seriam necessrias duas mos e um homem forte 
para levantar uma delas. Seriam necessrias muita fora e habilidade para us-las em ataque ou em defesa. Incapaz de resistir, Anna se aproximou. No tinha problema 
em imaginar o que uma daquelas espadas poderia fazer com carne e ossos. Todavia, ao mesmo tempo que as considerava letais, no podia negar sua beleza.
- As espadas so de meu cl. Meus ancestrais as usavam. - Havia orgulho na voz dele, e simplicidade. - Os MacGregors sempre foram guerreiros.
Era um desafio o que Anna estava ouvindo? Poderia ser. Ela se aproximou das espadas. As pontas das lminas no estavam embotadas, mas afiadas como sempre foram.
- A maioria de ns , no ?
A resposta dela o surpreendeu, mas talvez no devesse. Sabia que Anna no era uma mulher de tremer e desmaiar com a viso de uma arma ou de sangue derramado.
- O rei ingls - comeou ele, e recebeu a ateno total de Anna - roubou nosso nome, nossa terra, mas no pde levar nosso orgulho. Ns cortvamos cabeas quando 
precisvamos. - Os olhos azuis estavam profundos e brilhantes quando ele a fitou. Ela no tinha dvida de que Daniel empunharia a espada com a mesma ferocidade de 
seus ancestrais, caso se sentisse justificado. - Na maior parte, cabeas dos Campbell. - Ele sorriu e pegou-lhe o brao. - Eles queriam nos tirar da Esccia, mas 
no conseguiram.
Anna pegou-se imaginando como ele ficaria vestido em roupas de seu pas, o kilt, a manta escocesa, o punhal. No ficaria ridculo, mas dramtico. Olhou novamente 
para as espadas.
- No, tenho certeza de que eles no conseguiriam. Voc tem motivos para se sentir orgulhoso.
Ele subiu a mo para o rosto dela e demorou-se ali.
- Anna...
- Sr. MacGregor. - McGee estava parado como uma esttua enquanto Daniel o encarava. Havia uma expresso nos olhos de Daniel que teria feito qualquer homem tremer.
- Sim? - Com uma palavra, Daniel pareceu transportar uma infinidade de pragas.
- Uma ligao de Nova York, senhor. Sr. Liebowitz, disse que  muito importante.
- Leve a srta. Whitfield para a sala, McGee. Desculpe-me, Anna, preciso atender esta ligao. Serei o mais breve possvel.
- Est tudo bem. - Aliviada por ter alguns minutos sozinha, Anna o observou sair do hall.
- Por aqui, senhorita.
Ela notou o sotaque irlands, que era mais acentuado que o de Daniel, e sorriu. Com uma ltima olhada para as espadas, seguiu McGee para a sala. Uma sala que fez 
a de sua me parecer um closet. Se "grande" era o que Daniel queria, "grande" era o que tinha.
- Gostaria de um drinque, srta. Whitfield? 
Distrada, Anna virou-se.
- O que disse?
- Gostaria de um drinque?
- Oh, no, obrigada. Estou bem. 
Ele fez uma pequena reverncia.
- Por favor, chame se precisar de alguma coisa.
- Obrigada - repetiu Anna, ansiosa para se livrar do homem. No minuto em que ficou sozinha, girou num pequeno crculo. Grande, sim... muito maior do que um cmodo 
mdio. Amenos que estivesse enganada, Daniel tinha mandado derrubar as paredes e transformar duas salas em uma.
O tamanho incomum era preenchido com mveis in-comuns. Havia uma mesa Belker com o dobro do tamanho de uma roda de carro, entalhada com tantos detalhes que as extremidades 
pareciam feitas de renda. Uma cadeira alta, estofada com um rico tom de vermelho, ficava ao lado da mesa. Ele poderia ser um juiz num tribunal, pensou ela, e riu 
da idia. Por que no?
Em vez de se sentar, Anna simplesmente ficou vagando pelo espao. As cores eram berrantes e ousadas, mas, de alguma maneira, sentiu-se perfeitamente confortvel 
com elas. Talvez tivesse vivido com os tons pastel de sua me durante tempo demais. Um sof ocupava quase uma parede inteira, e teria requerido quatro homens fortes 
para mov-lo. Com uma risada, decidiu que Daniel o escolhera exatamente por essa razo.
Ao longo da janela oeste, havia uma coleo de cristais Waterford, Baccarat. Um vaso, com meio metro de altura, era lindamente refletido pelos ltimos raios do sol. 
Anna pegou uma taa que cabia na palma de sua mo e perguntou-se o que aquela pea estava fazendo entre as gigantes.
Ele a encontrou assim, parada onde o sol batia, sorrindo para um pequeno pedao de vidro. A boca de Daniel secou. Apesar de no ter dito nada, de no conseguir dizer 
nada, ela virou-se na sua direo.
- Que cmodo maravilhoso. - Entusiasmo adicionava cor s faces dela, aprofundava-lhe os olhos. - Imagino no inverno, com a lareira acesa. Deve ficar espetacular. 
-Como ele no falou nada, o sorriso de Anna desapareceu. Ela aproximou-se. - O telefone. Ms notcias?
- O qu?
- O seu telefonema. Aborreceu voc?
Ele tinha esquecido sobre o telefonema, assim como esquecera de tudo o mais. No gostava do fato de que uma olhada para ela podia amarrar-lhe a lngua e causar-lhe 
ns no estmago.
- No. Terei de ir para Nova York por alguns dias, a fim de endireitar algumas coisas. - Incluindo a si mesmo, pensou com tristeza. - Tenho uma coisa para voc.
- Espero que seja o jantar - disse ela, voltando a sorrir.
- Teremos isso, tambm. - Ocorreu a Daniel que nunca havia se sentido sem graa perto de uma mulher antes. Tirando uma caixinha do bolso, entregou-lhe.
Houve um momento de pnico. Ele no tinha direito de oferecer-lhe um anel. Ento, o bom senso afastou o pnico. No era o tipo de caixa pequena que continha anis 
de noivado, mas uma velha caixa de papelo. Curiosa, Anna abriu a tampa.
O camafeu era quase to longo quanto seu polegar, e talvez com o dobro da largura. Antigo e adorvel, estava aninhado entre as dobras de um colcho de papel de seda. 
O perfil da figura em relevo era gentil e sereno, mas a cabea estava inclinada com um pequeno toque de orgulho.
- Ela se parece com voc - murmurou Daniel. - Eu lhe disse isso uma vez.
- Sua av - lembrou Anna. Emocionada, ergueu um dedo para traar o contorno. -  lindo, realmente lindo. - Fechar a tampa da caixa de novo foi mais difcil do que 
deveria. - Daniel, voc sabe que no posso aceitar isso.
- No, no sei. - Tirando-lhe a caixa da mo, ele a abriu novamente e retirou o camafeu, o qual tinha atado a uma fita de veludo. - Vou coloc-lo para voc.
Ela quase podia sentir os dedos dele roando-lhe a nuca.
- Eu no devo aceitar um presente de voc.
Daniel arqueou uma sobrancelha.
- No me diga que voc se preocupa com fofocas, Anna. Se desse importncia para o que as pessoas pensam ou falam, no estaria fazendo faculdade em Connecticut.
Ele tinha razo,  claro, mas ela tentou permanecer firme.
-  uma relquia de famlia, Daniel. No seria certo.
-  minha relquia, e estou cansado de t-la fechada em uma caixa. Minha av gostaria que algum que apreciasse a pea a usasse. - Com modos surpreendentemente suaves, 
deslizou a fita ao redor do pescoo dela e prendeu-a. O camafeu encaixou na curva do pescoo de Anna como se fosse destinado a estar ali. - Pronto,  aqui o lugar 
a que ele pertence.
Incapaz de resistir, Anna tocou o camafeu. O bom senso evaporou.
- Obrigada. Vamos dizer que eu o estou guardando para voc. Se quiser de volta...
- No estrague isso - interrompeu ele, e segurou-lhe o queixo na mo. - Eu queria v-la usando a jia.
Ela no pde evitar um sorriso.
- E voc sempre consegue o que quer? 
- Exatamente. - Satisfeito consigo mesmo, Daniel deslizou o polegar pelo rosto dela antes de baixar a mo. - Quer um drinque? Tenho xerez. 
-  melhor no.
- Tomar um drinque?
- Beber xerez. H uma outra opo? 
Ele sentiu o nervosismo esvair-se.
- Tenho um usque excelente enviado... contrabandeado, se quer a verdade... por um amigo meu de Edimburgo.
Ela torceu o nariz.
- Usque tem gosto de sabo.
- Sabo? - Daniel pareceu perplexo, depois riu.
- No leve para o lado pessoal.
- Voc vai experimentar - disse ele, indo para o bar. - Sabo. - Enquanto servia, a voz caiu para um murmrio. - Esta no  a mesma bebida que voc toma nas festas 
de Boston.
Que coisa, quanto mais o conhecia, mais afetuoso ele se tornava. Anna descobriu sua mo tocando o camafeu de novo. Respirou profundamente e lembrou a si mesma da 
sensao de estar no controle. Quando Daniel lhe entregou um copo, ela estudou o lquido. Era muito escuro e, refletiu, era provvel que fosse to letal quanto as 
espadas da parede.
- Gelo?
- No seja tola. - Ele virou o prprio copo e desafiou-a. Anna respirou fundo e deu um gole.
Quente, potente e suave. Franzindo o cenho, deu mais um gole.
- Ainda estou em p - murmurou ela, mas devolveu-lhe o copo. - Mas, se eu beber tudo isso, no conseguirei parar em p.
- Ento vamos alimentar voc. Meneando a cabea, ela ofereceu-lhe a mo.
- Se esse  seu jeito de dizer que est na hora do jantar, eu aceito.
Daniel pegou-lhe a mo e ergueu-a.
- Voc no receber muitas palavras bonitas de mim, Anna. No sou um homem polido. E no tenho planos de ser.
Os cabelos ruivos estavam cados sobre o rosto dele rebeldes e magnficos. A barba lhe dava o aspecto do guerreiro que ambos sabiam que estava no sangue de Daniel.
- No, no acho que voc deveria.
No, ele no era polido, mas cercava-se de beleza. No o tipo de beleza tranqila com a qual Anna estava acostumada, mas uma beleza ousada e estimulante que podia 
toc-la no mago. Havia um escudo e uma lana na parede da sala de jantar e, abaixo, um gabinete Chippendale que qualquer colecionador de antigidades teria invejado. 
A mesa era enorme, mas sobre ela estava a porcelana chinesa mais encantadora que Anna j vira. Sentando-se em uma cadeira que ficaria adequada num castelo medieval, 
descobriu que estava completamente relaxada.
O sol enviava raios dourados atravs das janelas. Enquanto comiam, a iluminao foi ficando mais fraca. Com eficincia silenciosa, McGee apareceu para acender velas, 
ento os deixou novamente.
- Se eu contasse  minha me sobre essa refeio, ela tentaria roubar a sua cozinheira. - Anna deu uma mordida na torta de chocolate e entendeu a expresso pecadoramente 
rico.
Observ-la apreciar sua comida deu prazer a Daniel, uma vez que ele mesmo tinha escolhido os pratos.
- Voc entende por que prefiro isso a um restaurante?
- Com certeza. - Ela deu uma outra mordida, porque algumas coisas eram impossveis de resistir. - Vou sentir falta de comida caseira quando eu me mudar para meu 
apartamento.
- E quanto  sua prpria?
- Minha prpria, o qu?
- Comida.
- No existe. - Estudando-o, Anna comeu mais um pedao da torta. - Suas sobrancelhas se juntam quanto voc franze o cenho, Daniel, mas no se preocupe. Pretendo 
aprender a cozinhar. Autopreservao. - Unindo os dedos, descansou o queixo neles. - Suponho que voc no cozinha.
Ele comeou a rir, ento pensou melhor e parou.
- No. Anna descobriu que gostava de peg-lo desprevenido daquele jeito.
- Mas, naturalmente, voc acha estranho que eu, como mulher, no saiba cozinhar.
Era difcil no admirar-lhe a lgica mesmo quando ele estava do lado errado daquilo.
- Voc tem o hbito de colocar um homem contra a parede, Anna.
- Gosto da maneira como luta por uma sada. Sei que isso pode ser uma bno para seu ego, mas voc  um homem interessante.
- Tenho um ego muito grande. So necessrias muitas coisas para preench-lo. Por que no me conta de que maneira sou interessante?
Anna sorriu e se levantou.
- Uma outra hora, talvez.
Ele pegou-lhe a mo quando tambm j estava de p.
- Haver uma outra vez.
Ela no acreditava em mentiras, e em respostas evasivas somente quando a verdade no cabia.
- Parece que vai. A sra. Higgs falou de voc o tempo inteiro hoje - acrescentou Anna enquanto eles voltavam para a sala.
- Uma mulher adorvel.
Anna teve de sorrir. Daniel falou aquilo com tanta satisfao.
- Ela espera que voc volte.
- Eu disse que voltaria. - Ele viu a pergunta nos olhos de Anna e parou. - Cumpro minha palavra.
- Sim. -Anna sorriu novamente. -  muita gentileza sua, Daniel. Ela no tem ningum.
Sentindo-se desconfortvel, ele franziu o cenho.
- No ponha uma aurola na minha cabea, Anna. Pretendo ganhar a aposta, mas quero fazer isso sem fingimento.
- No tenho inteno de colocar uma aurola em voc. - Ela tirou os cabelos dos ombros. - E no tenho a menor inteno de perder a aposta.
 porta da sala de estar, Anna parou novamente. Havia velas, dzias delas, brilhando ao redor do ambiente. A luz da lua se infiltrava pela janela para competir. 
Um blues tocava baixinho, parecendo vir das sombras. Ela sentiu o pulso acelerar, mas continuou entrando na sala.
- Lindo - comentou, notando o bule de prata com caf que fora colocado perto do sof.
Enquanto Daniel ia servir o licor, Anna ficou em p, parecendo completamente  vontade. Imaginou se os msculos podiam estar mais tensos.
- Gosto do jeito como voc fica  luz de velas - murmurou ele, entregando-lhe o copo. - Lembra-me da primeira noite em que a vi, quando voc estava parada no
terrao perto do jardim. Havia raios do luar em seu rosto, sombras em seus olhos. - Quando pegou a mo de Anna, ... sentiu-a tremer por um momento. Mas os olhos 
escuros estavam bem firmes. - Assim que eu a olhei, soube que precisava t-la. Desde ento, penso em voc todos os dias e todas as noites.
Teria sido fcil, fcil demais entregar-se aos pensamentos que surgiam na cabea dela. Se o fizesse, poderia sentir a boca de Daniel na sua novamente e ansiar pelo 
toque daquelas mos grandes sobre sua pele. Teria sido fcil. Mas a vida que j tinha escolhido, ou que a escolhera, no era fcil.
- Um homem na sua posio devia saber como  perigoso tomar uma deciso por impulso.
- No. - Ele ergueu-lhe a mo e beijou-lhe os dedos, vagarosamente, um por um. Anna j estava ofegante. 
Decidiu falar calmamente e, esperava, com cuidado. 
- Daniel, voc est tentando me seduzir?
Quando e como algum dia ele iria se acostumar com aquela voz calma e palavras to francas? Aps uma risada, bebeu um pouco do licor. 
- Um homem no seduz uma mulher com a qual pretende se casar.
-  claro que seduz - corrigiu Anna e bateu-lhe nas costas quando ele engasgou. - Da mesma forma que um homem seduz mulheres com as quais no pretende se casar. 
Mas eu no vou me casar com voc, Daniel. - Ela virou-se para andar at o bule de caf, ento olhou por sobre o ombro. - E no vou ser seduzida. Caf?
Ele no apenas a amava, percebeu Daniel. Estava muito perto de ador-la. Havia muitas coisas de que no estava certo no momento, mas sabia sem sombra de dvida, 
que no poderia viver sem ela.
- Sim. - Ele se aproximou e pegou a xcara. Talvez estivesse melhor com alguma coisa nas mos. - Voc no pode negar que me quer, Anna.
O corpo dela estava formigando. Ele precisava apenas toc-la para sentir-lhe o desejo, a fraqueza. Anna forou-se a encar-lo.
- No, no posso. Mas isso no muda nada.
Sem provar o caf, Daniel o ps sobre a mesinha. Teria preferido jog-lo longe.
-  claro que muda. Voc veio aqui esta noite.
- Para jantar - Anna o relembrou calmamente. - E porque, por alguma estranha razo, aprecio a sua companhia. Essas so algumas das coisas que tenho de aceitar. H 
outras que no posso arriscar.
- Eu posso. - Daniel se aproximou mais e segurou-lhe a nuca gentilmente, embora fosse difcil ser gentil quando a queria com tanto desespero. Sentiu o leve movimento 
de resistncia de Anna, ignorou-o e puxou-a para si. - E vou arriscar.
No momento em que a boca dele estava na sua, Anna aceitou mais uma coisa. Inevitavelmente. Soubera que eles no podiam ficar juntos sem que a paixo surgisse. Todavia, 
tinha ido a ele livremente e em termos iguais. Entre os dois existia uma paixo to ardente a qual era difcil resistir. Chegaria uma hora, ela sabia, que nada os 
impediria de vivenci-la. Deslizou os braos pelas costas dele e aproximou-se do fogo que a consumia.
Quando Daniel a abaixou para o sof, Anna no protestou, mas o puxou para mais perto. Prometeu a si mesma, confusa, que apenas por um momento provaria o gosto de 
como poderia ser. O corpo de Daniel estava to firme contra o seu. Ela podia sentir o desejo dele, e, apesar de todo seu bom senso, deleitou-se com isso.
Aboca mscula passeava por seu rosto. Seu nome era murmurado repetidamente contra seus lbios, seu pescoo. Anna sentiu o gosto do licor quando as lnguas de ambos 
se entrelaaram. O aroma das velas a rodeava. Com a msica, vinha uma batida baixa que provocava, excitava.
Ele tinha de toc-la. Daniel pensou que enlouqueceria se no pudesse ter mais. Ento, no momento em que deslizou as mos sobre Anna, sentiu a maciez, as batidas 
aceleradas do corao, soube que nunca teria o bastante. As mos to largas, to grandes, passavam sobre ela com um carinho que a fez tremer. Quando ele ouviu o 
prprio nome no sussurro trmulo de Anna, lutou por controle, para evitar possuir o que tanto desejava. Procurou-lhe a boca novamente, e encontrou-a quente, desejosa 
e aberta.
Desesperado, lutou com os botes frontais do vestido dela. Suas mos eram to grandes, os botes to pequenos. O sangue comeou a pulsar na cabea. Ento descobriu, 
para seu encanto, que sua digna Anna usava seda e renda sobre a pele.
Anna arqueou-se com as carcias, arqueou-se e tremeu, ento pediu por mais. Daniel a estava levando alm do esperado, alm do previsto, para o mundo dos sonhos. 
Mos enormes continuaram deslizando sobre seu corpo com incrvel gentileza. Mos que acariciavam, apalpavam, excitavam. Incapaz de resistir, ela o deixou gui-la. 
Controle no parecia mais essencial. Ambies perderam a importncia. Desejo. S existia um. Por um momento de loucura, entregou-se quilo.
Havia um desespero em Daniel que crescia cada vez que seu corao batia. Sabia o que queria, o que ia querer at o dia de sua morte. Anna. Somente Anna. A boca delicada 
estava quente na sua, o corpo era pequeno e delgado. As imagens que surgiram na mente dele eram to escuras e perigosas quanto um terreno desconhecido. Ela agarrava-se 
a ele e parecia entregar tudo. A cabea de Daniel girou com isso. Ento, Anna enterrou o rosto no seu pescoo e ficou imvel.
- Anna? - A voz de Daniel era rouca, as mos ainda gentis.
- No posso dizer que isso no  o que quero. -A luta acontecendo no seu interior a deixava fraca e assustada. - Mas no posso ter certeza se . - Ela tremeu uma 
vez, ento, afastou-se. Daniel podia ver-lhe o rosto  luz das velas, a pele alva, os olhos escuros. Sob sua mo, o corao feminino batia descompassado. - Nunca 
esperei me sentir dessa forma, Daniel. Preciso pensar.
O desejo queimou dentro dele.
- Posso pensar por ns dois.
Ela levou ambas as mos ao rosto dele antes que Daniel pudesse beij-la novamente.
-  disso que tenho medo. - Movimentando-se, Anna se sentou. O vestido estava aberto quase at a cintura, com sua pele branca e suave exposta pela primeira vez para 
um homem. Mas no sentia vergonha. Com firmeza, comeou a fechar os botes. - O que est acontecendo entre ns... o que poderia acontecer entre ns...  a deciso 
mais importante da minha vida. Tenho de tom-la sozinha.
Daniel a segurou pelos braos.
- A deciso j foi tomada.
Parte dela pensou que ele estava certo. Uma outra parte sentia-se apavorada que assim fosse.
- Voc tem certeza do que quer. Eu no tenho. At que eu tenha, no posso lhe prometer nada. - Os dedos que estiveram firmes tremeram antes que ela pudesse control-los. 
- Talvez eu nunca seja capaz de lhe prometer nada.
- Quando eu a abracei, voc soube o quanto era certo. Pode me dizer que no sente isso toda vez que eu a toco?
- No, no posso. - Quanto mais agitado ele ficava, mais Anna se forava a permanecer calma. - No posso, e  por isso que preciso de tempo. Necessito de tempo porque, 
qualquer deciso que eu tome, tem de ser com a cabea fria.
- Cabea fria. - Furioso, dolorido pelo desejo, Daniel se levantou e comeou a andar pela sala. - Minha mente no est clara desde a primeira vez que pus os olhos 
em voc.
Ela se levantou, tambm.
- Ento, goste voc disso ou no, ambos precisamos de tempo.
Daniel pegou o licor que deixara sem terminar e bebeu-o.
- Tempo  o que voc precisa, Anna. - Ele virou-se para ela. Anna nunca o vira parecer mais feroz, mais formidvel. Uma mulher sbia guardaria seu corao. Esforou-se 
para se lembrar disso. - Estarei em Nova York por trs dias. Esse  seu tempo. Assim que voltar vou procur-la. Quero sua deciso, ento.
O queixo de Anna ergueu-se, expondo um pescoo delgado e elegante. A dignidade a cobria numa onda silenciosa.
- No me d prazos e ultimatos, Daniel.
- Trs dias - repetiu ele, e ps o copo sobre a mesinha antes de quebr-lo em dois. - Vou lev-la para casa.


Seis

Quando trs dias viraram uma semana, Anna no sabia se devia se sentir aliviada ou furiosa. Tentar no sentir nenhuma das duas coisas e continuar levando a vida 
da mesma maneira de sempre no era possvel. Ele lhe dera um prazo, ento nem se incomodara em aparecer para ouvir sua deciso, a qual, ela tinha de admitir, ainda 
no tomara.
Invariavelmente, toda vez que Anna colocava a mente em um problema, solucionava-o. Era uma questo de analisar todos os nveis e estabelecer prioridades. Parecia 
haver muitos nveis em seu relacionamento com Daniel para que lidasse com cada um deles de modo racional. Por um lado, ele era rude, prepotente e irritante. Por 
outro, era divertido. Podia ser insuportavelmente arrogante... e insuportavelmente doce. O lado rude nunca deixaria de existir por completo. O lado suave era admiravelmente 
rpido e inteligente. Ele tramava, ria de si mesmo. Era dominador e generoso.
Se no podia analisar Daniel de maneira correta, como podia esperar analisar seus sentimentos por ele? Desejo.
Tinha muito pouca experincia com esse sentimento exceto suas necessidades, mas o reconhecia. Como reconheceria o amor? E mesmo se o reconhecesse, o que faria a 
esse respeito?
A nica coisa de que Anna teve certeza durante a ausncia de Daniel, era que sentia sua falta. Sabia disso porque acreditara que no pensaria nele nem por um segundo. 
No entanto, no pensara em quase mais nada. Mas, se cedesse, se jogasse a cautela pela janela e concordasse em se casar com ele, o que aconteceria com seu sonho?
Poderia se casar, ter filhos, dedicar sua vida a Daniel... e ressentir-se de tudo que haviam construdo juntos, porque teria abandonado sua vocao. E tal abandono 
significava viver meia vida, e Anna no achava que podia fazer isso. Se o rejeitasse e seguisse com os seus planos, isso significaria viver meia vida tambm?
Estas eram as questes que a atormentavam  noite, que a perseguiam durante o dia. Questes que respondia para, logo depois, rejeitar as respostas. Portanto, no 
tomou deciso alguma, sabendo que, uma vez que o fizesse, seria definitivo.
Ela forou-se a continuar sua rotina. Reprimindo especulaes e dvidas, ia ao teatro e a festas com as amigas  noite. Durante o dia, enterrava-se no trabalho do 
hospital, com a energia nascida da frustrao.
Habitualmente, visitava a sra. Higgs primeiro. Anna no precisava de um diploma para saber que a mulher estava morrendo. Ento, antes de cumprir suas outras tarefas, 
passava o maior tempo possvel no quarto 521.
Uma semana depois de ter visto Daniel pela ltima vez, certificando-se de que o sorriso estava no lugar, Anna abriu a porta do quarto da sra. Higgs. Desta vez, as 
persianas estavam abaixadas e havia mais sombra do que luz. A sra. Higgs estava acordada, olhando com indiferena para as flores murchas sobre a mesa. Os olhos dela 
se iluminaram quando viu Anna.
- Estou to feliz que voc veio. Eu estava justamente pensando em voc.
-  claro que vim. - Anna deixou as revistas sobre a mesa. O instinto lhe disse que aquelas fotos no eram do que a sra. Higgs precisava hoje. - De que outra maneira 
eu poderia lhe contar todas as fofocas da festa em que fui ontem  noite? - Com o pretexto de arrumar os lenis, ela examinou o relatrio mdico. Seu corao disparou. 
A deteriorao dos ltimos cinco dias estava aumentando. Mas sorriu quando se sentou ao lado da cama. - Sabe minha amiga, Myra? - Anna sabia o quanto a sra. Higgs 
adorava as histria sobre as travessuras de Myra. - Ontem  noite, ela usou um vestido preto sem alas, curtssimo. To curto que pensei que as mulheres mais velhas 
desmaiariam.
- E os homens?
- Bem, vamos apenas dizer que Myra danou a noite inteira.
A sra. Higgs riu, ento respirou fundo quando uma dor a atingiu. Anna ficou instantaneamente em p.
- Fique deitada. Vou chamar o mdico.
- No. - Com fora surpreendente, a mo magra segurou a de Anna. - No, ele apenas vai me dar uma outra injeo.
Tentando acalm-la, Anna alisou-lhe a mo frgil e tomou-lhe o pulso.
-  para dor. A senhora no precisa sentir dor.
Mais calma, a sra. Higgs recostou-se novamente.
- Prefiro sentir dor a no sentir nada. Estou bem agora. - Ela conseguiu um sorriso. - Conversar com voc  muito melhor do que remdios. O seu Daniel j voltou?
Ainda monitorando-lhe o pulso, Anna se sentou novamente. -No.
- Foi to gentil da parte dele me visitar antes de partir para Nova York. Imagine! Veio aqui antes de ir para o aeroporto.
O fato de ele ter ido era mais uma das coisas que se adicionavam  confuso de Anna.
- Ele me falou que gosta de visitar a senhora.
- Daniel disse que voltar aqui quando retornar de Nova York. - Ela olhou para as velhas rosas que se recusara a deixar as enfermeiras levarem embora. -  to especial 
ser jovem e estar apaixonado.
Anna sentiu uma pontada de dor. Ele a amava? Daniel a tinha escolhido, a desejava, mas amor era algo diferente. Ela gostaria de ter algum com quem pudesse conversar, 
mas Myra parecia to preocupada ultimamente, e ningum mais entenderia. E no podia descarregar seus problemas sobre a sra. Higgs, uma vez que fora l para confortar. 
Em vez disso, sorriu e acariciou-lhe a mo.
- A senhora deve ter se apaixonado dzias de vezes.
- No mnimo. Apaixonar-se  como uma montanha-russa, os altos e baixos, as emoes. Estar apaixonada  como um carrossel... girando e girando enquanto a msica toca. 
Mas permanecer amando - ela suspirou, recordando-se -  como um labirinto, Anna. H todas as voltas e giros, e becos sem sada. Voc tem de continuar indo, continuar 
confiando. Tive um tempo to curto com o me marido, e nunca mais tentei amar.
- Como era o seu marido?
- Oh ele era jovem e ambicioso. Cheio de idias. O pai dele tinha um mercado alimentcio, e Thomas queria expandi-lo. Era um homem inteligente. Se tivesse vivido... 
Mas no era para ser. Voc acredita em destino, Anna?
Ela pensou em sua necessidade de curar, em seus estudos. Tentou no pensar em Daniel.
- Sim, acredito.
- O destino de Thomas era morrer jovem, como uma adorvel chama queimando. Entretanto, ele acumulou tantas coisas em sua curta vida. Quanto mais olho para trs, 
mais o admiro. Seu Daniel me lembra dele.
- Como?
- Aquela energia... o tipo que voc pode ver nos rostos deles, dizendo-lhe que faro coisas incrveis. - Ela sorriu de novo, lutando contra uma outra onda de dor. 
- H aquele aspecto rude que significa que faro qualquer coisa necessria para conseguirem o que querem, todavia, existe um lado gentil, uma bondade muito bsica. 
Do tipo que fazia Thomas dar um punhado de doces para uma criana pobre. Do tipo que faz o seu Daniel visitar uma velha mulher que no conhece. Mudei meu testamento.
Alarmada, Anna endireitou a coluna.
- Sra. Higgs...
- Oh, no se preocupe. - Ela fechou os olhos por um momento, desejando que seu corpo recuperasse alguma fora. - Posso ver no seu rosto que est preocupada, pensando 
que eu a coloquei no testamento. Thomas me deixou um p-de-meia e eu investi. O que est me dando uma vida confortvel. No tenho filhos ou netos.  tarde demais 
para arrependimentos. Preciso dar alguma coisa em retorno. Necessito ser lembrada. - Ela olhou para Anna novamente. - Conversei com Daniel sobre isso.
- Com Daniel? - Perturbada, Anna se inclinou para mais perto.
- Ele  muito esperto, exatamente como Thomas. Eu lhe falei o que queria fazer, e ele me disse como isso pode ser feito. Mandei meu advogado montar um esquema para 
oferecer bolsas de estudo. Daniel concordou em ser meu executor, de modo que possa cuidar dos detalhes.
Anna abriu a boca para afastar o assunto de morte, mas percebeu que estaria fazendo isso s por si mesma.
- Que tipo de bolsas de estudo?
- Para mulheres jovens que querem estudar medicina. - Satisfeita com o olhar perplexo no rosto de Anna, a sra. Higgs sorriu. - Eu sabia que voc gostaria disso. 
Considerei sobre o que eu podia fazer, ento pensei em voc e em todas as enfermeiras daqui, que so to gentis comigo.
-  uma coisa maravilhosa, sra. Higgs.
- Eu poderia ter morrido sozinha, sem ningum para se sentar e conversar comigo. Tive sorte. - Ela estendeu o brao e curvou os dedos ao redor da mo de Anna. Porque 
era difcil sentir, os apertou. Anna mal sentiu a presso. - Anna, no cometa o mesmo erro que eu, pensando que no precisa de ningum. Aceite o amor quando este 
 oferecido. Deixe o amor viver com voc. No tenha medo do labirinto.
- No - murmurou Anna. - No terei.
No havia mais dor agora, no havia praticamente nada. A sra. Higgs olhou para o contorno da luz em volta das sombras.
- Sabe o que eu faria se pudesse comear tudo de novo, Anna?
- O que faria?
- Eu teria tudo. -A luz estava fraca, mas ela conseguiu sorrir. -  tanta tolice pensar que voc tem de se contentar com pedaos. Thomas sabia que no era assim. 
- Exausta, ela fechou os olhos novamente. - Fique comigo mais um pouco.
-  claro que vou ficar.
Anna permaneceu sentada no quarto sombreado. Mantendo a mo frgil nas suas, ouviu o som da respirao da sra. Higgs. E esperou. Quando o som parou, lutou contra 
uma exploso de raiva, contra a negao. Cuidadosamente, levantou-se e pressionou a mo na testa da mulher mais velha.
- Eu no vou esquecer da senhora.
Calma, controlada, foi para o corredor procurar a sra. Kellerman. Atrapalhada com cinco novas admisses, a enfermeira deu-lhe um olhar breve.
- Estamos um pouco ocupadas agora, srta. Whitfield. Anna assumiu uma postura digna. Quando falou, a voz era tanto autoritria quanto paciente:
- Voc precisa chamar o mdico para a sra. Higgs. Instantaneamente alerta, a sra. Kellerman a olhou.
- Ela est com dor?
- No. - Anna cruzou os braos. - No mais.
A compreenso brilhou nos olhos da enfermeira. E tristeza, pensou Anna por um momento.
- Obrigada, srta. Whitfield. Enfermeira Bates, chame o dr. Liederman imediatamente. Quarto 521. - Sem esperar resposta, tambm desceu o corredor. Anna a seguiu at 
o quarto da sra. Higgs e, mais uma vez, esperou. Momentos depois, Kellerman olhou para trs.
- Srta. Whitfield, voc no precisa ficar aqui agora. Determinada, Anna manteve os braos cruzados e o olhar direto.
- A sra. Higgs no tinha ningum.
A compaixo aconteceu e, pela primeira vez, o respeito. Afastando-se da cama, Kellerman tocou-lhe o brao.
- Por favor, espere do lado de fora. Direi ao mdico que voc quer falar com ele.
- Obrigada. -Anna foi para o fundo do corredor em L, onde ficava a sala de espera e se sentou. Conforme os minutos passavam, sentiu-se mais calma. Aquilo era o que 
enfrentaria, lembrou a si mesma, dia aps dia, pelo resto de sua vida. Esta era a primeira vez que sentia o estmago revolver-se com a situao, mas no seria a 
ltima. A morte se tornaria uma parte ntima de sua vida, algo para ser combatido, algo para ser enfrentado. Comeando por agora, por aquele minuto, teria de aprender 
a se defender contra isso.
Com uma respirao profunda, fechou os olhos. Quando os reabriu, viu Daniel se aproximando.
Por um momento, sua mente ficou em branco. Ento viu as rosas na mo dele. Lgrimas encheram seus olhos e foram controladas. Quando se levantou, as pernas estavam 
firmes.
- Pensei que a encontraria aqui. - Tudo nele era vigoroso... o andar, o rosto, a voz. Ela pensou brevemente no desejo de se atirar nos braos fortes e chorar.
- Estou aqui todos os dias. - Aquilo no mudaria. Agora, mais do que nunca, Anna sabia que no poderia abandonar seu sonho.
- Levou mais tempo do que eu esperava para resolver as coisas em Nova York. - E ele tinha passado as noites impaciente, acordado e pensando nela. Daniel comeou 
a falar de novo no mesmo tom duro, mas alguma coisa nos olhos de Anna o deteve. - O que aconteceu? - Somente precisou ver o modo como ela olhou para as rosas para 
saber. - Droga. - Praguejando num sussurro, baixou a mo que segurava as flores. - Ela estava sozinha?
O fato de Daniel perguntar aquilo primeiro, pensar naquilo primeiro, a fez estender a mo para ele.
- No, eu estava com ela.
- Que bom, ento. - A mo de Anna estava gelada na dele. - Deixe-me lev-la para casa.
- No. - Se ele fosse to gentil, ela perderia a compostura. - Eu quero falar com o mdico.
Ele comeou a protestar, ento passou um brao ao redor dos ombros de Anna.
- Vou esperar com voc.
Em silncio, eles ficaram sentados juntos. O aroma das rosas preenchia os sentidos de Anna. Eram botes novos, frescos e ainda midos. Parte de um ciclo, lembrou 
a si mesma. No era possvel apreciar a vida, a menos que voc entendesse e aceitasse o ciclo.
Anna se levantou bem devagar quando o mdico se juntou a eles.
- Srta. Whitfield. A sra. Higgs me falou de voc tantas vezes.  estudante de medicina?
- Isso mesmo.
Ele assentiu, o julgamento reservado.
- Voc tem cincia de que ns removemos um tumor maligno h algumas semanas. Havia um outro. Se tivssemos operado novamente, ela morreria. Nossa nica escolha era 
deix-la o mais confortvel possvel.
- Eu entendo. - Anna entendia tambm que um dia teria de tomar tais decises. - A sra. Higgs no tinha famlia. Quero fazer os arranjos para o funeral.
A compostura de Anna surpreendeu o mdico, tanto quanto a declarao. Estudando-a, decidiu que se ela terminasse a faculdade de medicina, ele a quereria para fazer 
a residncia sob sua orientao.
- Tenho certeza de que isso pode ser facilmente arranjado. Pediremos que o advogado da sra. Higgs a contate.
- Obrigada. - Ela ofereceu-lhe a mo. Liederman achou-a fria, porm firme. Sim, gostaria de v-la treinar.
- Vamos embora - murmurou Daniel quando eles estavam sozinhos.
- No terminei o meu turno.
- E no vai terminar hoje. - Segurando-a pelo brao, ele a conduziu para o elevador. - Voc pode se permitir respirar. No discuta - acrescentou, antecipando-se 
a ela. - Vamos apenas dizer que voc est fazendo uma vontade minha. H uma coisa que quero lhe mostrar.
Ela podia ter discutido. E saber que tinha foras para tal acalmou-a. Iria com ele porque sabia que voltaria no dia seguinte e faria o que precisava ser feito.
- Vou pedir ao meu motorista que nos leve para minha casa - disse ele quando estavam fora do hospital. - Vamos no meu carro.
- Eu tenho o meu.
Daniel apenas arqueou uma sobrancelha e assentiu.
- Espere a. - Andando para o Rolls, ele dispensou Steven. - Vamos usar o seu carro. Est com vontade de dirigir?
- Sim, claro. - Ela andou para o pequeno conversvel branco.
- Muito bonito, Anna, sempre admirei seu gosto.
- Aonde vamos?
- Para o norte. Eu ensino o caminho.
Contente em dirigir, em sentir o vento e desconhecer o destino, ela foi para fora da cidade. Por algum tempo, Daniel a deixou com seus prprios pensamentos.
- Derramar lgrimas no faz de voc uma pessoa fraca.
- No. - Anna suspirou e observou o sol inclinar-se na estrada. - No posso chorar ainda. Conte-me sobre Nova York.
- Uma loucura de lugar. Gosto de l. - Ele sorriu e estendeu o brao ao longo do encosto do banco. - No  um local para morar, no para mim, mas a excitao pode 
entrar no sangue. Conhece a Editora Dunripple?
- Sim,  claro.
- Agora  Dunripple e MacGregor. - Ficara satisfeito com a negociao, ou, mais precisamente, com o resultado que conseguira.
- Prestigioso.
- Extremamente prestigioso - disse ele. - Eles precisavam de sangue novo e de dinheiro.
- Do que voc precisava?
- Diversificar. No gosto de concentrar meus interesses numa nica coisa.
Ela franziu o cenho, pensando.
- Como voc sabe o que comprar?
- Velhas companhias em baixa, novas companhias em alta. O primeiro me d algo para consertar, o segundo alguma coisa para - Daniel hesitou, incerto de que palavra 
empregar - explorar - murmurou finalmente.
- Mas voc no pode ter certeza de que todas as companhias que compra sero bem-sucedidas.
- Nem todas sero. Esse  o jogo.
- Parece um jogo cruel.
- Talvez.  a vida. - Ele a estudou. O rosto de Anna ainda estava um pouco plido, os olhos um pouco calmos demais. - Um mdico sabe que nem todos seus pacientes 
vo sobreviver. Isso no o impede de pegar um paciente novo.
Ele entendia. Ela devia ter esperado isso.
- No, no impede.
- Todos ns corremos riscos, Anna, se estamos realmente vivos.
Ela dirigiu em silncio, seguindo as instrues de Daniel. Pensamentos giravam em sua cabea, sentimentos corriam livremente em seu interior. Foi uma viagem longa 
e tranqila que deveria t-la acalmado. No momento em que estava dirigindo ao longo da costa, Anna estava tensa e nervosa. Avistando uma pequena loja, Daniel acenou 
com uma das mos.
- Pare aqui.
Concordando, ela entrou no estacionamento de cascalho ao lado da loja.
-  isso que voc quer me mostrar?
- No. Mas voc vai ficar com fome.
Anna levou a mo ao estmago antes de abrir a porta.
- Acho que j estou. - Pensando que no fariam mais do que comprar um pacote de biscoitos, ela o seguiu.
O local congestionado era uma loja com alimentos enlatados em prateleiras, miudezas acumuladas em gabinetes sem portas. Um piso recm-encerado brilhava. Um ventilador 
barulhento girando lentamente espantava o calor.
- Sr. MacGregor! - Com bvio prazer, uma mulher rechonchuda levantou-se de um banco atrs do balco.
- Ah, sra. Lowe. Bonita como sempre.
Ela possua um rosto grotesco e sabia disso. Mas aceitou o elogio com uma gargalhada alta.
- O que posso fazer por voc hoje? - Ela estudou Anna sem disfarar e mostrou um dente incisivo faltando.
- A moa e eu precisamos de coisas para um piquenique.
- Ele inclinou-se sobre o balco. - Diga-me que voc tem aquele rosbife maravilhoso que me deu da ltima vez.
- Nem um grama. - Ela piscou para Daniel. - Mas tenho um presunto que vai fazer voc virar os olhos e agradecer ao fabricante.
Cheio de charme, ele pegou-lhe a mo gorducha e a beijou.
- Vou virar os olhos e agradecer a voc, sra. Lowe.
- Farei um sanduche para a moa. E dois para voc.
- O olhar que ela lhe deu era tanto perspicaz quanto amigvel. - E colocarei uma limonada gelada na garrafa trmica... se voc comprar a garrafa.
- Feito.
Com uma gargalhada, ela foi para o cmodo dos fundos.
- Voc j esteve aqui antes - comentou Anna secamente.
- De vez em quando. Um bom lugarzinho. - Ele sabia que os Lowe dirigiam a loja e a mantinham estocada e limpa. - Penso que se eles adicionassem mais um cmodo, colocassem 
um balco e uma grelha, a sra. Lowe poderia ficar famosa com os seus sanduches.
Anna viu a expresso nos olhos dele e sorriu.
- Lowe e MacGregor.
Com uma risada, ele inclinou-se sobre o balco.
- No, s vezes  melhor ser um scio silencioso. 
Quando a sra. Lowe voltou, carregava uma cesta de vime enorme.
- Faa seu piquenique e traga a cesta de volta. - Ela piscou novamente. - Mas a garrafa trmica  sua.
Daniel pegou a carteira e tirou algumas notas. O bastante para fazer Anna arquear a sobrancelha.
- D lembranas a seu marido, sra. Lowe.
As notas desapareceram dentro de um bolso bastante til.
- Voc e a moa divirtam-se.
- Ns nos divertiremos. - Pegando a cesta, Daniel saiu da loja. - Voc confia em mim para dirigir?
Anna j estava com as chaves na mo. No tinha permitido ningum ao volante de seu carro. S ela o dirigira. Nem mesmo com as indiretas de seu pai e mesmo Myra tendo 
implorado ela permitira. Hesitando por um momento, entregou-lhe as chaves.
Momentos depois, estavam na estrada. Ela nunca vira uma estrada to estreita, to cheia de curvas. A vista na lateral tirou-lhe o flego com seus penhascos escarpados. 
Havia cor em meio ao cinza infinito: toques de vermelho e de verde. Em alguns lugares, parecia que o rochedo tinha sido talhado com machado, em outros, cortado com 
uma picareta. Ondas estouravam contra as pedras, ento voltavam somente para estourar de novo. Havia violncia ali,
pensou ela. Uma guerra infinita que era tambm um ciclo. 
Com o aroma do mar ao seu redor, Anna recostou-se.
Eles subiram quilmetro aps quilmetro. rvores que salpicavam as laterais da estrada modificavam-se aos poucos, inclinando-se pelo vento constante. Anna perguntou-se 
o que Daniel faria se um outro carro descesse a estrada na direo deles. Mas isso no a preocupava.
Observou uma ave voar sobre a superfcie da gua, e depois subir em direo ao sol.
Quando a estrada nivelou-se novamente, ela ficou quase desapontada. Ento viu uma extenso de terra  frente. Coberta de vegetao, rochosa, isolada, espalhava-se 
at a extremidade do penhasco. Alguma coisa a atingiu, cortante como uma flecha, doce como um beijo. Reconhecimento.
Daniel parou o carro, absorvendo tudo. Como sempre acontecia, aquela rea o envolvia. Podia sentir o mar, o vento. Estava em casa.
Sem dizer nada, Anna desceu do carro. Estava abalada pela turbulncia, mas tambm podia sentir a paz. Estivesse no ar ou na terra, sabia que aquele senso de constante 
movimento e quietude interior sempre permaneceria.
- Esta  sua terra - murmurou ela quando Daniel chegou a seu lado.
-Sim.
O vento jogou os cabelos de Anna no rosto, mas ela os afastou, impaciente. Queria ver com clareza.
-  maravilhosa.
Ela falou aquilo com tanta simplicidade que Daniel ficou sem palavras. At aquele momento, no tinha se dado conta do quo desesperadamente queria que Anna aceitasse 
sua terra, que a compreendesse. Mas no soubera o quanto era importante que ela amasse o lugar como ele amara desde o primeiro momento que o vira. O sol iluminou-lhe 
as feies quando levou a mo de Anna a seus lbios.
- A casa ser ali. - Ele apontou, e comeou a andar com ela. - Perto do penhasco, ento, voc vai ouvir o mar, ser quase parte do oceano. Ser construda de pedras, 
muitas delas, de modo que se mantenha firme e imponente. Algumas das janelas chegaro perto do teto, e a porta da frente ser to larga quanto trs homens. Aqui 
- ele parou, avaliando a posio com os olhos - haver uma torre.
- Torres? - Quase hipnotizada, Anna o fitou. - Voc d a idia de um castelo.
- Isso mesmo. Um castelo. O braso dos MacGregors ficar sobre a porta.
Ela tentou imaginar aquilo e meneou a cabea. Achava tudo excitante e incompreensvel ao mesmo tempo.
- Por que tanta coisa?
- Para que dure. Meus tataranetos conhecero a casa. - Deixando-a, ele voltou para o carro a fim de apanhar a cesta.
Incapaz de julgar o humor de Daniel, Anna o ajudou a estender o cobertor que a sra. Lowe providenciara. Alm dos sanduches, havia uma salada de batatas e duas fatias 
de bolo. Com a saia at a altura dos joelhos, sentou-se de pernas cruzadas e comeu enquanto observava as nuvens.
Tantas coisas estavam acontecendo to rapidamente. Contudo, sua vida parecia suspensa em algum tipo de incerteza. Ainda no sabia o que encontraria se virasse para 
a direita, ou se virasse para a esquerda. O caminho que um dia lhe parecera to claro, agora era nebuloso, com estranhas curvas. No podia ver atravs delas. Porque 
Daniel estava silencioso, Anna manteve-se calada, ciente de que ele no se sentia muito  vontade.
- Na Esccia - comeou ele como se estivesse falando consigo mesmo -, morvamos num pequeno chal, no maior do que a garagem de sua casa. Eu tinha cinco anos, talvez 
seis, quando minha me adoeceu. Depois que ela deu  luz a meu irmo, nunca mais ficou realmente bem. Minha av ia para nossa casa cozinhar todos os dias e ajudar 
com o beb. Eu me sentava com minha me, conversava com ela. E, na poca, no percebia o quanto mame era jovem.
Anna estava sentada com as mos no colo e os olhos intensos. Algumas semanas antes, teria ouvido educadamente se ele falasse sobre o passado. Agora, parecia que 
metade do seu mundo dependia do. que Daniel ia dizer.
- Continue, por favor.
No era fcil para Daniel, nem tinha planejado falar sobre isso. Mas agora que comeara, descobriu que precisava contar-lhe tudo.
- Meu pai chegava em casa das minas com a pele suja, os olhos vermelhos. Deus, como devia ficar exausto, mas sentava-se com minha me, brincava com o beb, me ouvia. 
Ela continuou lutando, por quase cinco anos e, quando eu tinha dez, minha me faleceu. Estava sofrendo o tempo todo, mas nunca reclamava.
Anna pensou na sra. Higgs. Desta vez, deixou as lgrimas carem. Daniel no disse nada por um momento, mas ouviu o barulho do mar.
- Minha av foi morar conosco. Uma mulher dura e forte. Ela me fez andar na linha... estudar. Quando completei 12 anos, fui trabalhar nas minas, mas sabia ler e 
escrever, e trabalhar com os dedos melhor do que outros homens adultos. J era maior do que alguns deles. - Daniel riu e flexionou a mo, fechando o punho. Mais 
de uma vez, tinha sido grato quilo.
- As minas eram o inferno. Poeira nos pulmes, nos olhos. Cada vez que a terra tremia, voc esperava morrer e desejava que fosse rpido. Eu estava com aproximadamente 
15 anos quando McBride, o dono da mina, me notou. Descobriu que eu era inteligente com nmeros, ento costumava me chamar ao escritrio para ajud-lo com as contas. 
Nesse sentido, era um homem justo e, portanto, eu recebia horas-extras. Em um ano, eu estava fora das minas e fazendo a contabilidade dele. Minhas mos estavam limpas. 
Assim que comecei a trabalhar, meu pai me obrigava a pr metade do meu salrio em um pote de lata. Ns podamos usar o dinheiro no dia-a-dia, mas ele no o gastava. 
Mesmo depois que passei a ganhar melhor no escritrio, papai me fazia colocar metade do dinheiro no pote. Era a mesma coisa com meu irmo, Alan.
- Ele queria que vocs sassem - murmurou Anna.
- Sim. Meu pai sonhava que eu e Alan pudssemos sair das minas, afastando-nos de tudo com o que ele tivera de lidar. - Daniel virou-se para ela, a expresso zangada. 
- Eu tinha 20 anos quando a mina principal desmoronou. Cavamos por trs dias e trs noites. Vinte homens morreram, entre eles meu pai e meu irmo.
- Oh Daniel. - Anna aproximou-se, descansando a cabea contra o ombro dele. Era mais do que sofrimento. Podia sentir a fria, o ressentimento, a culpa. - Sinto muito.
- Quando ns os enterramos, jurei que aquilo no era o fim. Era o comeo. Eu ganharia o bastante para abandonar aquele trabalho. Mas no momento em que consegui, 
era tarde demais para levar a minha av. Ela teve uma vida longa e s me pediu uma coisa antes de morrer. Que eu me certificasse de continuar a famlia, e nunca 
me esquecesse de onde viemos. Estou mantendo essa promessa, Anna. - Ele a virou para fitar-lhe os olhos. - Por ela, por mim, com cada pedra que construir essa casa.
Anna o entendia agora, talvez at demais para seu prprio bem. Compreendia que l, no penhasco exposto ao vento, no meio da terra rida que Daniel tinha escolhido, 
ela finalmente, de maneira irreversvel, se apaixonara por ele. Todavia, com a compreenso, vieram ainda mais dvidas.
Levantando-se, Anna foi em direo ao pedao de terra onde ele visualizava sua casa. Daniel a construiria, ela sabia. E seria magnfica.
- Eles teriam orgulho de voc.
- Voltarei um dia para ver tudo aquilo de novo, para recordar de tudo. Quero que voc esteja ao meu lado.
Ela virou-se e, quando o fez, imaginou se estivera esperando tomar aquela atitude por toda sua vida. Talvez fosse o primeiro passo dentro do labirinto.
- Temo nunca ser capaz de lhe dar tudo o que quer, Daniel. Mas temo ainda mais a possibilidade de tentar.
Ele se levantou e se aproximou. Ainda havia muito espao entre os dois quando Daniel parou.
- Voc me disse que precisava de tempo. Pedi que tomasse uma deciso. Agora, estou lhe perguntando o que voc decidiu.


Sete

Ela queria dar tudo o que ele pedisse, dar-lhe coisas com que Daniel nunca nem sonhara. Queria absorver tudo que pudesse e manter para si. Naquele momento, entendeu 
o que apenas um passo  frente poderia significar para ambos. Imaginou se ele sabia disso. Um passo adiante mudaria a vida deles de maneira irrevogvel, mesmo que 
um passo atrs pudesse, de alguma maneira, ser dado mais tarde. Um passo e no haveria mudana no que fosse dito, no que fosse feito ou no que fosse dado. Anna acreditava 
em destino, destino encontrado com olhos abertos e mente clara. Embora o bom senso lutasse para permanecer no controle, seu corao, de forma vagarosa e intencional, 
assumiu o comando. O que era o amor? Naquele momento, entendia apenas que era uma fora maior e mais forte do que a lgica com a qual sempre vivera. O amor havia 
comeado guerras, derrubado imprios, enlouquecido homens e transformado as mulheres em tolas. Ela poderia racionalizar por horas, mas nunca seria capaz de diminuir 
o poder daquela fora excepcional que abrangia tudo.
Eles estavam em p sobre os penhascos, com o vento vibrando contra as pedras, sussurrando atravs do gramado alto, batendo contra a terra que ele escolhera para 
realizar um sonho e uma promessa. Se Daniel fosse seu destino, ela o abraaria.
Ele parecia mais feroz do que nunca, quase assustador, com os olhos queimando nos seus, e o sol batendo-lhe nas costas. Zeus, Thor... Daniel podia ter sido qualquer 
um dos dois. Mas era de carne e osso, um homem que entendia o destino e moveria montanhas para conseguir a pessoa que tinha escolhido. E a escolhera.
Anna demorou-se, determinada a tomar a deciso com a cabea clara. Mas as emoes em seu interior no eram calmas. Como podia olh-lo, ler o desejo nos olhos azuis 
e permanecer calma? Daniel falava de famlia, de promessas, de um futuro que ela no estava certa se podia compartilhar a seu lado. Mas havia algo que podia compartilhar 
agora, alguma coisa que podia dar-lhe apenas uma vez. Deixando-se guiar pelo corao, Anna deu um passo  frente e para os braos dele.
Eles se uniram com urgncia, de modo tempestuoso, forte. A boca de Anna encontrou a dele com todo o desejo catico que vinha contendo. Sentiu o poder surgir, o calor 
espalhar-se rapidamente, saindo de seu controle. Havia apenas o aqui e o agora.
Mos grandes estavam em seus cabelos, os dedos entrelaando neles com tanto desespero, que as fivelas que os prendiam caram no solo. A boca de Daniel era impaciente, 
trilhando-lhe o rosto, encontrando seus lbios, ento continuando a mover-se, como se fosse vital provar tudo de uma vez. Ela ouviu o seu nome sussurrado de maneira 
vibrante, ento murmurado contra sua boca. Mesmo enquanto pressionava-se contra ele, Anna sentia a entrega de seu prprio corpo, a incrvel submisso que s uma 
mulher podia experimentar. Sua mente foi transportada para o futuro com o prazer de descobrir a magia da submisso quando misturada com a fora do querer. Ento, 
os pensamentos desapareceram, restando somente um. Estava onde queria estar.
Juntos, eles se abaixaram para o gramado, abraados to fortemente que nem mesmo o vento podia passar entre os dois. Como amantes separados h anos, se exploraram 
livremente, sem hesitao. Ansiosa para sentir o prazer de pele contra pele, Anna tirou-lhe a camisa. Msculos que ele desenvolvera ainda quando garoto envolviam-lhe 
os braos, ondulavam-lhe as costas. Excitada pela fora de Daniel, ela deu liberdade para que suas mos brincassem, e descobriu a alegria deliciosa de ter um homem... 
seu homem... gemendo com os seus toques.
Ele a queria... ali, agora, exclusivamente. Anna podia sentir isso com cada fibra do seu ser. At aquele momento, no tinha se dado conta de como era importante 
estar segura do que queria. Qualquer outra coisa que ele quisesse dela ou quaisquer planos que tivesse feito escrupulosamente foram esquecidos por uma fora predominante. 
Desejo. O desejo era puro, desesperado, e era de ambos.
Daniel queria ser cuidadoso, ser gentil, mas ela o estava enlouquecendo, mais do que qualquer coisa que ele j havia experimentado. Fantasias, sonhos eram tolamente 
fracos comparados com a realidade. Anna era muito mais do que um objetivo para ser vencido ou uma mulher para ser conquistada. As mos eram delgadas, fortes e curiosas, 
a boca quente e insistente. O desejo avassalador que o percorria concentrou-se na base do pescoo, de modo que o som do desejo ressoava atravs do crebro, deixando-o 
surdo para o estouro das ondas abaixo. Pde sentir o cheiro da grama selvagem quando enterrou os lbios no pescoo de Anna, mas o aroma feminino, sutil, doce, era 
mais penetrante. Ela era to pequena, to adoravelmente suave, que Daniel lutou para manter as mos calmas enquanto a despia, mas Anna arqueava-se com cada toque, 
devassamente exigindo mais.
Ele no podia resistir a ela, assim como no podia mais resistir  presso que se formava em seu interior. Enlouquecido de paixo, descartou o restante das roupas 
de Anna e entregou-se ao desejo. Apele dela era alva sob o sol quente de vero, o corpo to elegante e atraente quanto a mente. Nenhuma outra mulher, nenhum sonho 
jamais o excitara daquela maneira. Com um som que saiu do fundo de sua garganta, encontrou-lhe a respirao de puro prazer.
Havia mais? Anna pensou que isso fosse impossvel, mas cada lugar que os lbios dele tocavam, vibrava com um deleite indescritvel. Deveria saber que um homem e 
uma mulher poderiam compartilhar algo to mgico e ardente debaixo de um sol brilhante? Deveria saber que ela, sempre to autodisciplinada, to racional, se entregaria 
a uma paixo num campo gramado sobre o topo de um penhasco? Tudo o que entendia era que, no importava quando, no importava onde, mas era e sempre seria Daniel.
Suas emoes pareciam percorrer um caminho alm da razo. Queria saborear cada nova experincia, mas antes que pudesse absorver uma, outra a envolvia, estendendo-se 
em camadas de sensaes impossveis de separar. Com uma risada sem flego, percebeu que no era necessrio entender cada uma, mas simplesmente senti-las. No havia 
medo em seu interior quando o desejo comeou a aumentar, mas uma louca antecipao.
O sangue pulsava em suas veias, girava em sua cabea, at que pensou que explodiria. O corpo queimava com o mesmo fogo que o dele, enquanto pulsavam no mesmo ritmo. 
Mas ela era inocente. Mesmo querendo tom-la com fria e velocidade, Daniel sabia que o controle era vital. Os braos delicados o apertavam, os quadris se arqueavam 
numa oferta desinibida. E o medo de machucar alguma coisa to preciosa o assolou. Esforou-se para acalmar a respirao.
- Anna...
- Eu quero voc. - O murmrio era como um trovo nos ouvidos dele. - Preciso de voc, Daniel. - Ao ouvir isso, uma dor doce o percorreu. Ao dizer isso, ela se sentiu 
gloriosa.
- No vou machucar voc. - Ele ergueu a cabea para ver-lhe os lbios curvados num sorriso, os olhos nublados.
- No, voc no vai me machucar.
Daniel reuniu toda sua fora de vontade e a penetrou. Ela estava to quente, to mida, que sua cabea quase explodiu com uma nova onda de emoo. Entregara-se  
paixo antes. Mas nunca, jamais dessa forma.
Anna o sentiu penetrar em seu interior, preenchendo-a. Sua inocncia desapareceu num instante com um prazer to imenso que toda a dor foi suavizada. Poder. Um poder 
que a percorria como o vento, como um trovo, obscurecendo aquela primeira onda de mistrio. Mergulhada no poder, abraou-o mais apertado. Ouviu Daniel murmurar 
seu nome antes que a boca dele encontrasse a sua. Eles abandonaram o controle e se possuram com loucura.
Daniel sabia sobre o gato que engolira o canrio. Enquanto estava deitado na grama selvagem com Anna ao seu lado, sentia-se como um gato que acabara de se saciar 
com incrveis guloseimas. O contentamento que, de alguma maneira, sempre tinha escapado de seu alcance, o dominou com um suspiro sonolento.
Havia escolhido uma mulher inteligente e maravilhosa para se casar. Era uma escolha lgica para um homem que pretendia construir um imprio que durasse por geraes. 
No era muita sorte ter se apaixonado e descoberto que ela era tambm carinhosa, doce e ardente? Sua futura esposa, a me de seus filhos que ainda estavam por vir, 
encaixava-se nele como uma luva. Decidiu que era to bom ter sorte quanto ser astuto.
Anna estava calma do seu lado, mas ele sabia, pela forma que ela respirava, pelo jeito contente que a mo delicada descansava na sua, que estava perdida em pensamentos, 
no em arrependimentos. A cabea de Anna estava aninhada na curva de seu ombro com tanta naturalidade que Daniel podia ter jurado que eles tinham ficado deitados 
daquela maneira antes, a grama macia sob suas costas, o cu azul e claro acima. Nunca tivera muito tempo para isso quando garoto. Com Anna, poderia fabricar o tempo, 
e no precisaria procurar por sonhos.
Poderia ficar deitado ali por horas, com o sol e o sopro do vento. Tinha sua mulher, sua terra, e isso era apenas o comeo. Mas sabia,  claro, que eles teriam de 
voltar para a cidade em breve. O que queria com Anna, e de Anna, no podia ser realizado num campo vazio. Mas manteve o brao ao redor dela, enquanto diversos planos 
se formavam e giravam em sua cabea.
- H mais do que espao suficiente para ns na minha casa - murmurou ele, meio que para si mesmo. Com os olhos quase fechados, e ainda com a sensao de paz aps 
o ato de amor, pde visualiz-la l. Ela acrescentaria os detalhes que ele freqentemente esquecia... vasos de flores, msica. -  claro, talvez voc queira mudar 
algumas coisas. Enfeitar outras.
Anna observou o sol brincando atravs das folhas. Tinha acabado de dar um passo  frente. J era hora de recuar um passo.
- Sua casa  tima do jeito que , Daniel.
- Sim. Bem,  apenas um lar temporrio. - Ele entrelaou os dedos nos cabelos dela enquanto olhava para o ponto onde construiria seu sonho. O sonho deles agora. 
O sonho era to mais doce agora que tinha com quem compartilhar. - Quando esta casa estiver pronta, ns venderemos a de Boston. Ou talvez possamos mant-la para 
propsito de negcios. Vou cortar minhas viagens assim que tiver uma esposa.
Acima, as nuvens se moviam vagarosamente, muito altas para serem persuadidas pelo vento que agitava a grama.
- Viajar  importante para seus negcios.
- Por enquanto. - Ela sentiu o ombro largo movimentar-se sob sua cabea num dar de ombros descuidado. - No vai demorar muito para que eles venham at mim. E viro 
aqui. No pretendo me casar e passar o tempo longe de minha esposa.
A mo de Anna descansou levemente sobre o peito dele. Imaginou se Daniel sabia com quanta presuno usava a frase minha esposa. Um homem poderia usar o mesmo tom 
para descrever seu novo carro brilhante.
- Eu no vou me casar com voc, Daniel.
- Ainda terei de voar para Nova York de vez em quando, mas voc pode me acompanhar.
- Eu disse que no vou me casar com voc.
Com uma risada, Daniel a puxou, at que estivesse com metade do corpo sobre ele. A pele estava quente do sol e adorvel.
- Como assim, no vai se casar comigo?  claro que vai.
- No. - Anna tocou-lhe o rosto. O toque foi suave como os olhos dela. - No vou.
- Como pode dizer isso agora? - Daniel a segurou pelos ombros. Pnico foi sua primeira reao, quando reconheceu o olhar calmo e paciente. Parte de seu sucesso era 
a habilidade de transformar pnico em raiva, e raiva em determinao. - No  hora de jogos.
- No, no . - Calma, Anna se movimentou e comeou a se vestir.
Dividido entre divertimento e fria, ele agarrou-lhe os pulsos antes que ela pudesse vestir a blusa.
- Acabamos de fazer amor. Voc veio para mim.
- Fui para voc espontaneamente - retornou ela. - Precisvamos um do outro.
- E vamos continuar precisando um do outro. E por isso que voc vai se casar comigo.
Ela tentou respirar vagarosamente.
- Eu no posso.
- Mas por que no?
Os msculos do estmago de Anna estavam comeando a tremer. Sua pele estava fria sob o sol brilhante de vero. Queria que ele a liberasse, mas sabia que Daniel ignoraria 
qualquer resistncia. Subitamente, queria correr, correr e fugir, mais rpido que nunca. Em vez disso, permaneceu imvel.
- Quer que eu me case com voc, comece uma famlia, e v para todos os lugares que seus negcios ou seus caprichos exijam. - Ela teve de engolir em seco, porque 
sabia que falava a verdade. - Para fazer isso, eu teria de desistir de uma coisa que sempre quis desde que posso me lembrar. No vou fazer isso, Daniel, nem mesmo 
por voc.
- Isso  bobagem. - Para provar, ele a sacudiu de leve. - Se esse maldito diploma  to importante, v em frente e consiga-o. Voc pode continuar estudando enquanto 
estiver casada comigo.
- No. -Afastando-se, Anna ocupou as mos com suas roupas. No seria intimidada, e no seria seduzida, embora ele parecesse especialista em ambas as coisas. - Se 
eu voltasse para a escola como a sra. Daniel MacGregor, eu nunca terminaria. Voc me impediria, mesmo que no pretendesse.
- Que coisa, isso  ridculo. - Ele levantou-se em sua gloriosa nudez, com o sol batendo em suas costas. Por um momento, Anna teve vontade de abrir os braos e convid-lo 
de novo para si, de concordar com qualquer coisa que ele dissesse. Determinada, no fez isso.
-No  ridculo. E vou conseguir o meu diploma Daniel. Necessito fazer isso.
- Voc est preferindo se dedicar  sua profisso de mdica do que a mim. - Magoado, com raiva, ele no se importava se suas palavras fossem injustas. Via a nica 
coisa que tornaria sua vida completa, real, escapando de seus dedos.
- Eu quero as duas coisas. - Ela engoliu em seco. Como podia julgar a reao de Daniel quando ainda no tinha certeza de sua prpria? - No vou me casar com voc 
- repetiu. - Mas vou morar com voc.
Daniel estreitou os olhos.
- Voc, o qu?
- Vou morar na sua casa em Boston at setembro. Depois disso, podemos alugar um apartamento fora do campus. E ento...
- E ento, o qu? -As palavras dele revelavam desespero.
Anna ergueu as mos, e as deixou cair em seguida.
- Ento, eu no sei.
Ela jogou a cabea para trs com orgulho, e o vento bagunou-lhe os cabelos. Mas o rosto estava muito plido, os olhos incertos. Daniel a amava ao ponto da loucura, 
e sua raiva era quase to grande quanto o amor que sentia.
- Que coisa, Anna, quero voc como esposa, no como amante.
As dvidas desapareceram dos olhos dela, sendo substitudas por uma fria equivalente  de Daniel. No mais plida, o semblante era de pura indignao.
- No estou me oferecendo para ser sua amante. - Virando-se, Anna comeou a andar para o carro. Daniel a segurou pelo brao e virou-a com tanta rapidez que ela quase 
tropeou.
- Que diabos est me oferecendo, ento?
- Morar com voc. - Anna no gritava com freqncia, mas quando o fazia, dava tudo de si. Se ele no estivesse to zangado, haveria espao para respeito. - No ser 
mantida por voc. No quero seu dinheiro ou sua grande casa ou sua dzia de rosas por dia.  voc que eu quero. S Deus sabe por qu.
- Ento, case-se comigo. - Ainda nu, ainda raivoso, ele a puxou para si.
- Voc acha que pode ter tudo que quer apenas gritando, sendo mais forte? - Ela o empurrou e sustentou-se, pequena, delgada e linda. - Vou lhe dar isso e nada mais.
Daniel passou ambas as mos pelos cabelos. Como um homem lidava com uma mulher assim?
- Se voc no pensa em sua reputao, eu tenho de pensar.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- Voc no tem de fazer nada, exceto pensar em sua prpria reputao. - Com uma postura regia, que ela podia assumir to facilmente, deixou os olhos o percorrerem. 
- Voc no parece muito preocupado com isso agora.
Num movimento furioso, ele vestiu a cala. Um outro homem teria parecido tolo. Daniel parecia magnfico.
- Poucos minutos atrs, eu seduzi voc - comeou ele.
- No se iluda. - Fria e confiante, Anna pegou a camisa dele. -Alguns minutos atrs, ns fizemos amor. No teve nada a ver com seduo.
Ele pegou a camisa da mo dela e vestiu-a.
- Voc  mais durona do que parece, Anna Whitfield.
- Tem razo. - Satisfeita consigo mesma, ela comeou a guardar as coisas do piquenique. - Voc me pediu para aceit-lo como . Agora estou lhe pedindo a mesma coisa. 
Se voc me quer, Daniel, tem de ser nos meus termos. Pense sobre isso. - Ela o deixou meio vestido e foi para o carro.
Eles mal falaram durante a viagem de volta. Anna no estava mais zangada, mas sentia-se vazia. Tanta coisa acontecera num espao de tempo to curto, e nada daquilo 
estivera em seus planos cuidadosamente elaborados. Precisava de tempo para refletir, para analisar e recobrar as foras. Daniel estava nervoso. No precisava falar 
para que Anna percebesse seu mau humor.
No me importo com o mau humor, pensou. Ele que ficasse zangado. Era algo que fazia muito bem. Nem todo mundo ficava magnfico num estado raivoso.
Amante. O prprio temperamento de Anna comeou a se alterar, mas ela se acalmou. No seria amante de ningum, disse a si mesma, recostando-se e cruzando os braos. 
E esposa de nenhum homem enquanto no estivesse pronta. Iria, embora a idia ainda fizesse seu corao disparar, ser a mulher de um nico homem. De seu prprio jeito 
antiquado, estava to determinada quanto Daniel a fazer as coisas de acordo com as suas regras.
Morar com ele. Daniel segurou o volante com fora quando fez uma curva com maior velocidade que um homem racional ousaria. Estava lhe oferecendo metade de tudo que 
possua, metade de tudo que era. Mais importante, estava lhe oferecendo seu nome. E Anna o estava jogando de volta em sua cara.
Ela achava que ele lhe teria tirado a virgindade se no acreditasse que estavam verdadeiramente comprometidos um com o outro? Que tipo de mulher recusaria uma proposta 
honesta e optaria por fugir como uma criana renegada, negando o que era apropriado? Ele queria uma esposa, uma famlia! Anna queria um pedao de papel que lhe permitisse 
enfiar agulhas em pessoas.
Ele deveria ter aceitado o conselho dela desde o comeo. Anna Whitfield era a ltima mulher em Boston que seria uma esposa adequada para Daniel. Ento, a esqueceria. 
Ele a levaria em casa, diria um frio adeus e partiria. Mas ainda podia sentir o gosto dela, ainda sentia o modo que a pele sedosa deslizava sob seus dedos, ainda 
sentia o aroma dos cabelos que flutuavam ao redor do corpo de ambos.
- No vou aceitar isso.
Com uma freada violenta, Daniel parou diante da casa dela. A poucos metros de distncia, a me de Anna cortava rosas. Com o barulho, olhou para cima e, nervosamente, 
recolheu o que tinha podado. O fato de que uma rpida olhada informou-a de que nenhum de seus vizinhos estava por perto a aliviou apenas um pouco quando Daniel desligou 
o motor do conversvel.
- Este - disse Anna com toda calma do mundo -  um direito seu.
- Agora, oua-me. - Virando-se um pouco, Daniel segurou-lhe os ombros. No queria discutir, no Queria brigar. Desde o momento em que aqueles pacientes olhos castanhos 
haviam encontrado os seus, quisera pux-la para seus braos e am-la at que ambos estivessem muito exaustos para falar.
Anna arqueou uma sobrancelha.
- Estou ouvindo.
Ele pensou no que precisava ser dito.
- O que acontece entre ns no acontece com todo mundo. Sei disso.
Ela sorriu um pouco.
- Tenho de acreditar na sua palavra quanto a isso. A frustrao veio  tona.
- Isso  parte do problema - murmurou ele, ordenando a si mesmo que ficasse to calmo quanto ela. - Quero me casar com voc, Anna. - Entre as roseiras, a sra. Whitfield 
deixou cair a tesoura com um som oco. - Eu quis me casar com voc desde o primeiro minuto que a vi.
- Isso  parte do problema. - Porque a maior parte do corao de Anna j era dele, ela tocou-lhe o rosto com ambas as mos. - Voc queria o que era apropriado e 
decidiu que era eu. Queria que eu preenchesse uma lacuna na sua vida. Talvez eu pudesse fazer isso, mas no farei.
-  mais do que isso agora... muito mais. - Quando Daniel a puxou para mais perto, Anna viu a chama de desejo nos olhos dele, ento, provou-o nos lbios sensuais. 
Sem hesitao, sem artifcios, cedeu ao prprio desejo e o beijou. Sim, era mais do que isso agora... talvez mais do que qualquer um deles podia lidar. Quando estavam 
unidos daquela forma, tudo o mais se tornava insignificante. E era isso que a assustava. Era isso o que a regozijava.
Com desespero, ele a afastou de si.
- Voc entende o que temos juntos? O que podemos ter juntos?
- Sim. - A voz de Anna no era to firme agora, mas a determinao permanecia intacta. - E quero isso. Quero voc... mas no casamento.
- Quero que voc tenha meu nome.
- Eu quero ter seu corao primeiro.
- Voc no est raciocinando com clareza. -Nem ele estava. Cautelosamente, tirou as mos dos ombros de Anna. - Voc precisa de um pouco de tempo.
- No, no preciso. - Antes que Daniel pudesse det-la, ela desceu do carro. -Mas  bvio que voc necessita. Adeus, Daniel.
A sra. Whitfield observou a filha andar em direo  casa. Momentos depois, viu Daniel partir de maneira afobada. Ento, lembrando-se do carro que estava dirigindo, 
ele deu marcha r no veculo e parou do mesmo modo afobado com que partira. Batendo a porta, lanou um olhar furioso para a casa e saiu caminhando na direo oposta. 
Com uma das mos sobre o corao, Anna foi para a porta da frente.
- Anna! - Movimentando as mos, a sra. Whitfield chamou a filha na base da escada. - O que est acontecendo?
Anna queria ficar sozinha. Queria ir para o seu quarto, fechar a porta e deitar-se. Havia tanta coisa a absorver, tanto a saborear. Precisava chorar e nem mesmo 
sabia bem por qu. Paciente, esperou.
- Acontecendo?
- Eu estava podando as roseiras. - Confusa, k sra. Whitfield balanou a cesta cheia apenas pela metade. - E ouvi... Bem, no pude deixar de ouvir... - Ela gaguejou 
nervosa pelos olhos castanhos calmos de Anna, os quais subitamente pareciam maduros demais. Para dar tempo a si mesma, cuidadosamente tirou as luvas de borracha 
e colocou-as sobre uma mesa.
- Entendo que voc no estava ouvindo s escondidas, me.
-  claro que no! Eu no sonharia... - Ela percebeu que estava fugindo da questo e endireitou os ombros. - Anna, voc e o sr. MacGregor... Vocs... - Interrompendo 
a frase, mudou a cesta de mo.
- Sim. - Com um sorriso cheio de segredos, Anna aproximou-se da me. - Ns fizemos amor esta tarde.
- Oh. - Era uma resposta fraca, mas o nico som que ela conseguiu murmurar.
- Me - Anna pegou-lhe a cesta da mo -, no sou mais uma criana.
- Obviamente. - Respirando fundo, a sra. Whitfield enfrentou seu dever. - No entanto, se o sr. MacGregor a seduziu, ento...
- Ele no me seduziu.
Confusa, a me de Anna pde apenas piscar com a interrupo.
- Mas voc falou...
- Eu disse que ns fizemos amor. Ele no precisou me seduzir. - Anna segurou o brao da me. - Talvez seja melhor nos sentarmos.
- Sim. - Tremendo, ela deixou-se conduzir. - Talvez devssemos.
Na sala de estar, Anna se sentou ao lado da me no sof. Por onde deveria comear? Nem nos seus sonhos mais loucos tinha se imaginado sentada na sala com a me, 
discutindo romance, amor e sexo. Respirando profundamente, comeou:
- Me, eu nunca estive com um homem antes. Queria estar com Daniel. No foi algo que fiz impetuosamente, mas alguma coisa sobre a qual refleti muito.
- Eu sempre disse que voc pensava demais - murmurou a sra. Whitfield automaticamente.
- Sinto muito. - Acostumada com as crticas dos pais, Anna ps as mos sobre o colo. - Sei que no  algo que quer ouvir, mas no posso mentir para voc.
Amor, senso de posse e confuso se misturaram. O amor venceu.
- Oh, Anna. - Em um gesto raro, a sra. Whitfield puxou a filha para mais perto. - Voc est bem?
-  claro que estou. - Emocionada, Anna descansou a cabea no ombro da me. - Eu me sinto maravilhosa.  como... no sei... ser libertada.
- Sim. - Ela reprimiu as lgrimas. -  assim que deve ser. Sei que nunca conversamos sobre essas coisas. Deveramos, mas, ento, voc foi para aquela universidade 
e aqueles livros... - Lembrou-se do choque quando pegara um dos livros sobre sexo para dar uma olhada casual. - Suponho que tudo isso me fez sentir inadequada.
- No  nada como nos livros. - Anna descobriu que podia apreciar o assunto, afinal de contas.
- No, no . - A sra. Whitfield mudou de posio para segurar ambas as mos da filha. - Livros podem ser limitados. Anna, eu no quero que voc se machuque.
- Daniel no vai me machucar. - Ela ainda estava emocionada, lembrando-se de como ele se esforara para ser gentil. - Na verdade, ele se preocupa demais em no me 
machucar. E quer se casar comigo.
A sra. Whitfield deu um suspiro de alvio.
- Achei que o ouvi dizer isso, mas vocs soavam como se estivessem discutindo.
- No discutindo, discordando. No vou me casar com ele.
- Anna. - Quando sua me afastou-se, o semblante era srio. - Que tipo de bobagem  essa? Admito que nem sempre a entendo, mas conheo-a bem o bastante para saber 
que nada teria acontecido se voc no gostasse muito dele.
- Eu gosto. - Perdendo um pouco de sua compostura, Anna pressionou os dedos nos olhos. - Talvez at demais.  assustador. Ele quer uma esposa, me, quase do jeito 
que um homem quer um sapato que lhe sirva bem.
- Esse  o jeito dos homens. - Com firmeza, a sra. Whitfield recostou-se. - Alguns homens so poetas, alguns so sonhadores, mas a maioria  assim, so apenas homens. 
Sei que as garotas pensam que deveria haver palavras bonitas e msicas romnticas, mas a vida  muito mais bsica do que isso.
Curiosa, Anna a estudou. Sua me, ela sabia por experincia, nunca tinha sido muito filsofa.
- Voc queria palavras bonitas?
-  claro. - Com um sorriso, a sra. Whitfield pensou sobre o passado. - Seu pai  um homem bom, muito bom, mas a maior parte de suas palavras saem dos livros de 
advocacia. Acho que o sr. MacGregor  um homem bom.
- Ele . Eu no quero perd-lo, mas no posso me casar.
- Anna...
- Eu vou viver com ele.
A sra. Whitfield abriu a boca, mas voltou a fech-la e engoliu em seco.
- Acho que eu gostaria de um drinque. Levantando-se, Anna foi para o gabinete de bebidas.
- Xerez?
- Usque. Duplo.
A tenso foi dissolvida em divertimento enquanto Anna servia o copo.
- Daniel teve uma reao muito similar. - Ela entregou o copo para a me e a viu beber tudo de uma vez. - Nunca escondi nada de voc.
O usque queimou-lhe a garganta.
- No, no, voc sempre foi completamente honesta.
- Gosto muito de Daniel. - Honestidade, Anna lembrou a si mesma e respirou fundo. - Estou apaixonada por ele. No foi algo que escolhi, ento agora sinto necessidade 
de recuperar um pouco do controle. Se eu me casar com ele, vou perder tudo pelo que tenho lutado.
A sra. Whitfield ps o copo vazio sobre a mesinha.
- Seu diploma.
- Sei que voc no entende isso tambm. Ningum parece entender. - Ela passou as mos pelos cabelos. Caam soltos em seus ombros, fazendo-a recordar-se que suas 
fivelas ainda estavam onde tinham cado sobre o gramado. As fivelas no importavam, podiam ser substitudas. Outras coisas haviam sido perdidas naquele penhasco 
que no poderiam ser repostas. - O que sei, no meu corao,  que se eu me casar com Daniel agora, nunca vou terminar a universidade. E se eu no terminar, nunca 
poderei perdoar a mim mesma ou a ele. Me, tentei explicar para voc antes que ser mdica no  simplesmente alguma coisa que quero fazer,  o que tenho de fazer.
- s vezes, temos de colocar na balana duas coisas importantes, Anna, e escolher.
- E, s vezes, no precisamos. - Desesperada por compreenso, ela ajoelhou-se aos ps da me. - Sei que  egosmo querer tudo, mas refleti muito sobre isso. Necessito 
ser mdica, e no quero viver sem Daniel.
- E Daniel?
- Ele quer casamento. No pode ver alm disso, mas ver.
- Sempre to segura de si, Anna. - Ela reconheceu a expresso nos olhos da filha: calma, transparente e repleta de determinao. Quase suspirou. - Voc nunca pedia 
nada, e eu me enganei em pensar que estivesse completamente feliz. Ento, de repente, voc exige tudo.
- No escolhi ser mdica mais do que escolhi me apaixonar por Daniel. As duas coisas simplesmente aconteceram.
- Anna, um passo como esse pode trazer muito sofrimento, muita infelicidade. Se voc ama Daniel, ento casamento...
- No  o momento certo, e no tenho certeza se um dia ser. - Frustrada, ela se levantou e andou pela sala. - Estou apavorada em cometer esse tipo de erro... por 
ele e por mim tambm. Tudo que sei  que agora, neste momento, no quero ficar sem ele. Talvez seja errado, mas seria melhor se ns continussemos a nos amar em 
segredo? Pode me dizer se seria mais aceitvel se roubssemos algumas horas aqui e ali, uma noite, uma tarde?
- Eu nunca poderia lhe dizer nada - murmurou sua me.
- Oh, por favor. - Com mais medo do que queria admitir, Anna voltou-se para a me. -Agora, mais do que nunca, preciso de sua compreenso. No  somente desejo, embora 
seja certamente parte disso.  uma necessidade de estar com ele, de compartilhar alguns de seus sonhos, porque no tenho certeza se poderei compartilhar todos. Am-lo 
em segredo seria hipocrisia. Daniel significa muito para isso. No vou esconder o que sinto. No vou esconder quem sou.
A sra. Whitfield olhou para sua nica filha, para seus olhos escuros e srios, para a boca suave e esculpida. Gostaria de ter as respostas.
- Voc sabe o que estar enfrentando? O que as pessoas vo dizer?
- Isso no me importa.
- Nunca importou - murmurou sua me. - Sei como  impossvel convenc-la de qualquer coisa quando est decidida, mas, Anna, voc no pode me pedir que aprove isso.
- Eu sei. - Por um momento, ela deitou a cabea no colo da me. - Mas, se em algum lugarzinho em seu interior voc puder entender, ser suficiente.
Suspirando, ela tocou a mo da filha.
- Eu no esqueci como  estar apaixonada. Talvez eu entenda, e talvez seja por isso que temo por voc. Anna, voc sempre foi uma filha maravilhosa, mas...
Ela teve de sorrir, apenas um pouco.
-Mas?
- Sempre foi muito intrigante, tambm. Sei que nunca lhe disse que tenho orgulho de voc, mas tenho. Admito que sempre desejei que esquecesse a medicina e se estabelecesse 
num casamento, onde eu poderia v-la feliz, todavia, uma outra parte minha a observou e torceu.
Anna entrelaou os dedos nos da me.
- No sei como lhe dizer o quanto isso significa para mim.
- Eu acho que sei. Agora, seu pai... - Ela fechou os olhos, incapaz de imaginar a reao do marido.
- Ele ficar aborrecido. Eu sei. Sinto muito.
- Lidarei com seu pai. - As palavras saram num impulso, mas ela descobriu que eram verdade. A sra. Whitfield endireitou os ombros.
Com um sorriso, Anna ergueu a cabea. Por um momento, pela primeira vez, ela e sua me se entreolharam de mulher para mulher.
- Eu amo voc, me.
- E eu amo voc. - Ela se levantou do sof. - No preciso entend-la para isso.
Com um suspiro, Anna deitou a cabea no ombro da me.
-  pedir demais que voc me deseje sorte?
- Como me, sim. - Ela pegou-se sorrindo. - Mas como mulher, no.


Oito

Conforme os dias passavam, Anna comeou a temer que tinha perdido. No houve telefonemas ou visitas iradas. Nenhum buqu de rosas brancas foi entregue  sua porta. 
As rosas enfeitando seu quarto e na sala de sua me eram um testemunho do que poderia ter sido. E estavam murchando.
Cada vez com mais freqncia, ela se pegava olhando pela janela ao ouvir o som de um carro passando, correndo para o telefone ao primeiro toque. Cada vez que fazia 
isso, prometia a si mesma no fazer de novo. Mas,  claro, fazia.
Nunca deixava o hospital antes de procurar um carro azul conversvel no estacionamento. Toda vez que saa do grande prdio branco, esperava ver um homem de ombros 
largos e cabelos vermelhos aguardando impacientemente na esquina. Ele nunca estava l, mas ela jamais deixava de olhar.
Era desconcertante saber que passara a depender de Daniel, mas era ainda mais desconcertante descobrir para o qu tinha passado a depender dele. Para a. felicidade. 
Podia ficar alegre sem ele. Certamente podia ficar satisfeita com sua vida e sua carreira. Mas Anna no tinha mais certeza de que podia ser feliz a menos que Daniel 
fizesse parte de seu dia-a-dia.
Um dia, enquanto lia em voz alta para uma jovem paciente de perna quebrada, sua mente vagava. Para sua irritao, pegava-se sonhando acordada diversas vezes durante 
as horas de trabalho desde que Daniel tinha partido de sua casa. Censurando a si mesma, voltou a ateno  paciente e  histria. Como areia, seus pensamentos se 
espalharam novamente.
O final feliz que contou para a garotinha sonolenta no era realidade. Certamente, a ltima coisa que Anna queria era ficar sentada passivamente, esperando que um 
prncipe lhe calasse um sapatinho de cristal. E,  claro, era muito prtica para acreditar em castelos nas nuvens ou magia at a meia-noite. Era bom, talvez em 
uma histria, sonhar com cavalos brancos e heris, porm, uma mulher queria mais na vida real. Na vida real, uma mulher queria... bem, um companheiro, Anna supunha, 
no um cavaleiro ou um prncipe que sempre teria de ser admirado. Uma mulher de verdade queria um homem de verdade, e uma mulher inteligente no ia ficar sentada 
ao redor de uma torre e esperar pelo prncipe encantado. Ela iria viver a prpria vida e fazer suas prprias escolhas.
Anna sempre tinha acreditado piamente que uma pessoa criava o prprio destino, lutando... com lgica e pacincia... por suas necessidades. Ento, por que estava 
esperando?, perguntou-se abruptamente. Se era to independente quanto se declarava e como pretendia se comportar, ento por que estava sonhando acordada e esperando 
que o telefone tocasse? Qualquer pessoa que ficava sentada em silncio, esperando por um telefonema, era uma tola e uma perdedora. Ela no pretendia ser nenhuma 
das duas coisas.
Decidida, Anna continuou a ler at que os olhos da garotinha se cerraram. Fechando o livro, foi para o corredor. No caminho, passou por um mdico residente de olhos 
cansados e quase sorriu. No momento, tinha certeza de que ele no entenderia sua onda de inveja. Talvez ningum mais entendesse, exceto um outro estudante de medicina. 
Todavia, em alguns meses, no lhe seria possvel deixar o hospital por seu prprio capricho. No faria mal algum aproveitar o tempo que lhe restava.
Do lado de fora, o tempo estava ruim. O cu nublado e o clima to quente que a chuva parecia evaporar assim que atingia o concreto. No momento em que Anna chegou 
ao carro, estava toda ensopada. Dirigiu para a cidade com o rdio em volume alto.
O edifcio que abrigava o Old Line Savings and Loan era digno, formal e confivel. Quando atravessou a pequena entrada gramada, perguntou-se se Daniel tinha feito 
algumas mudanas. Do lado de dentro, a pintura estava fresca e os tapetes eram novos, mas os negcios ainda eram conduzidos em sussurros calmos. Anna passou uma 
das mos pelos cabelos, espalhando a gua, ento, dirigiu-se para o caixa mais prximo. Cruzou os dedos atrs das costas.
No andar superior, Daniel olhava os anncios que sairiam no jornal na semana seguinte. Seu gerente tinha ficado nervoso quando levara os arquivos, mas o jovem assistente 
que Daniel havia contratado se mostrara entusiasmado. Algumas decises deveriam ser tomadas por instinto. E o instinto dizia a Daniel que os anncios aumentariam 
tanto o volume de seus negcios quanto sua reputao. E ambas as coisas eram extremamente importantes. Ele no apenas levantaria o Old Line, como teria uma filial 
em Salem em dois anos.
Mesmo enquanto a idia germinava, seus pensamentos se afastaram dos negcios. Lembrou-se do vento em um penhasco e de uma mulher com cabelos e olhos escuros. A excitao 
que o percorreu era to intensa quanto tinha sido no momento em que a tivera em seus braos. O gosto dela provocara uma sensao que nada mais tinha sido capaz de 
substituir. Mesmo ali, na privacidade de seu escritrio, podia sentir-lhe o aroma suave e doce.
Com um murmrio impaciente, empurrou os papis de lado e foi para a janela. Deveria sair com outras mulheres. No tinha jurado a si mesmo que faria isso quando partira 
da vida de Anna? Mas, cada vez que at mesmo tentava pensar em outra mulher, Anna estava l. Estava plantada to firmemente em sua cabea que no havia espao para 
mais ningum. No iria conseguir esquec-la.
Daniel olhou para a chuva caindo. Da janela, Boston parecia acinzentada e deprimente. Combinava com seu humor. Assim que terminasse com o trabalho de papelada e 
as reunies, iria dar uma volta ao longo do rio, o tempo estivesse bom ou ruim. Precisava ficar sozinho, longe dos empregados, de todos. Mas no longe de Anna. Podia 
fazer qualquer coisa que nunca conseguiria fugir de Anna. Como voc podia escapar de alguma coisa que estava em seu sangue, em sua pele? E Anna estava l. No importava 
o quanto tentasse fingir que possua uma escolha, Anna estava l.
Ele queria se casar com ela. Daniel virou-se da janela para andar pela sala com as mos enfiadas nos bolsos e a cabea baixa. Tinha escolhido raiva a desespero e 
fria a medo. Que mulher!, pensou novamente. Queria se casar com ela. Queria acordar pela manh e senti-la a seu lado. Queria chegar em casa  noite e ser capaz 
de toc-la. Queria ver seus filhos crescendo dentro dela. E queria todas essas coisas com um desespero que lhe era to estranho como o fracasso.
Fracasso. Apenas a palavra o fez cerrar os dentes. No estava pronto para admitir fracasso. Para o inferno as outras mulheres!, decidiu abruptamente. Havia apenas 
uma. Iria procur-la.
Quando o telefone sobre sua mesa tocou, ele estava a caminho da porta. Praguejando, foi atender.
- MacGregor.
- Sr. MacGregor, aqui  Mary Miles, caixa do banco. Desculpe-me interromp-lo, mas h uma jovem aqui embaixo que insiste em v-lo.
- Pea-lhe que marque uma hora com a minha secretria.
- Sim, senhor, eu sugeri isso, mas ela insiste em v-lo agora. Disse que vai esperar.
- No tenho tempo de receber ningum sem hora marcada, sra. Miles. - Daniel consultou o relgio. Anna teria sado do hospital. Precisaria ir  casa dela.
- Sim, senhor. - A mulher sentiu-se pressionada entre duas foras que no cediam. - Expliquei isso, mas ela  muito insistente.  muito educada, sr. MacGregor mas 
no acho que v desistir.
Perdendo a pacincia, Daniel praguejou.
- Diga-lhe... - Ele parou quando as palavras da sra. Miles formaram uma imagem em sua mente. - Qual  o nome dela?
- Whitfield. Anna Whitfield.
- Por que voc a est deixando esperar a embaixo? - demandou ele. - Mande-a subir.
Mary Miles fez uma careta e lembrou-se do aumento que o sr. MacGregor lhe dera quando tinha comprado o banco.
- Sim, senhor. Imediatamente.
Anna tinha mudado de idia. A vitria no o fez se sentir calmo, mas radiante. Sua pacincia, embora tivesse lhe custado muito, valera a pena. Ela estava pronta 
para ser sensata. Verdade, ele no imaginava discutir casamento em seu escritrio, mas estava disposto a fazer uma concesso. Apura verdade era que estava disposto 
a fazer muitas concesses. Mas Anna havia ido  sua procura. Ele teria tudo que quisesse, inclusive seu orgulho.
Abatida  porta foi rpida e sistemtica, antes que sua secretria a abrisse.
- A srta. Whitfield est aqui para v-lo, senhor. Daniel assentiu brevemente num gesto que dispensava
a secretria antes que seu olhar e cada pensamento em sua cabea se focassem em Anna. Ela estava parada sobre o grosso carpete cinza que fora recentemente instalado, 
pingando da cabea aos ps. A chuva tinha lavado seu rosto e deixado os cabelos brilhantes e escuros, os cachos caindo sobre os ombros. Anna simplesmente tirou-lhe 
o flego.
- Voc est molhada. - As palavras soaram mais como uma acusao do que uma preocupao.
Ela sorriu.
- Est chovendo. - Nossa, como era bom v-lo. Por um momento, s pde sorrir tolamente enquanto o observava. Ele estava sem gravata, o colarinho aberto. Os cabelos 
rebeldes pareciam ter sido penteados impacientemente com os dedos. Ela queria abrir os braos e envolv-lo com seu corpo, ao qual estava comeando a entender que 
ele pertencia. Em vez disso, continuou sorrindo e pingando no carpete elegante. Enquanto sorria, Daniel a olhava fixamente. Por vrios segundos, nenhum dos dois 
falou.
Ento Daniel pigarreou e a olhou com expresso zangada.
- Parece-me que qualquer pessoa que estuda medicina sabe que no  bom ficar andando por a molhada. - Ele abriu a porta de um gabinete e pegou uma garrafa de usque. 
- Voc vai acabar passando mais tempo em seu hospital do que gostaria.
- No acho que uma pequena chuva de vero me far mal. - Pela primeira vez ocorreu a Anna como devia estar sua aparncia, com os cabelos pingando e embaraados, 
as roupas coladas no corpo e os sapatos midos. Manteve o queixo erguido. Molhada ou no, tinha sua dignidade.
- Beba isso, de qualquer forma. - Ele ps o copo na mo dela. - Sente-se.
- No, eu vou arruinar...
- Sente-se - repetiu ele em tom de ordem. Erguendo uma sobrancelha, ela andou para uma cadeira.
- Muito bem.
Anna se sentou, mas ele no. O doce gosto da vitria j tinha passado. Apenas em olh-la, Daniel sabia que ela no tinha mudado de idia. No Anna. A verdade era 
que nunca se apaixonaria desesperadamente por uma mulher cuja mente pudesse ser influenciada. Ela no fora l para aceitar sua oferta de casamento, e Daniel estava 
longe de aceitar a alternativa de Anna.
Daniel deu um pequeno sorriso. Seus olhos assumiram um brilho que aqueles que estavam acostumados a fazer negcios com ele reconheceriam... e se tornariam cautelosos. 
Recue, disse a si mesmo. Mas, de maneira alguma, deixaria a srta. Whitfield saber de seu estado de nervos. Deixou o olhar percorr-la mais uma vez, quando ela se 
sentou, molhando o estofado de sua cadeira.
- Interessada em um emprstimo, Anna?
Ela deu um gole e deixou o usque acalmar seu sbito nervosismo. O tom calmo e o sorriso suave de Daniel no a enganavam nem por um instante. Ento, ele continuava 
zangado. O que mais deveria ter esperado? Ela se apaixonaria por um homem que pudesse ser facilmente seduzido? No, tinha se apaixonado por Daniel porque ele era 
precisamente como era.
- No no momento. - Para dar-se tempo, ela estudou a sala. - Seu escritrio  muito bonito, Daniel. Digno, mas enfadonho. - Havia uma pintura abstrata na parede, 
feita de diferentes formas e tons de azul. Embora parecesse ser mais do que formas e linhas ao acaso, o senso de sexualidade era perfeitamente claro. - Definitivamente, 
nem um pouco enfadonho.
Daniel a viu estudar a pintara abstrata e sabia que ela entendia. Pagara um preo caro pelo Picasso, porque o quadro o tinha agradado, e porque seus instintos lhe 
diziam que o valor aumentaria com as geraes futuras.
- Voc  uma mulher difcil de chocar, Anna.
- Isso  verdade. - E porque era, Anna se pegou relaxando. - Sempre achei a vida muito importante para me permitir ser ofendida por ela. Senti falta das rosas.
Ele apoiou um quadril no canto de sua mesa enorme. -Pensei que voc no gostasse de receb-las de mim.
- Eu no gostava. At que voc parou de enviar. - Anna parou a, decidindo que tinha direito a algumas excentricidades. - No tive notcias suas por vrios dias 
e pergunto-me se choquei voc.
- Chocou-me? - Alguns momentos atrs, seus sentimentos iam de tenso a tdio. Com Anna ali, tudo parecia estar no lugar novamente. - Tambm no sou uma pessoa que 
se choca facilmente.
- Ofendido, ento? - sugeriu ela. - Porque escolhi morar com voc em vez de me casar.
Ele quase sorriu. Uma vez dissera que gostava de mulheres que diziam o que pensavam... at certo ponto. No parecia nem um pouco estranho que sua opinio sobre isso 
tivesse mudado radicalmente.
- Aborrecido - corrigiu ele. - Podemos at dizer furioso.
Ela lembrou-se da reao dele.
- Sim, acho que podemos. Voc continua zangado.
- Sim. Voc continua com a mesma deciso? -Sim.
Pensativamente, Daniel pegou um charuto, alisando-o antes de acend-lo. Nos negcios, sabia como lidar com um oponente. For-lo a ver o outro lado e vacilar. A 
fumaa passou por cima de sua cabea enquanto a observava e esperava.
- Por que voc veio aqui, Anna?
Ento, ele no pretendia ceder nem um pouco. Ela deu um outro gole do usque. Certo, tambm no cederia.
- Porque percebi que eu no queria passar mais nem um dia sem v-lo. - Anna ps o copo de lado quando uma nuvem de fumaa passou, ento desapareceu. - Voc se importa?
Ele bufou de maneira impaciente. Negcios e assuntos pessoais nem sempre tinham as mesmas regras. Ainda assim, o objetivo era vencer.
-  difcil um homem se importar que a mulher com a qual quer se casar deseja estar com ele.
- timo. - Anna se levantou ento, e fez uma tentativa, em vo, de arrumar a saia molhada. - Ento, voc vai jantar comigo esta noite.
Ele estreitou os olhos.
- Um homem geralmente gosta de fazer o convite. Ela suspirou e meneou a cabea enquanto se aproximava.
-Voc est se esquecendo de novo em que sculo estamos. Eu o apanho s sete horas. 
- Voc...
- Pego voc s sete - terminou ela, ento colocou-se na ponta dos ps. Quando tocou os lbios dele com os seus, estavam macios e deliciosos. - Obrigada pelo usque, 
Daniel. No vou mais atrapalh-lo.
Ele encontrou a voz quando ela j estava  porta. 
- Anna.
Ela virou-se com um meio sorriso nos lbios.
- Sim?
Daniel viu naquele sorriso que ela esperava, at mesmo antecipava uma discusso. Mudar de ttica e deix-la confusa, pensou, dando uma tragada no charuto.
- Ter de ser s sete e meia, pois tenho uma reunio at tarde.
Ento teve a satisfao de ver um vislumbre de dvida cruzar o semblante de Anna antes que ela assentisse.
- Certo.
Assim que ela fechou a porta, respirou longamente.
Perto de sua mesa, Daniel sorria e uma risada vibrava em seu interior. Apesar de no ter certeza de quem tirara o melhor de quem, descobriu que isso no importava. 
Sempre gostara de experimentar um jogo novo, com regras novas. Daria as cartas a Anna. Mas, por Deus, ele ainda venceria.
A chuva tinha diminudo para um chuvisco quando Anna chegou em casa. Descobriu a casa vazia, mas a fragrncia do perfume de sua me ainda estava no hall. Contente 
por estar sozinha, subiu para tomar um longo banho quente. Ter tomado a iniciativa lhe trazia uma boa sensao, descobriu. Mais uma vez, estava no controle, embora 
por dentro estivesse um pouco mais instvel do que poderia parecer.
Daniel MacGregor no era um homem que podia ser manipulado. Sabia disso desde o princpio. Mas acreditava que era um homem que responderia  negociao. Seu problema 
principal seria impedi-lo de ver o quanto ela seria capaz de lhe dar.
Tudo. Anna fechou os olhos enquanto espremia a esponja e pingava gua quente sobre o pescoo e os seios.
Se ele descobrisse que, caso a pressionasse contra a parede, ela lhe daria tudo que ele quisesse, Daniel o faria sem hesitao. Um homem como ele no tinha escalado 
ao topo sendo ingnuo. Mas Anna pretendia chegar ao topo em sua prpria profisso tambm. Portanto, precisava ser igualmente forte, igualmente determinada.
Depois que o pegasse em casa, eles teriam um jantar tranqilo, conversando calmamente. Durante o caf, discutiriam, de forma racional, a situao deles. Antes que 
terminasse a noite, ele entenderia seus sentimentos e sua posio. Anna afundou na banheira com um suspiro. A quem estava tentando enganar? Aquele no parecia um 
jantar com Daniel MacGregor nem por um minuto.
Eles brigariam, discutiriam, discordariam e, provavelmente, ririam bastante. Era bem possvel que Daniel gritasse. Assim como ela. Quando a noite terminasse, Anna 
duvidava que ele tivesse entendido alguma coisa, exceto que queria casamento.
O pensamento mexeu com ela. Ele a queria. Anna podia ter passado a vida inteira sem que algum a olhasse do jeito que Daniel a olhava. Podia ter passado a vida inteira 
sem que algum despertasse sua paixo interna. Como seria sua vida, ento?
Branda. Ela sorriu da palavra que lhe veio  mente. Certamente no se contentaria com isso agora. Queria Daniel MacGregor. E iria t-lo.
Manter a autoconfiana era meia batalha ganha, pensou saindo da banheira. Era to fcil escorregar pouco a pouco enquanto ele a olhava. No permitiria que isso acontecesse 
esta noite. Com uma toalha enrolada nos cabelos, vestiu um robe. Ela iria lev-lo para jantar. Por mais que isso a deixasse um pouco nervosa, no perderia tal chance.
Abrindo o armrio, franziu o cenho. No geral, sabia precisamente o que vestir em uma noite que tinha planejado. Hoje, tudo que colocava parecia muito escandaloso 
ou comum demais. Chamando-se de tola, pegou um vestido de seda verde e estendeu-o sobre a cama. Talvez fosse um pouco simples, mas era a melhor idia para a noite. 
Se quisesse alguma coisa ousada, pensou, devia ter vasculhado o closet de Myra. Quando o pensamento lhe ocorreu, ouviu a campainha da porta.
Descobriu-se resmungando da interrupo, algo que no era tpico de Anna, enquanto descia a escada. Assim que abriu a porta, Myra entrou e segurou-lhe ambas as mos.
- Oh, Anna, que bom que voc est em casa.
- Myra, eu estava justamente pensando em voc. -Anna notou que sua amiga estava lhe apertando os dedos. - O que aconteceu?
- Preciso falar com voc. - Talvez pela primeira vez na vida, Myra encontrava dificuldade em escolher as palavras. - A ss. Seus pais esto em casa?
- No.
- timo. Preciso de um drinque antes. Sirva-me um usque.
- Tudo bem. - Divertida, Anna comeou a conduzi-la para a sala. - Lindo chapu.
- ? - Myra levou uma mo preocupada ao vu do chapu. - No  muito escandaloso?
- Escandaloso? - Anna serviu um usque duplo. - Deixe-me ver se entendi. Voc est me perguntando se o que est usando  muito escandaloso?
- No seja engraadinha, Anna. - Virando-se para o espelho, Myra brincou com o vu. - Talvez eu deva tirar a pena.
Anna olhou para a pequena pena curvada sobre a orelha de Myra.
- Agora sei que alguma coisa est errada.
- E quanto  roupa? - Myra tirou a capa de chuva vermelha brilhante para revelar um conjunto de seda com renda no decote e punhos.
-  maravilhoso.  novo?
- Tem somente vinte minutos.
Anna sentou-se no brao de uma poltrona enquanto sua amiga bebia o usque.
- Voc no precisava se arrumar tanto para vir me visitar.
Myra suspirou longamente e endireitou os ombros antes de esvaziar o copo de bebida.
- Agora no  hora de brincadeiras.
- Posso ver isso. - Mas ela sorriu, de qualquer forma. -  hora para qu?
- Com que rapidez voc pode vestir uma roupa linda e arrumar uma sacola para passar a noite fora?
- Passar a noite fora? -Anna observou-a mexendo no decote da blusa. - Myra, o que est havendo?
- Eu vou me casar. - Ela falou apressada, ento respirou com dificuldade. Porque as pernas estavam bambas, sentou-se no sof.
- Casar? - Perplexa, Anna a olhou. - Myra, sei que voc trabalha rapidamente, e que eu no a vejo h algumas semanas, mas casar-se?
- No machucaria dizer isso algumas vezes, ento parei de perder o flego cada vez que ouo a palavra. J tagarelei com a vendedora da loja de roupas e no quero 
fazer isso de novo. Se h uma coisa que me recuso a fazer  papel de boba.
- Casar - repetiu Anna por ambas. - Com quem? - Enquanto Myra abria e fechava o primeiro boto da blusa, Anna nomeou um candidato: - Peter?
- Quem? No,  claro que no.
-  claro que no - murmurou Anna. - J sei, Jack Holmes.
- No seja ridcula.
- Steven Marlowe.
Myra brincou com a bainha da saia.
- Anna, tenha d, eu mal conheo o homem.
- Mal o conhece? Bem, seis meses atrs voc...
- Aquilo foi seis meses atrs - interrompeu Myra, enrubescendo pela primeira vez desde que Anna a conhecera. - E eu apreciaria se voc esquecesse qualquer coisa 
que j escrevi sobre ele. Melhor ainda, queime aquelas cartas.
- Querida, elas foram destrudas no momento em que as li. Voc devia ter usado papel a prova de fogo.
Sem poder evitar, Myra sorriu.
- Voc est falando com uma mulher noiva. Deixei todo o passado para trs. Olhe. - Com a respirao acelerada, Myra estendeu a mo direita.
- Oh. - Ela geralmente no ligava muito para jias, mas o diamante simples de corte quadrado no dedo de sua amiga era magnfico. -  maravilhoso, realmente maravilhoso, 
Myra. Estou to feliz por voc. - Anna estava em p, puxando Myra para um abrao, mas ento riu. - Como sei que estou feliz por voc? Nem sei com quem vai se casar.
- Herbert Ditmeyer. - Myra esperou por um olhar de perplexidade e no ficou desapontada. - Eu sei, tambm fiquei muito surpresa.
- Mas no pensei nem mesmo que vocs... isto , voc sempre falou que ele era... - Percebendo o que ia dizer, Anna parou e pigarreou.
- Uma pessoa de poucos horizontes - Myra terminou e sorriu lindamente. - E ele .  limitado, muito srio e frustrantemente apropriado. Mas  tambm o homem mais 
doce que j conheci. Durante as ltimas semanas... - Ela recostou-se, um pouco sonhadora, um pouco atnita. - Eu nunca soube como era ter um homem que a trata como 
se voc fosse especial. Realmente especial. Sa com ele a primeira vez, porque, depois de tanta insistncia, fiquei com pena de Herbert. - E, alegre, admitiu: - 
Sa a segunda vez porque me diverti muito. Herbert pode ser to engraado!  como se ele tivesse entrado em minha pele.
Emocionada, Anna viu amor nos olhos de Myra.
- Eu sei.
- Voc sempre foi to amiga dele. Tenho sorte que no se apaixonou por voc. A questo , Herbert  apaixonado por mim h anos. - Meneando a cabea de leve, ela 
pegou um cigarro da bolsa. - Estvamos saindo por algumas semanas quando ele me contou. Fiquei to perplexa que mal podia falar. Ento, tentei parar de resistir. 
Afinal, ele foi muito doce e eu no queria mago-lo.
Anna ergueu a mo com o anel novamente.
- No me parece que voc resistiu.
- No. - Ainda zonza, Myra olhou para o diamante brilhante. - Ocorreu-me de repente que eu no queria resistir, que estava apaixonada por ele. Isso no  loucura?
- Acho maravilhoso.
- Eu tambm. - Ela apagou o cigarro sem mesmo ter dado a primeira tragada. - E esta noite. Esta noite, ele colocou este anel no meu dedo, disse-me que vamos voar 
para Maryland s oito horas e nos casar.
- Esta noite. - Anna pegou pegou-lhe a mo novamente. - Esta noite.  to rpido, Myra.
- Por que esperar?
Por que esperar, realmente? Ela podia pensar em centenas de razes, mas nenhuma delas teria tirado aquela expresso sonhadora dos olhos de Myra.
- Voc tem certeza?
- Tenho mais certeza disso do que de qualquer coisa que j tive na vida. Fique feliz por mim, Anna.
- Eu estou. - Lgrimas marejaram-lhe os olhos enquanto abraava a amiga. - Voc sabe que estou.
- Ento, vista-se. - Meio rindo, meio chorando, Myra empurrou-a. - Voc  a minha madrinha.
- Voc quer que eu voe para Maryland esta noite?
- Ns decidimos fugir porque era mais simples do que lidar com a me dele. Ela no gosta de mim e provavelmente nunca vai gostar.
- Oh, Myra...
- No importa. Herbert e eu nos amamos. De qualquer forma, no quero um grande casamento. Demora muito. Mas no quero me casar sem a minha melhor amiga l. Realmente 
preciso de voc, Anna. Desejo isso mais do que qualquer coisa na vida e estou apavorada.
Quaisquer objees que Anna pudesse ter, desapareceram. 
- Posso ficar pronta em vinte minutos.
Sorrindo, Myra lhe deu um ltimo abrao.
- Porque se trata de voc, acredito nisso.
- Deixe-me apenas deixar um bilhete para meus pais. - Ela j estava com a caneta nas mos.
- Ah, Anna. - Myra mordiscou o lbio. - Sei que seu senso de honestidade no vai deix-la mentir... exatamente. Pode apenas no mencionar o motivo pelo qual est 
viajando? Herbert e eu realmente queremos manter isso em segredo at que contemos para a me dele.
Anna pensou por um momento, ento comeou a escrever.
"Vou fazer uma pequena viagem com Myra. Talvez comprar algumas antigidades". O que poderia fazer, acrescentou para si mesma. "Estarei de volta em um ou dois dias." 
Ela assinou e olhou para cima, mostrando o bilhete a Myra.
- Vago o bastante?
- Perfeito. Obrigada.
- Vamos, me d uma mo. - Indo para o corredor, lembrou-se. - Oh, preciso ligar para Daniel e cancelar o jantar.
- Daniel MacGregor? - Myra arqueou as sobrancelhas de um jeito que s ela conseguia.
- Isso mesmo. - Ignorando o olhar, Anna foi para o telefone. - Tenho de avis-lo que no vou poder esta noite.
- Voc pode jantar com ele em Maryland. - Myra pegou o telefone da mo da amiga e ps no gancho novamente. - Herbert vai convid-lo para ser o padrinho.
- Entendo. - Anna passou uma das mos casualmente sobre o robe. - Bem, isso  conveniente, no ?
- Muito. - Com um sorriso, Myra arrastou-a para o andar de cima.


Nove

Anna nunca havia viajado de avio antes. Aos 20 anos, tinha viajado para a Europa de navio, com luxo e conforto. Viajara centenas de quilmetros em trens, tranqilizada 
pelo balano agradvel e observando a paisagem que passava. Mas nunca estivera no ar. Se algum lhe dissesse que subiria num avio particular, que parecia pequeno 
o bastante para aterrissar no seu quintal, ela diria que estavam loucos.
Amor, pensou quando cerrou os dentes e deu o ltimo passo para dentro do avio. Se no amasse Myra, se viraria e sairia correndo. Estava certa de que a pequena lata 
com hlices podia sair do solo. S gostaria de ter a mesma certeza de que desceria de novo.
- Uma bela mquina, no? - Daniel observou Anna sentar-se antes de se acomodar a seu lado.
- Muito bela - murmurou ela e imaginou se o avio vinha acompanhado de pra-quedas.
- Seu primeiro vo?
Anna comeou a dar uma risada firme e exaltada ento viu que ele no estava rindo dela.
- Sim. -A palavra saiu num sussurro.
- Tente pensar nisso como uma aventura - sugeriu Daniel.
Ela olhou para o solo do lado de fora da janela, e desejou que ainda estivesse pisando nele.
- Estou tentando no pensar, em absoluto.
- Voc  mais corajosa do que isso, Anna. Eu deveria saber. - Ento, ele sorriu-lhe. - A primeira vez deve ser uma aventura. Depois de um tempo, voar se torna rotina 
e voc no pensa realmente sobre isso.
Ela disse a si mesma para relaxar e usou o velho truque de comear a visualizar os ps relaxados e ir subindo pelo corpo. Nunca passou dos joelhos.
- Suponho que voc esteja acostumado com isso.  nesse tipo de avio que voa para Nova York?
Com uma risada, Daniel prendeu o cinto de segurana de Anna, depois o seu prprio.
-  neste avio que vou para Nova York. Ele  meu.
- Oh. - Ao ouvir aquelas palavras, Anna descobriu que o fato de o avio ser de Daniel, de alguma maneira, tornava tudo mais seguro. Olhou para onde Myra e Herbert 
estavam sentados com as cabeas unidas. Uma aventura, decidiu. Apreciaria a novidade.
- Ento, quando comeamos?
- Esta  minha garota - murmurou ele e sinalizou para o piloto. O motor do avio soou e eles decolaram.
Embora a ansiedade de Anna tivesse passado, havia um ar tanto de celebrao quanto de tenso durante todo o vo. Ela notou o nervosismo de Myra, que torcia um leno 
nas mos enquanto ria e conversava. Herbert parecia um pouco plido, rgido, e falava quando era questionado. Anna, por sua vez, ouvia vozes ao seu redor, observando 
a paisagem abaixo com um senso de que aquilo no era real. Tudo estava acontecendo to rpido. No fosse pelas constantes brincadeiras e provocaes de Daniel, a 
festa de comemorao do vo podia ter se transformado em leve histeria. Ele estava se divertindo, percebeu Anna, vendo-o brincar de maneira descontrada com Myra. 
E, enquanto fazia isso, acalmava a futura noiva. Daniel no era apenas um homem interessante, notou ela. Era tambm um bom amigo. Reprimindo os pensamentos, Anna 
fez um esforo para ser uma amiga to boa quanto.
- Voc tem um gosto excelente, Herbert.
- O qu? - Ele engoliu em seco e endireitou a gravata. - Oh, sim, obrigado. - Ento olhou para Myra com o corao nos olhos. - Ela  maravilhosa, no ?
- A melhor. No sei o que eu teria feito sem ela. A vida certamente seria muito mais tediosa.
- Ns, pessoas mais srias, realmente precisamos de algum que d um brilho nas nossas vidas, verdade? - Ele deu um sorriso nervoso a Anna. - Caso contrrio, apenas 
nos rastejamos em nossas carreiras e esquecemos que existem mais coisas l fora.
Pessoas srias? Anna refletiu sobre a frase. Sim, supunha que era. Alm disso, estava comeando a entender que Herbert tinha razo.
- E pessoas com "brilho" - murmurou ela com uma olhada para Myra e Daniel - precisam de pessoas srias em suas vidas para impedi-las de carem do penhasco.
- Eu vou faz-la feliz.
Porque as palavras dele soavam mais como uma pergunta do que como uma afirmao, Anna pegou-lhe as mos.
- Oh, sim. Voc vai faz-la muito feliz.
O pequeno avio particular tocou o solo do aeroporto rural de Maryland. A garoa insistente tinha ficado para trs. Ali, o cu noturno estava claro e coberto de estrelas. 
O prateado da lua era como um sorriso. Podia ter sido uma noite escolhida por impulso, mas era perfeita. Segurando Myra pelo brao, Herbert a conduziu ao longo do 
caminho do pequeno terminal.
- O juiz de paz que me foi recomendado fica apenas a trinta quilmetros daqui. Vou verificar se pegamos um txi ou alugamos um carro.
- Isso no ser necessrio. - Quando eles entraram no terminal, Daniel rapidamente olhou ao redor e sinalizou para um chofer uniformizado.
- Sr. MacGregor?
- Sim. D as instrues a ele - Daniel disse a Herbert. - Tomei a liberdade de cuidar do transporte.
Sem comentrios, o chofer pegou as malas e liderou o caminho para o lado de fora. Na esquina, estava uma limusine prateada.
- Vocs no me deram muito tempo para pensar em um presente de casamento - explicou Daniel. - Isso foi o melhor que pude fazer.
-  perfeito. - Com uma risada, Myra envolveu os braos ao redor dele. -Absolutamente perfeito.
Daniel piscou para Herbert por sobre a cabea dela.
- A tarefa do padrinho  cuidar dos detalhes.
Anna esperou at que Herbert ajudasse Myra a entrar no carro.
- Isso foi muito doce de sua parte.
- Sou um homem doce - murmurou Daniel. Ela riu e aceitou-lhe a mo.
- Talvez. Eu no apostaria nisso.
Dentro da limusine, Myra j estava de braos dados com Herbert.
- Duas garrafas de champanhe?
- Uma para antes. - Daniel tirou uma garrafa do balde de gelo. - Outra para depois. - Sacou a rolha com um pequeno estouro e serviu quatro taas. A felicidade!
Quatro taas bateram solenemente num brinde, mas no momento em que Daniel bebeu, olhou para Anna. Quando o champanhe deslizou por sua garganta, ela percebeu que 
a aventura estava longe de terminar.
Assim que chegaram  pequena casa branca, todo o champanhe e a tenso no ar tinham desaparecido. Com sua autoconfiana habitual, Myra prendeu os cabelos e se maquiou 
num vestirio feminino do salo, enquanto Anna ficava a seu lado, segurando o chapu da noiva. Notou que as mos da amiga estavam tremendo.
- Como estou? - perguntou Myra e deu uma voltinha no espao apertado.
- Linda.
- Nunca fui exatamente linda, mas esta noite acho que quase consegui ficar muito bonita.
Com mos firmes, Anna virou-a para o espelho novamente.
- Esta noite, voc est linda. D uma olhada.
Olhando para o reflexo das duas no espelho, Myra sorriu.
- Ele realmente me ama, Anna.
- Eu sei. - Ela passou o brao em volta do ombro de Myra. - Vocs vo formar um time e tanto.
- Sim, vamos. - Erguendo o queixo, ela sorriu. - No acho que Herbert se d conta ainda do quanto seremos um time, mas vai perceber. - Com um suspiro, virou-se e 
segurou os ombros de Anna. - No gosto de ficar sentimental, mas, uma vez que s pretendo me casar uma vez, este parece o momento adequado. Voc  minha melhor amiga 
e eu a amo. Quero que seja to feliz quanto me sinto neste minuto.
- Estou trabalhando para isso. Satisfeita, Myra assentiu.
- Certo, ento vamos. E oua - ela ps a mo na maaneta e parou -, se eu gaguejar, no conte a ningum... especialmente para Catherine Donahue.
Com expresso solene, Anna colocou uma das mos sobre o corao.
- No direi a nenhuma alma.
No salo, com uma pequena lareira de mrmore e flores de vero num vaso de vidro, Anna assistiu  sua melhor amiga prometer amor, honra e fidelidade. Quando seus 
olhos nublaram, sentiu-se tola e piscou para conter as lgrimas. Era tolice chorar por dois adultos que estavam fazendo um contrato legal. Casamento era, afinal 
de contas, um contrato. Por esse motivo, deveria ser abordado com muito cuidado e praticidade. Mas a primeira lgrima escapou e escorreu-lhe pela face. Sentiu Daniel 
colocar um leno em sua mo, como tinha feito uma vez. Mesmo enquanto usava o leno, a cerimnia acabou e ela encontrou-se abraando sua amiga deslumbrada.
- Fiz isso - murmurou Myra, ento riu e apertou as costelas de Anna num abrao forte.
- E sem gaguejar uma nica vez.
- Fiz isso - repetiu ela e ergueu a mo. Ao lado do anel de diamante, estava uma aliana de ouro. - Noivei e casei em cinco horas.
Daniel pegou a mo que ela estava admirando e beijou-a formalmente.
- Sra. Ditmeyer.
Rindo, Myra entrelaou os dedos nos dele.
- Certifique-se de me chamar assim diversas vezes durante a noite, de modo que eu aprenda a responder. Oh, Anna, vou chorar e borrar minha maquiagem.
- Est tudo bem. - Anna deu-lhe o leno j amassado de Daniel. - Herbert est preso a voc agora. - Colocando os braos ao redor de Herbert, apertou-o com carinho.
Ele riu, devolvendo o abrao.
- E ela est presa a mim.
- Ela vai complicar a sua vida.
- Eu sei.
- Isso no  maravilhoso? -Anna lhe deu um beijo no rosto. - No sei quanto a vocs, mas estou faminta. O jantar de casamento  por minha conta.
Seguindo a recomendao do juiz de paz e com a ajuda do chofer, eles encontraram uma pequena hospedaria no pico de um morro reflorestado. Era, segundo as informaes 
que receberam, pequena, pitoresca, e estaria possivelmente fechada. Com alguma persuaso e a troca de algumas notas, eles convenceram o dono a abrir o restaurante 
e acordar o cozinheiro. Enquanto os outros foram conduza para o salo de jantar, Anna deu uma desculpa que precisava ir ao toalete e se afastou. Momentos depois, 
surpreendeu o dono da hospedaria novamente.
- Sr. Portersfield, no posso agradecer o bastante por ter nos acomodado.
Apesar de ficar sempre contente em receber clientes que pagavam, o horrio tardio o deixara de mau humor. Todavia, achou difcil resistir ao sorriso que Anna lhe 
dava.
- Minhas portas esto sempre abertas - replicou ele.
- Infelizmente, a cozinha fecha s nove horas, ento a refeio pode no corresponder  nossa reputao.
- Tenho certeza de que tudo ser maravilhoso. A propsito, posso quase prometer-lhe que meus amigos diro que  a melhor refeio que j comeram. Sabe - ela enganchou 
o brao no dele e andou um pouco para se afastar mais dos outros -, eles acabaram de se casar h meia hora. Por isso, o senhor e eu temos de preparar algumas coisas.
- Recm-casados. - O sr. Portersfield no era um homem totalmente desprovido de romance. - Ficamos sempre satisfeitos em receber recm-casados aqui. Se tivssemos 
sido avisados com um pouco de antecedncia...
- Oh, estou certa de que as poucas coisas de que precisamos no sero problema. Mencionei que o sr. Ditmeyer  promotor pblico em Boston? Tenho certeza de que quando 
ele voltar de lua-de-mel com a esposa, vai elogiar sua hospedaria para todos os amigos. E o sr. MacGregor - ela abaixou o tom de voz -, bem, no preciso lhe dizer 
quem ele .
Ele no tinha a menor idia, mas a importncia implcita era o bastante.
- No,  claro que no.
- Um homem na posio dele geralmente no encontra um lugar tranqilo como este para relaxar. Comida caseira, ar do campo. Posso lhe assegurar que ele est muito 
impressionado com seu estabelecimento. Diga-me, sr. Portersfield, por acaso tem um toca-discos?
- Um toca-discos? Tenho um em meu quarto, mas...
- Perfeito. -Anna deu-lhe um tapinha na mo e tentou sorrir novamente. - Eu sabia que o senhor seria capaz de me ajudar.
Quinze minutos depois, ela estava de volta ao salo de jantar. Sobre a mesa, havia pes fatiados, um pote de manteiga e pouco mais.
- Onde voc se meteu? - Daniel perguntou quando ela se sentou.
- Detalhes. Para os noivos - murmurou Anna e ergueu seu copo de gua.
Enquanto brindavam, Myra riu.
- E eu estava justamente dizendo a Herbert que ele pode esperar por refeies como esta - ela indicou o po e a gua -, at que arrumemos uma cozinheira.
Ele pegou-lhe a mo e levou-a aos lbios.
- No me casei com voc por seus dotes culinrios.
- Ainda bem - disse Anna, ento acrescentou: - Ela no tem nenhum.
Um garoto sonolento de aproximadamente 15 anos entrou no salo com um vaso de flores selvagens. Uma olhada para o orvalho nas ptalas disse a Anna que haviam acabado 
de ser colhidas. Aparentemente, o sr. Portersfield iria cumprir seu dever.
- Oh, que bonitas. - Myra estendeu o brao para pegar uma enquanto o garoto comeava a arrastar mesas ao longo do piso. Fazendo muito barulho. O sr. Portersfield 
apareceu carregando uma vitrola. Dentro de momentos, havia msica.
- A primeira dana para os Herbert Ditmeyer - declarou Anna e gesticulou para o espao que o garoto tinha aberto. Quando eles estavam sozinhos  mesa, Daniel passou 
manteiga em uma fatia de po e estendeu para ela.
- Voc conseguiu bastante coisa em to pouco tempo. Faminta, Anna deu uma mordida no po.
-  s o comeo, sr. MacGregor.
- Sabe, quando voc me convidou para jantar esta noite, eu no tinha idia que seria numa hospedaria no campo, em Maryland.
Anna pegou outra fatia de po, passou manteiga e deu a ele.
- Eu pretendia jantar um pouco mais perto de casa.
- Eles parecem felizes.
Ela olhou para ver Myra e Herbert sorrindo um para o outro enquanto se moviam em volta no pequeno espao.
- Sim, eles esto felizes. Engraado, eu nunca os imaginei juntos. Agora que os vejo, parece to perfeito.
- Contrastes. - Daniel abriu a palma e pressionou contra a de Anna. A dele era grande e spera. A dela, pequena e macia. - Eles tornam a vida mais interessante.
- Passei a acreditar nisso. - Ela entrelaou os dedos nos dele. - Ultimamente.
Com um sorriso que ia de orelha a orelha, o sr. Portersfield trouxe uma bandeja de salada.
- Vocs vo gostar disso - murmurou enquanto servia. - Tudo vem direto de nosso prprio jardim. O molho  uma velha receita familiar. - Depois de colocar os pratos 
de salada sobre a mesa, ajeitou as flores, mexeu o molho brevemente e partiu mais uma vez.
- Ele certamente parece mais alegre - comentou Daniel.
- E assim deveria se sentir - murmurou Anna, pensando no preo que pagara para colocar um sorriso no rosto do homem. - Daniel. - Pensativa, espetou o garfo na salada. 
- Sobre aquele emprstimo que voc mencionou esta tarde. - Comeu a primeira garfada de salada e descobriu que era to boa quanto a propaganda dizia. -Talvez eu precise 
aceitar... somente at voltarmos para Boston.
Daniel olhou a tempo de ver Portersfield indo para a cozinha, ento, voltou-se para Anna, que tinha a expresso travessa no rosto. Ele nunca precisara que algum 
lhe somasse dois mais dois. Com uma risada escandalosa, segurou-lhe o rosto nas mos e a beijou.
- Sem juros para voc, amor.
Havia champanhe... as nicas duas garrafas disponveis na hospedaria. Havia um cozido que se derretia no garfo, e um disco arranhado de Billie Holiday. Quando Daniel 
levou Myra para a pista de dana, ela no perdeu tempo e foi direto ao ponto.
- Voc est apaixonado por Anna. 
Porque ele no via razo para negar, ignorou a ousadia dela.
- Sim.
- O que pretende fazer sobre isso?
Ele olhou para baixo. No conforto da barba, seus lbios se torceram.
- Eu poderia dizer que no  da sua conta.
- Sim, voc poderia- concordou Myra. - Mas pretendo descobrir, de qualquer maneira.
Aps um momento de reflexo, Daniel decidiu que era melhor t-la do seu lado.
- Eu teria me casado com ela esta noite, mas Anna  muito teimosa.
- Ou esperta. - Myra sorriu quando viu o brilho de raiva nos olhos dele. - Oh, eu gosto de voc, Daniel. Gostei desde o comeo. Mas conheo um temperamento dominador 
quando vejo um.
- Os iguais se reconhecem.
- Exatamente. - Satisfeita, em vez de insultada, Myra acompanhou-lhe os passos. - Anna vai ser mdica, provavelmente a melhor cirurgia do pas.
Ele fez uma careta.
- O que voc entende sobre mdicos?
- Entendo sobre Anna - disse ela com facilidade. - E acho que conheo o bastante sobre os homens para saber que isso no  muito adequado para voc.
- Eu quero uma esposa - murmurou ele -, no algum que manuseie uma faca.
- Imagino que voc teria mais respeito por cirurgies se precisasse cortar seu apndice.
- Eu no ia querer que minha esposa fizesse a cirurgia.
- Se quer Anna,  melhor se preparar para aceitar a carreira dela. Voc a pediu em casamento?
- Voc  intrometida.
-  claro. Pediu?
Mulheres americanas, pensou Daniel. Algum dia se acostumaria?
- Sim, pedi. 
- E?
- Ela diz que no vai se casar, mas que moraria comigo.
- Isso parece sensato.
Daniel abaixou-lhe a mo, de modo que ambos pudessem ver o anel brilhar no dedo de Myra.
- Oh, isso  completamente diferente. Eu amo muito Herbert, mas no teria me casado, a menos que tivesse certeza que ele me aceita como sou.
- O que ...
- Intrometida, bisbilhoteira, exibicionista e ambiciosa. - Ela olhou em direo  mesa. - Vou ser uma esposa maravilhosa para ele.
Daniel a fitou. Os olhos de Myra podiam brilhar de amor, mas o queixo era determinado.
- Acredito que sim.
Daniel tinha acabado de puxar a cadeira de Myra quando Portersfield apareceu com um carrinho contendo um pequeno bolo coberto de chantili e enfeitado com botes 
de rosa. Com considervel charme, entregou a Myra uma faca de cabo de prata.
- Com os cumprimentos da hospedaria - disse ele, sabendo que tinha condies de ser generoso. - Nossos melhores desejos para um casamento longo e feliz.
- Obrigada. - Encontrando-se  beira das lgrimas Myra esperou at que Herbert colocasse a mo sobre a sua ao redor do cabo da faca.
Anna aguardou at que as garrafas de champanhe estivessem vazias, e o bolo no passasse de farelos.
- Mais uma coisa. - Ela pegou a chave da bolsa e deu para Herbert. - A sute nupcial.
Ele a guardou no bolso com um sorriso.
- No achei que um lugar pequeno como este teria uma sute nupcial.
- No tinha, at algumas horas atrs. -Anna aceitou os abraos e observou os recm-casados partirem juntos.
- Gosto de seu estilo, Ana Whitfield.
- Gosta? - Encorajada pelo sucesso e pelo champanhe, ela sorriu-lhe. Olhando-o fixamente, enfiou a mo na bolsa de novo. - Tenho uma outra chave.
Daniel fitou a nica chave na pequena palma.
- Voc costuma resolver tudo sozinha. Arqueando uma sobrancelha, Anna levantou-se.
- Se assim no estiver bom para voc, pode acordar Portersfield novamente. Tenho certeza de que ele poder lhe providenciar um outro quarto.
Ele se levantou, segurou-lhe o pulso e pegou a chave.
- Este estar bem.
De mos dadas, eles deixaram as sobras do jantar de casamento para trs.
No falaram enquanto subiam a escada, a qual fazia um rudo leve sob o peso deles. Havia uma luz acesa no topo para gui-los, protegida por vidro chanfrado e turvo. 
Todas as portas pelas quais passaram estavam fechadas. A hospedaria, recentemente perturbada por uma comemorao, estava agora silenciosa. Quando Daniel abriu a 
porta do quarto, sentiu o perfume das ptalas secas de pot-pourri. Aquilo o fez pensar em sua av, da Esccia, e em tudo que deixara para trs. Quando Anna entrou 
e fechou a porta, no pensou em mais nada exceto nela. Eles ainda no falavam.
Ela virou a chave de um pequeno lampio eltrico perto da porta. Uma luz suave espalhou-se pelo quarto, unindo-se aos ps de ambos. As janelas estavam abertas, de 
modo que o ar quente de vero pudesse entrar. As cortinas balanavam com o vento fraco. E  distncia, veio o som melanclico de um pssaro noturno.
Ela esperou. Uma vez, no penhasco, tinha ido at ele. Agora, precisava que ele se aproximasse. Seu corao j era de Daniel, embora temesse lhe dizer isso. Seu corpo 
jamais pertenceria a uma outra pessoa. Mas esperou, tocada pela luz do lampio, cercada pelo ar de vero.
Daniel pensou que ela nunca parecera to adorvel, embora j possusse dezenas de memrias de Anna em sua mente. Dezenas de fantasias. Paixo, desejo, amor, sonhos... 
ela era tudo isso. Seu corao deu o primeiro passo e ele o seguiu.
As mos grandes seguraram-lhe o rosto gentilmente, to gentilmente que Anna mal podia sentir a presso dos dedos sobre sua pele. Todavia, o toque a excitou. Os olhos 
de Daniel no deixaram os seus quando ele baixou a boca. O beijo foi suave, um mero roar de lbios, uma mistura, das respiraes. De olhos abertos, os corpos unidos, 
eles exploraram as sensaes evocadas pela provocao e roar de boca contra boca, pela dana ertica das lnguas.
Ele tocava-lhe apenas o rosto, enquanto Anna no o tocava em absoluto, entretanto, em segundos, dois coraes batiam descompassados.
Quanto tempo ficaram em p daquele jeito, ela no podia ter certeza. Poderiam ter sido horas ou meros segundos enquanto o desejo aumentava at o ponto de causar 
dor fsica. Com um gemido de deleite, Anna deixou a cabea cair para trs. Seus braos o circularam. Por um instante, o beijo se aprofundou em direo ao delrio. 
Ela teve a sensao de que seu corpo estava se derretendo dos ps a cabea. Abandonando-se ao prazer, foi para os braos fortes em total rendio.
Aquilo quase o enlouqueceu. Ter Anna, forte e vida, fazia seu sangue esquentar e sua paixo decolar. Mas ter Anna, dcil e flexvel, era devastadoramente excitante. 
Deixava-o fraco. Deixava-o forte. Ela parecia penetr-lo gradualmente at que no havia espao para nada, exceto para a mulher que amava.
Ele afastou-se, abalado pela intensidade, cauteloso com a fuso impressionante. Mas Anna permaneceu l, a cabea para trs, os braos ao seu redor. Daniel viu mais 
que desejo nos olhos dela, at mais do que conhecimento. Era aceitao. Esperou, o corpo pulsando, at que a mente estava quase clara de novo. Ento, a despiu.
O casaco fino, quase transparente, que ela usava sobre o vestido deslizou do corpo como uma iluso. Ele deixou as mos passearem pelos braos delicados, sobre os 
ombros, ento descendo novamente, de modo que pudesse sentir-lhe a pele, os msculos, a textura. E enquanto se demorava, enfeitiado pelo estmulo de sua carne contra 
a dela, Anna tirou-lhe a gravata e jogou-a de lado. Lentamente, enquanto seu prprio sangue esquentava com os toques dele, ela removeu o palet pelos ombros.
Ele estava se perdendo em Anna mais uma vez, mas agora isso no parecia importar. Enquanto a brisa de vero entrava pelas janelas atrs deles, Daniel abriu o zper 
do vestido, deslizando-o para o cho.
Ela o ouviu prender a respirao e sentiu um orgulho quase devasso em seu prprio corpo. Permaneceu parada ali, enquanto Daniel parecia embriagar-se da viso de 
sua nudez, centmetro por centmetro. A pele de Anna formigava, como se ele a estivesse acariciando. O camafeu que ele lhe dera estava aninhado no vo do pescoo. 
Ele podia tra-lo com o dedo e sentir o perfil de Anna ganhar vida. O lingerie de renda dava forma aos seios e iluminava a parte que cobria o centro da feminilidade. 
A luz do lampio realou a linda silhueta feminina e o deixou sedento pelo que j possua.
Os dedos de Anna no estavam firmes quando ela desabotoou a camisa dele, mas ela no deixou seus olhos. Mais por desejo do que por confiana, acariciou-lhe o peito 
quando a camisa juntou-se ao vestido no cho.
Em algum lugar da hospedaria, um relgio soou, avisando que era uma hora da manh, mas h muito eles haviam esquecido coisas como tempo e lugar. Num acordo no falado, 
deitaram-se sobre a cama.
Sob o peso deles, o colcho rangeu suavemente. Travesseiros soltaram penas. Daniel posicionou-se alguns centmetros acima dela, precisando v-la, inteirinha. Podia 
ter ficado daquele jeito por horas, mas Anna o puxou para si.
Beijos, ardor, impacincia. Pele com pele, tremores sensibilidade. A luz do lampio lanou suas sombras sobre a parede. A brisa carregou-lhes os suspiros. O pssaro 
noturno ainda cantava em tom lastimoso. Eles no mais ouviam. O mundo que ambos conheciam muito bem, o mundo que estavam determinados a descobrir, tinha sido gradualmente 
reduzido a um cmodo. Ambies diminuram e morreram em face a desejos mais ardentes. Desejos de dar, receber e experimentar. Possuir e ser possudo.
Daniel enterrou o rosto contra a pele macia e no notou mais o aroma de flores secas no ar. No havia outra fragrncia seno a de Anna, nenhum gosto, exceto o de 
Anna, nenhuma voz que no fosse a de Anna. Lentamente, mas no com muita gentileza, trilhou com a boca uma jornada que iniciou no pescoo delicado e foi descendo 
at os seios. Puro desejo pulsou em seu sangue quando ela tencionou contra ele. Com as mos de ambos unidas, Daniel deslizou a lngua ao longo da curva sutil acima 
da renda do suti. Com as pernas de ambos entrelaadas, usou os dentes para mordiscar-lhe a pele de levinho. Quando Anna chamou seu nome, ele jurou lev-la para 
a mais deliciosa loucura.
Atravs do tecido de renda, ele provocou-lhe os mamilos, at que ficassem quentes e rijos em sua boca, e o corpo de Anna tenso como a corda de um arco. Ouviu-lhe 
a respirao trmula quando pausou, ento, ouvia-a gemer no momento em que passou para o outro seio.
To vagarosamente quanto, e do mesmo modo rude e devastador, explorou outras partes do corpo sensual, incendiando pontos que Anna jamais imaginara que poderiam ser 
incendiados. Com sua lngua, boca e mos,
Daniel conduziu-a para o caminho da liberao. Ela nunca calculara que tortura podia ser uma coisa to gloriosa, ou que prazer pudesse ser to doloroso. Sua pele 
estava = mida quando ele afastou a ltima barreira.
Anna foi pega num nevoeiro de deleites... deleites secretos e ardentes. O ar estava pesado e tinha o gosto de Daniel quando ela tentou respirar mais fundo. Todos 
os lugares que ele tocava, incendiavam-se imediatamente. A barba roava na pele macia de sua barriga, produzindo uma sensao incrivelmente ertica. As mos dela 
encontraram os cabelos ruivos e os acariciaram, enquanto a luz do lampio parecia transformar tudo em fogo.                 
Com a mente girando, Anna passou os braos ao redor da cintura de Daniel. Ainda enlouquecida pelas sensaes prazerosas, rolou com ele, as mos procurando, alcanando, 
encontrando. Sentiu-o tremer e pressionou a boca na pele de Daniel, provando o gosto do desejo. Antes que ele pudesse antecipar, antes que pudesse se preparar, ela 
deslizou para baixo e o tomou dentro de si.
Sons explodiram em sua cabea. Talvez fosse seu nome nos lbios de Daniel. Arrepios lhe percorreram a pele. Podiam ser os dedos dele acariciando-a. Quando Anna jogou 
a cabea para trs, abandonada, entregue, viu os olhos dele nos seus. O azul profundamente brilhante continha seu prprio fogo, mais forte do que qualquer outro. 
Amor. Agarrando-se ao amor, Anna levou ambos para alm da razo.
Saciada e sem flego, com os olhos fechados, ela ainda absorvia tudo: o aroma de Daniel, a sensao da pele aquecida pela sua, o som da respirao dele, acelerada 
em seu ouvido, a viso da mo grande fechada fortemente em volta da sua.
Era l que Anna queria ficar. E se o resto do mundo e todas as outras necessidades pudessem ser ignoradas, ela ignoraria. Se Daniel pedisse alguma coisa agora, at 
mesmo se exigisse, Anna temia que poderia dar-lhe tudo.
Uma mo se moveu ao longo de suas costas. Possesso. Ela tremeu de leve e sabia que pouco podia fazer para impedir isso. Qualquer outra coisa que quisesse, qualquer 
outra coisa que fosse, pertencia a Daniel.
O corpo era to pequeno que parecia quase sem peso enquanto Anna estava deitada sobre ele. Daniel podia sentir os menores tremores, os pequenos choques aps a paixo. 
No podia viver sem ela. Podia negociar, usar truques e enrolar um concorrente, mas era incapaz de continuar funcionando sem a mulher pequena e sria, cuja mo ainda 
estava presa na sua.
Que seja do seu jeito, ento, droga. Mesmo enquanto praguejava interiormente contra a atitude de Anna, passou um brao ao seu redor.
- Voc vai se mudar para minha casa amanh. -Agarrando um punhado de cabelo, ele puxou-lhe a cabea para trs. - Vai arrumar as malas quando voltarmos para Boston. 
No vou passar nem mais uma noite sem voc.
Incapaz de falar, ela o encarou. Os olhos dele revelavam um misto de desejo e fria. Como lidar com um homem assim? Anna tinha a impresso de que levaria mais do 
que algumas semanas para aprender.
- Amanh?
- Isso mesmo. Voc se muda para minha casa amanh. Tem algo a dizer sobre isso?
Ela pensou por um momento, ento sorriu.
- E melhor voc abrir um espao no seu closet.


Dez

Anna fez o primeiro tour em sua nova casa sob a direo do tenso e aprumado McGee. Perguntou-se qual dos dois estava mais desconfortvel. Suas malas j tinham sido 
carregadas para o andar de cima quando Daniel fora chamado ao banco para tratar de negcios urgentes. Ele partira, irritado, com um beijo nela e a ordem para que 
McGee lhe mostrasse a casa. Ento, l estava Anna, com um mordomo educadamente indignado e uma cozinheira que mais tarde pretendia pr a cabea para fora da cozinha.
A primeira reao de Anna foi pensar em uma desculpa e ir para o hospital, aonde pertencia. Tirar a tarde de folga no era algo que tinha mais condies de fazer 
do que Daniel. Agora ele se fora e ela estava ali. Alguma coisa sobre as costas retas e postura determinada do homem que a conduzia escada acima a fez permanecer 
onde se encontrava. Para Anna, o orgulho andava de mos dadas com a dignidade. Tinha tomado uma deciso, e se um mordomo era o primeiro a desaprovar, aceitaria isso. 
Mais, iria aprender a conviver com aquilo. Comeando agora.
- Temos diversos quartos neste andar - McGee falou em tom baixo com seu sotaque irlands. - O escritrio do sr. MacGregor tambm fica neste andar, uma vez que ele 
considera isso conveniente.
- Entendo.
McGee passou o dedo sobre uma pequena mesa para checar se havia poeira, enquanto eles seguiam o corredor. Anna pensou que era uma sorte para a pessoa encarregada 
da limpeza que ele no tenha encontrado nenhum gro de p.
- O sr. MacGregor recebe parceiros de negcios de fora da cidade de tempos em tempos. Deixamos dois quartos de hspedes preparados. Esta  a sute principal. - Dizendo 
isso, McGee abriu a porta pesada de madeira.
O quarto era grande, como Daniel parecia preferir, mas escassamente decorado, como se passasse pouco tempo l. Ela imaginava que o escritrio dele fosse abarrotado 
de mveis e empilhado de papis, revelando mais do interior do homem do que seu quarto de dormir, o qual deveria ser o cmodo mais pessoal. No havia fotografias 
nem souvenir. A pintura era nova e as cortinas engomadas. Anna pensou se alguma vez ele as abria para olhar a vista. A cama era suficientemente grande para quatro 
pessoas, e de uma linda madeira entalhada. As malas de Anna estavam aos ps da cama.
Tinha esperado se sentir estranha, andando dentro do espao ntimo de Daniel pela primeira vez. No entanto, tudo que sentia era uma vaga curiosidade. Havia mais 
de Daniel MacGregor num penhasco acima do mar do que no quarto em que passava as noites. Mas aquele no era o momento de tentar montar um quebra-cabea onde no 
esperara encontrar um. Ergueu o queixo um pouquinho mais que o usual quando se virou para McGee.
- O sr. MacGregor no foi claro sobre o cuidado de arranjos domsticos. Esta  sua responsabilidade?
Se McGee pudesse ter tencionado mais a postura j rgida, o teria feito.
- Uma faxineira vem trs vezes por semana. Eu fiscalizo a limpeza. Todavia, o sr. MacGregor informou a mim e  cozinheira que a senhora poderia desejar mudanas.
Se Daniel entrasse pela porta naquele exato momento, Anna o estrangularia com alegria. Em vez disso, decidida, estudou o quarto mais uma vez.
- No acho que ser necessrio, McGee. Voc me parece um homem que no somente conhece seu trabalho, mas tambm o valor do mesmo.
O elogio feito friamente no o tornou mais dcil, nem era a inteno.
- Obrigado, senhora. Gostaria de ver o resto do segundo andar?
- No no momento. Vou desfazer as malas. - E ficar sozinha, pensou ela com desespero.
- Muito bem, senhora. - Com uma reverncia, ele foi para a porta. - Se precisar de alguma coisa,  s chamar.
- Obrigada, McGee. No vou precisar de nada.
No momento em que Anna fechou a porta, sentou-se na cama enorme. O que tinha feito? Cada dvida que fora capaz de esconder, colocar de lado ou enterrar at aquele 
ponto, voltara de repente. Havia sado da casa em que crescera, mudando-se no para seu prprio apartamento pequeno, mas para uma casa muito grande, onde era uma 
estranha. Uma usurpadora. E, para o srio McGee, obviamente uma Jezebel. Se no tivesse de lidar com seus prprios nervos, esse ponto poderia ser divertido.
Deixara uma me nervosa e um pai chocado, indo parar em um enorme quarto meio vazio. No estava no hospital, onde as dificuldades com as quais tinha de lidar eram, 
pelo menos, familiares. Nada ali lhe pertencia, exceto o que estava nas malas aos ps da cama.
Lentamente, deslizou a mo pela colcha branca da cama. Agora, noite aps noite, pensou, compartilharia aquela cama com Daniel. Dormindo ao seu lado, acordando ao 
seu lado. No haveria mais despedidas, boa noite e um retiro para privacidade. Ele estaria l, ao seu alcance. Assim como ela.
O que tinha feito?, perguntou-se de novo em pnico. Corajosamente, Anna absorveu as redondezas. Sua mo ainda alisava a colcha. Num espelho, no canto da parede, 
viu seu reflexo... pequena, plida e com olhos arregalados na cama grande demais. Viu tambm o reflexo de uma cmoda antiga de madeira, simples e bem masculina. 
As pernas tremeram um pouco quando se levantou e andou at o mvel. Os dedos pareciam fracos quando tirou a tampa de um vidro de colnia. Ento, sentiu o aroma de 
Daniel... ousado, vivido e msculo. Seu mundo pareceu firmar-se. No momento em que recolocou a tampa, suas mos eram firmes e competentes novamente.
O que tinha feito, perguntou-se pela ltima vez. Exatamente o que queria fazer. Com uma pequena risada de alvio, comeou a desfazer as malas.
No levou muito tempo para distribuir as coisas pelo cmodo. Tinha levado pouco mais do que roupas e alguns quadros favoritos de seu quarto. Entretanto, depois de 
tudo guardado e arrumado, sentiu-se mais  vontade e, de alguma maneira, mais em casa.  claro, eles teriam de providenciar uma cmoda que combinasse com os mveis 
do sculo XIX que Daniel escolhera para o quarto. As cortinas teriam de sair, dando lugar a alguma coisa mais suave e mais amigvel.
Satisfeita, olhou ao redor mais uma vez. Nunca lhe ocorrera que sentiria tanto prazer em tomar algumas decises domsticas bsicas. Talvez no fosse nada parecido 
com uma deciso de operar um paciente ou trat-lo com medicao, mas trazia um senso de satisfao. Talvez ela realmente pudesse ter tudo. No momento, pensou, iria 
comear procurando McGee e pedir-lhe que arranjasse algumas poltronas confortveis para a sute principal. E um bom abajur para leitura, decidiu, indo para o corredor. 
Se possvel, adicionaria uma pequena mesa para si mesma. O quarto era grande o bastante. Certamente, numa casa daquele tamanho, eles poderiam encontrar algumas coisas 
adequadas. Caso contrrio, ela simplesmente faria compras depois de seu turno no hospital no dia seguinte.
Chegando ao andar inferior, Anna ficou tentada a espiar a sala e a biblioteca, e procurar alguns mveis para mudar de lugar. Conteve-se pelo simples motivo de entender 
o que era orgulho. Se fizesse o projeto sozinha, poderia ofender McGee. Encontraria um jeito de fazer as mudanas que queria, sem ferir o ego do mordomo. McGee era 
parte da vida de Daniel. Se Anna quisesse transformar sua deciso num sucesso, teria de se certificar que ele seria parte de sua vida tambm.
Porque no pde pensar em nenhum outro lugar lgico para encontr-lo, ela se dirigiu para a cozinha. A alguns passos de distncia da porta, ouviu as vozes e parou.
- Se a moa  boa o bastante para MacGregor,  boa o bastante para mim. - Era uma voz feminina, mas com o mesmo sotaque escocs do mordomo. - No vejo motivo para 
a sua implicncia, McGee.
- No  implicncia. - Mesmo atravs da madeira, Anna detectou a fria indignao. - A garota no deveria estar aqui sem uma certido de casamento.
- Bobagem!
Com aquela exclamao seguida por uma risada, Anna decidiu que poderia gostar muito da cozinheira.
- Desde quando voc  juiz e confessor, eu gostaria de saber. Os MacGregors sabem o que fazem, e aposto que a moa tambm, ou ele no lhe daria um minuto de seu 
tempo. Quero saber como ela . Bonita?
- Bonita o bastante - murmurou McGee. - Pelo menos ela tem o bom senso de no se exibir.
- Exibir-se - repetiu a cozinheira, enquanto Anna balbuciava a frase com indignidade. - Uma mulher se enfeita para um homem e est se exibindo? Ela no faz isso 
e tem bom senso? No sei qual  o maior insulto. Agora, v cuidar de suas coisas, que vou cuidar das minhas, ou estarei ocupada para dar uma olhada na moa antes 
do jantar.
Anna estava tentando decidir se devia retirar-se ou entrar quando um grito de dor a fez correr para dentro da cozinha. McGee j estava sobre uma mulher rechonchuda 
de cabelos brancos. No cho, entre eles, havia uma faca de cabo longo manchada de sangue. Mesmo enquanto Anna se aproximava, mais sangue escorria para os ps deles.
- Deixe-me ver.
- Srta. Whitfield...
- Mova-se! - Abandonando o comportamento adequado, ela empurrou o mordomo de lado. Foi necessria s uma olhada para inform-la que uma escorregada da faca havia 
atingido o pulso da cozinheira e cortado uma artria. Em um instante, Anna pressionou seus dedos sobre o corte e deteve o sangramento.
- No foi nada, senhorita. - Mas lgrimas escorriam pelas faces da mulher. - Eu vou sujar voc.
- Quietinha. - Anna pegou um pano de prato seco  vista e jogou-o para McGee. - Rasgue isso em tiras, depois v buscar o meu carro.
Acostumado a responder a autoridade, ele comeou a rasgar o pano. Ainda segurando o pulso da cozinheira, Anna a conduziu para uma cadeira.
- Apenas acalme-se - murmurou com suavidade.
- Sangue - disse a cozinheira e empalideceu completamente.
- Ns vamos cuidar disso. - Anna continuou a falar de maneira calma, sabendo como seria difcil lidar com a grande mulher se ela desmaiasse. - McGee, amarre uma 
tira no brao dela, bem aqui. - Ela indicou o local enquanto continuava a fechar a artria com os dedos. - Certo, agora, qual  o seu nome?
- Sally, senhorita.
- Tudo bem, Sally. Quero que voc feche os olhos e relaxe. No aperte muito a tira - avisou para McGee. -Traga o carro rapidamente. Quero que voc dirija.
- Sim, senhora. - Sem sua usual postura digna, ele apressou-se para fora da cozinha.
- Agora, Sally, voc pode andar?
- Vou tentar. Estou um pouco tonta.
-  claro que est - murmurou Anna. - Apie-se em mim. - Vamos sair pela porta da cozinha direto para o carro. Chegaremos ao hospital em cinco minutos.
- Hospital? - Sob a mo de Anna, o brao da mulher comeou a tremer. - No gosto de hospitais.
- No h nada com o que se preocupar. Estarei do seu lado. Eu trabalho l. Alguns dos mdicos so muito bonitos. - Enquanto falava, ela ajudou a cozinheira a se 
levantar e conduziu-a para a porta. - To bonitos que vai se perguntar por que no se cortou antes. - No momento que atravessaram a porta, McGee estava l para assumir 
a maior parte do peso da mulher.
- Um bom trabalho de primeiros socorros, srta. Whitfield. - O dr. Liederman lavou as mos numa pia enquanto falava com Anna. - Sem isso, esta mulher poderia ter 
sangrado at morrer antes de chegar ao hospital.
Anna tinha dado uma boa olhada no ferimento e estimado a necessidade de dez pontos uma vez que a artria fosse fechada.
- Um pssimo lugar para uma faca escorregar.
- Temos suicidas que no fazem um trabalho to bom. Foi sorte dela por voc no ter entrado em pnico.
Anna arqueou a sobrancelha, imaginando se ele considerava aquilo um elogio.
- Se sangue me fizesse entrar em pnico, eu daria uma pssima cirurgia.
- Cirurgia, no? - Ela no tinha escolhido um caminho fcil. Ele olhou por sobre o ombro, enquanto terminava de tirar o sangue das mos. -  preciso mais do que 
habilidade para usar um bisturi, sabe?  necessrio confiana.
- Pensei que fosse arrogncia - replicou ela com um pequeno sorriso.
Levou vrios segundos antes que ele retornasse o sorriso.
- Um termo mais preciso. Agora, quanto  nossa paciente, ela ficar fraca por uns dois dias, e provavelmente com o curativo por duas ou trs semanas.
- Voc quer que o curativo seja trocado todos os dias?
- Sim, e mantenha o local seco. Eu a quero de volta em, duas semanas para tirar os pontos. - Ele virou-se ento, enxugando as mos. - Embora eu no ache que voc 
teria nenhum problema em executar o trabalho por si mesma.
Anna sorriu de novo.
- Eu nem pensaria nisso... antes de mais alguns meses.
- Sabe, srta. Whitfield, sua reputao  muito boa neste hospital.
Aquilo a surpreendeu, mas ela no demonstrou o prazer.
- Verdade?
- Sim. E isso vem de fonte segura. - Ele jogou a toalha de lado enquanto Anna apenas o olhava. - Das enfermeiras.
O prazer foi demonstrado agora.
- Fico feliz com isso.
- Voc est no seu ltimo ano da faculdade de medicina. J vi o bastante para julgar sua... confiana. Como so suas notas?
O orgulho fez Anna erguer o queixo.
- Excelentes.
Com uma pequena risada, ele a estudou.
- Fico satisfeito com isso. Onde quer fazer sua residncia?
- Aqui.
Ele estendeu-lhe uma mo.
- Procure por mim. Anna aceitou a mo firme.
- Farei isso.
Onde todos haviam se metido? Daniel tinha chegado em casa para encontr-la vazia. Impaciente para estar com Anna, subiu dois degraus de cada vez, e entrou na sute 
principal. Teve de olhar no closet para se certificar de que ela realmente estava l. Apesar de ter ficado contente em ver as roupas femininas penduradas organizadamente 
ao lado das suas, aquela no era bem a recepo que tinha em mente. Aps uma rpida checagem no segundo piso, desceu a escada de novo.
- McGee! - Amaldioando todos os empregados, parou com uma careta. J era ruim o bastante que sua mulher no estivesse em casa, mas agora seu mordomo havia desaparecido. 
- McGee!
Abrindo e batendo portas, seguiu o corredor. No esperara uma banda de msica, mas pensou que algum teria tempo de estar em casa quando ele chegasse. No momento 
em que entrou na cozinha, seus nervos estavam explodindo.
- Onde esto todos?
- Pode parar de gritar? - soou a voz baixa de Anna, que entrava no cmodo. -Acabei de coloc-la na cama.
- Um homem tem de ter o direito de gritar em sua prpria casa - comeou Daniel, ento sua raiva diminuiu o bastante para que visse sangue manchando a blusa e a saia 
de Anna. - Santo Deus! - Ele cobriu a distncia entre os dois em dois passos e a puxou para si. - O que fez consigo mesma? Onde est machucada? Vou lev-la para 
o hospital.
- Acabei de vir de l. - Mas ela no foi rpida o bastante para impedi-lo de peg-la no colo. - Daniel, esse no  o meu sangue. No estou machucada, Daniel! - Ele 
j estava quase fora da cozinha antes que ela pudesse det-lo. - Sally teve um acidente, no eu.
- Sally?
- Sua cozinheira - comeou ela.
- Eu sei quem  Sally - replicou ele, ento abraou-a apertado quando o alvio o percorreu. - Voc no est machucada?
- No. - O tom dela suavizou-se. - Estou bem - conseguiu dizer antes que a boca de Daniel se fechasse sobre a sua. O desejo foi despertado e, atravs do desejo, 
Anna sentiu o alvio de Daniel, o qual era quase to selvagem quanto. Emocionada, deixou-o receber todo o conforto que ele queria. - Daniel, eu no pretendia assustar 
voc.
- Bem, voc me assustou. - Ele a beijou de novo, e estava mais firme agora. - O que houve com Sally?
- Aparentemente, as mos dela estavam molhadas e Sally no estava to atenta ao que cortava quanto deveria. A faca escorregou e cortou-lhe o pulso, atingindo unia 
artria. Por isso houve tanto sangue.  um corte feio, mas McGee e eu a levamos para o hospital. Ela est descansando agora. E vai precisar de alguns dias de folga.
Pela primeira vez, Daniel notou a faca e o sangue no cho perto da pia. Praguejando, abraou Anna mais forte.
- Eu vou v-la.
- No, por favor. - Pela posio nos braos dele, ela conseguiu det-lo. - Sally est dormindo.  melhor esperar at amanh.
Sua cozinheira, seu mordomo, assim como todos os seus empregados, eram responsabilidade dele. Daniel olhou para a faca novamente e suspirou.
- Tem certeza de que ela est bem?
- Absoluta. Ela perdeu muito sangue, mas eu estava do lado de fora da porta quando isso aconteceu. Ento, assim que McGee percebeu que eu sabia o que estava fazendo, 
no poderia ter sido mais til.
- E onde ele est?
- Estacionando meu carro. Aqui est ele, agora - corrigiu Anna quando o mordomo entrou na cozinha.
- Sr. MacGregor - um pouco plido, mas aprumado como sempre, o mordomo continuou: -, vou limpar essa sujeira imediatamente. Lamento que o jantar v atrasar.
- Eu j soube. A srta. Whitfield falou que voc foi muito til, McGee.
Alguma coisa... poderia ter sido uma emoo... cruzou o semblante do mordomo.
- Infelizmente, fiz muito pouco, senhor. A srta. Whitfield foi muito eficiente e, se me permite dizer, senhor, corajosa.
Anna teve de reprimir uma risada.
- Obrigada, McGee.
- No se preocupe com o jantar. Ns cuidaremos disso.
- Est bem, senhor. Boa noite, senhora.
- Boa noite, McGee. - A porta da cozinha se fechou. - Daniel, voc pode me pr no cho agora.
- No. - Com facilidade, ele foi para a escada. - Essa no era a recepo que eu esperava de voc.
Anna no tinha imaginado o quanto era bom ser carregada como se voc fosse uma coisa preciosa.
- Eu tambm no tinha planejado dessa forma.
Ele parou no meio da escada para roar-lhe o pescoo.
- Sinto muito.
- No foi culpa de ningum.
Deus, o gosto de Anna era to maravilhoso. Toda a fome que sentia podia ser saciada somente com ela.
- Voc arruinou a sua blusa.
- Agora voc est soando como Sally. Ela falou sobre isso durante todo o caminho para o hospital.
- Eu lhe comprarei uma nova.
- Graas a Deus - brincou Anna e riu. - Daniel, ns no temos nada mais importante para fazer do que nos preocuparmos com minha blusa?
- Sabe no que pensei durante todo o tempo que fiquei naquela reunio maldita?
- No. Em qu?
- Em fazer amor com voc. Na minha cama. Nossa cama.
- Entendo. - Quando Daniel abriu a porta, Anna uniu as mos atrs do pescoo dele. Sua pulsao j comeava a acelerar. Antecipao. Imaginao. - Sabe no que pensei 
quando estava desfazendo as malas?
- No. Em qu?
- Em fazer amor com voc. Na sua cama. Nossa cama.
Ouvi-la dizer aquilo fez o quarto que ele raramente notava parecer especial.
- Ento, devemos fazer algo sobre isso.
Com as mos de Anna ainda ao redor de seu pescoo, Daniel tombou com ela sobre a colcha branca macia.
Era mais fcil viver com Daniel, acordar e dormir ao seu lado do que Anna poderia ter imaginado. Parecia-lhe que a parte de sua vida sem ele no tinha sido nada 
alm de antecipao. Todavia, as primeiras semanas juntos no foram sem ajustes. Apesar de Anna ter morado a maior parte de sua vida com os pais e o resto no campus 
universitrio, sempre fora capaz de fazer as coisas no seu ritmo e proteger sua privacidade.
Acordar com algum ao seu lado era uma questo muito diferente. Especialmente quando essa pessoa era um homem que considerava as horas gastas no sono um desperdcio 
de tempo vital. Daniel MacGregor no era algum que se demorava preguiosamente na cama ou durante o caf. Manhs eram para os negcios, e comeavam no momento em 
que ele abria os olhos.
Porque seu sistema tinha um ritmo diferente, ela geralmente se encontrava bebericando sua primeira xcara de caf, enquanto Daniel estava terminando sua segunda 
e ltima. Despedidas eram breves e apressadas, mas sempre romnticas. Daniel e sua maleta estavam fora da porta antes que a mente de Anna estivesse completamente 
pronta para funcionar. No exatamente uma lua-de-mel, pensou ela mais de uma vez quando se acomodava para um caf da manh solitrio, mas era uma rotina com a qual 
podia conviver.
No momento em que dirigia para o hospital, Daniel j estava negociando. Enquanto dobrava roupas de cama e lia para pacientes, ele comprava aes e planejava fuses. 
Morando com ele, Anna tinha uma melhor viso do quanto Daniel era poderoso e de quanto potencial tinha para se tornar ainda mais poderoso. Ela mesma havia atendido 
o telefonema de um senador e transmitido um recado do governador de Nova York.
Poltica, comeava a perceber, era um aspecto da carreira dele que ela nunca considerara. Daniel tambm tinha contatos e interesses no campo do entretenimento. Um 
telegrama de um produtor famoso ou de um ator principiante no era incomum. Embora raramente freqentasse bales ou peras, Anna descobriu que Daniel fazia enormes 
contribuies para as artes. Teria sentido mais prazer se no entendesse que as doaes eram feitas por propsitos de negcios.
Cultura, poltica, mercado de aes ou projetos de construo... eram todos negcios para Daniel. E, embora Anna soubesse que negcios consumiam-lhe o tempo e a 
vida, ele dissimulava as perguntas dela com o equivalente a um carinho na cabea. Cada vez que isso acontecia, ela tentava ignorar a pequena onda de frustrao. 
Com o tempo, disse a si mesma, ele compartilharia. Com o tempo, lhe daria confiana e respeito.
A vida e o tempo de Anna eram consumidos pelo hospital, por seus estudos e por sua preparao para o ltimo ano da universidade. Daniel raramente lhe perguntava 
sobre coisas que envolviam medicina. Quando o fazia, Anna percebia isso como apenas um interesse educado e falava pouco.
Eles passavam as noites demorando-se durante uma refeio ou tomando um caf na sala. Nenhum dos dois falava sobre ambies, desejos internos ou necessidades profissionais. 
Enquanto estavam contentes apenas na companhia do outro, parecia como se uma sombra tivesse descido sobre parte da vida de ambos. Nenhum deles queria ser o primeiro 
a erguer a veneziana.
Haviam abdicado da vida social, passando a maior parte do tempo sozinhos em casa. Quando se socializavam, era com os recm-casados Ditmeyer. De vez em quando, havia 
um filme, e eles se sentavam numa sala escura de mos dadas, esquecendo-se das presses do dia e das incertezas do futuro. Aprenderam um sobre o outro... os hbitos, 
os caprichos e as contrariedades. O amor era tranqilo e aprofundava-se. Mas, mesmo enquanto isso acontecia, ambos se afligiam sobre o que estava faltando no relacionamento. 
Daniel queria casamento. Anna queria parceria. Ainda no haviam descoberto como combinar as duas coisas.
O calor do vero aumentou em agosto. Fervia nas ruas e pairava no ar. Aqueles que podiam, escapavam para a praia. Nos finais de semana, Daniel e Anna saam da cidade 
para passear. Por duas vezes, fizeram piquenique na terra de Daniel em Hyannis Port. Podiam fazer amor l to livremente e sem restries quanto haviam feito da 
primeira vez. Riam ou simplesmente cochilavam sobre o gramado. E foi l, inesperadamente, que Daniel comeou a pression-la de novo.
- Eles vo comear a trabalhar aqui na prxima semana - disse ele um dia enquanto compartilhavam o fim de uma garrafa de Chablis.
- Na prxima semana? - Surpresa, Anna acompanhou-lhe o olhar para o espao vazio onde seria a casa dele. Daniel podia ver a casa, ela sabia, como se j estivesse 
construda, as pedras brilhando com o sol. - Eu no sabia que seria to cedo. - Ele no lhe contara. No lhe mostrara a planta ou comentara nenhum dos planos que 
eram to importantes, embora Anna tivesse perguntado.
Ele meramente deu de ombros.
- Teria sido mais rpido, mas tive de cuidar de outras coisas antes.
- Entendo. - E ele no tinha considerado importante mencionar as outras coisas tambm. Anna reprimiu um suspiro e tentou aceitar aquilo. - Sei que a casa  importante 
para voc e que ser linda, mas vou sentir falta disso. - Quando Daniel a olhou, ela sorriu e tocou-lhe o rosto. - E to pacfico aqui, to isolado... apenas gua, 
pedras e grama.
- Ser todas essas coisas depois que a casa estiver de p. Depois que estivermos morando nela. - Sentindo a leve tenso de Anna, ele pegou-lhe a mo. -A construo 
no ser rpida... as melhores coisas no so. Levar dois anos antes que a casa esteja pronta para ns. Mas nossos filhos vo crescer aqui.
- Daniel...
- Eles iro. -Ele apertou-lhe os dedos, interrompendo-a. - E toda vez que fizermos amor nessa casa, vou me lembrar da nossa primeira vez. Daqui a cinqenta anos, 
ainda vou me lembrar de nossa primeira vez aqui.
Era praticamente impossvel resistir a Daniel quando ele se encontrava naquele estado sonhador. Era mais perigoso quando falava calmamente, mas de maneira intensa 
e profunda. Por um momento, Anna quase acreditou nele. Ento pensou na longa distncia que teriam de percorrer.
- Voc est pedindo por promessas, Daniel.
- Sim. Eu espero promessas.
- No espere.
- E por que no? Voc  a mulher que quero, a mulher que me quer. Est na hora de promessas entre ns. - Segurando-lhe a mo com firmeza, alcanou seu bolso e retirou 
uma pequena caixa de veludo. - Quero que voc use isto, Anna. - Com um movimento do polegar, abriu a caixa para revelar um lindo diamante em formato de pra.
Um n formou-se na garganta de Anna. Parte da emoo era a perplexidade diante da beleza pura do anel. O resto era medo do que o smbolo significava: promessas, 
votos, compromissos. Ela queria, ansiava, temia.
- Eu no posso.
-  claro que pode. - Quando Daniel comeou a tirar o anel da caixa, Anna colocou as duas mos sobre a dele.
- No, no posso. No estou pronta para isso, Daniel. Tentei explicar para voc.
- E tenho tentado entender. - Mas sua pacincia estava no fim. Cada dia que vivia com Anna, tinha de aceitar metade do que necessitava. - Voc no quer casamento, 
pelo menos no agora. Mas um anel no  casamento,  apenas uma promessa.
- Uma promessa que no posso lhe fazer. - Mas ela queria. Cada dia que passava, queria mais aquilo. - Se eu aceitasse seu anel, estaria lhe prometendo algo que talvez 
eu no possa cumprir. No posso fazer isso. Voc  muito importante.
- Isso no faz sentido. - Daniel tinha esperado sentir frustrao. Mesmo quando comprara o anel, sabia que Anna no o usaria. De alguma maneira estranha, sabia at 
mesmo que ela estaria certa. Mas tal conhecimento no diminua a dor. - Sou importante para voc, mas no pode aceitar meu anel.
- Oh, Daniel, eu o conheo. - A tristeza cobriu o semblante de Anna quando lhe segurou o rosto nas mos. - Se eu aceitasse este anel, daqui um ms, voc estaria 
me pressionando para aceitar um anel de casamento. s vezes, acho que voc nos v como uma fuso.
- Talvez eu veja. - Raiva brilhou nos olhos azuis, mas ele a controlou. Tinha descoberto que podia fazer isso quando era com Anna que estava zangado. - Talvez seja 
a nica maneira de ver que conheo.
- Talvez - concordou ela calmamente. - E talvez eu esteja tentando entender isso.
- Voc faz parecer que isso  um teste - murmurou ele. Quando ela olhou para cima, atnita, Daniel continuou no mesmo tom: - No tenho certeza se estou em teste, 
Anna, ou se voc est.
- No  assim. Voc faz isso soar como uma coisa fria e calculada.
- No mais calculada do que uma fuso.
- No vejo a nossa relao como um negcio, Daniel.
Ele via? Com uma sensao de desconforto, percebeu que estava vendo o relacionamento exatamente dessa forma, mas agora no tinha mais certeza.
- Talvez seja hora de voc me dizer como v a nossa relao.
- Voc me assusta. -As palavras de Anna saram com tanta rapidez e fora, que os dois permaneceram sentados em silncio por diversos minutos.
- Anna. - Porque aquela tinha sido a ltima resposta que ele esperara dela, falou em tom baixo e hesitante: - Eu nunca fiz nada para mago-la.
- Eu sei. - Ela pensou no anel na caixinha, na imagem da casa atrs deles, e levantou-se com os nervos  flor da pele. - Na verdade, voc me trata como um cristal 
precioso, como alguma coisa que precisa ser protegida, cuidada e admirada. De alguma forma,  mais fcil quando voc perde a pacincia e grita comigo.
Daniel no podia fingir que a compreendia. Mas levantou-se e se colocou atrs dela.
- Ento, vou gritar com mais freqncia.
- Tenho certeza que vai - murmurou ela -, quando eu frustr-lo ou discordar de voc. Mas, o que vai acontecer quando eu lhe der tudo que voc quer? - Anna virou-se 
para ele, os olhos marejados de emoo. - O que vai acontecer quando eu disser tudo bem, desisto?
Ele segurou-lhe as mos, temendo que Anna se virasse de novo.
- No sei sobre o que voc est falando.
- Acho que no fundo, sabe. Acho que sabe que parte de mim quer exatamente o mesmo que voc. Mas, algum de ns sabe se quero isso por mim mesma ou somente para agrad-lo? 
Se eu disser sim e me casar com voc amanh, eu teria de jogar todo o resto fora.
- No  o que estou lhe pedindo. Eu no faria isso.
- No faria? - Anna fechou os olhos por um momento, lutando por compostura. - Pode me dizer com certeza se vai aceitar e respeitar a doutora Anna Whitfield da mesma 
maneira que me aceita e me respeita agora?
Ele comeou a falar rapidamente, mas os olhos de Anna estavam muito escuros, muito vulnerveis. No poderia haver nada com ela, exceto a verdade.
- Eu no sei.
Anna suspirou. Daniel teria mentido se soubesse o quanto ela queria ouvir aquilo? E, se tivesse mentido, ela teria aceitado o anel e feito a promessa?
- Ento, d tempo a ns dois at que tenhamos certeza. - Porque ele soltou-lhe as mos, os braos de Anna estavam livres para envolv-lo. - Se eu aceitar o seu anel, 
vai ser com todo o meu corao, com tudo que sou, e ser para sempre. Uma vez que estiver no meu dedo, ficar para sempre. Isso eu posso lhe prometer. Ambos precisamos 
ter certeza que o anel pertence a meu dedo.
- Isso pode esperar. - O anel foi guardado no bolso de Daniel. Anna estava em seus braos. Eles estavam sozinhos e a brisa de vero era suave. Quando ele ergueu-lhe 
o rosto, pousou a boca sobre a dela. - Isso no pode - murmurou e levou-a consigo para o gramado.


Onze

Anna aceitou a notcia de que eles iriam receber o governador com bastante calma. Seus pais e avs haviam recebido dignitrios de tempos em tempos. Ela fora treinada 
a preparar um cardpio impressionante, sabia que vinhos pedir e que usque servir. No era fazer aquilo que realmente a estava incomodando. Era o fato de que Daniel 
simplesmente presumira que ela o faria.
Ela poderia ter lhe dito isso, pensou enquanto dirigia do hospital para casa. Poderia ter relembrado-o que passava o dia entre o hospital e seus estudos, e no tinha 
tempo ou inclinao para planejar se serviria ostras Rockefeller ou coquilles St. Jacques de entrada. Poderia e teria tido um breve momento de satisfao. Ento, 
passaria o resto do tempo se sentindo culpada por ser mesquinha e egosta.
Aquela seria, afinal de contas, a primeira vez que eles dariam um jantar como casal. E isso era importante para Daniel. Ele queria, Anna sabia, exibi-la, assim como 
oferecer um jantar memorvel ao governador. O que devia t-la aborrecido, mas, de alguma maneira, se sentia lisonjeada. Meneando a cabea, admitiu que Daniel podia 
fazer coisas estranhas com bom senso. Ento, poderia exibi-la, ela no o desapontaria. O tempo que levaria para preparar o jantar seria to divertido como trabalhar.
Para ser honesta, Anna teve de admitir que preparar um jantar lhe era to natural quanto recitar os nomes dos ossos do corpo. O que a lembrou de que queria dar uma 
olhada em Sally assim que chegasse em casa.
Em casa. Aquilo a fez sorrir. Somente trs semanas haviam passado desde que desfizera as malas no quarto de Daniel. Era o quarto deles agora. Podia ter dvidas quanto 
ao amanh,  prxima semana, ao prximo ano, mas no possua nenhuma sobre hoje. Sentia-se feliz. Viver com Daniel tinha acrescentado uma dimenso  sua vida que 
jamais esperara. Porque isso era verdade, como podia explicar que continuar como estavam era o melhor caminho? A idia de casamento ainda lhe dava arrepios na coluna. 
Arrepios que provavam falta de confiana, admitiu. Mas em quem no confiava? Em Daniel ou em si mesma? No tinha esquecido que ele a acusara de colocar ambos em 
teste. Talvez ela estivesse em teste, mas somente porque temia mago-lo, tanto quanto temia ser magoada.
Havia momentos em que tudo parecia to claro! Eles se casariam, teriam filhos, compartilhariam a vida. Anna seria mdica e desenvolveria suas habilidades at o mximo 
de seu potencial. Daniel ficaria orgulhoso de suas realizaes, assim como ela ficava das dele. Ela teria tudo que qualquer mulher pudesse desejar, e muito mais. 
Isso poderia acontecer. Iria acontecer.
Ento, Anna lembrou-se de como Daniel mal se interessava pelo seu trabalho no hospital. Recordou-se de como se fechava em seu escritrio, tratando de negcios que 
nunca discutia com ela. E como nunca perguntava sobre os livros de medicina que agora se acumulavam no quarto. Nem uma vez mencionou o fato de que ela voltaria para 
Connecticut em questo de semanas... ou se planejava acompanh-la.
Duas pessoas podiam compartilhar uma vida, compartilhar amor e no dividir o que era mais vital para ambos? Se Anna tivesse a resposta para essa pergunta, poderia 
parar de questionar todo o resto.
Meneando a cabea, estacionou o carro na garagem. Recusava-se a ficar triste agora. Estava em casa, e isso era o bastante.
Quando entrou na cozinha, Sally estava abaixada, mexendo alguma coisa no forno.
- Voc deveria descansar essa mo.
- Ela j descansou tudo que precisava. - Sem virar-se, Sally pegou uma xcara. - Voc est um pouco atrasada hoje.
- Houve um acidente de carro. Muitos feridos na emergncia. Fiquei mais tempo para segurar algumas mos.
Sally serviu caf e colocou a xcara sobre a mesa.
- Voc preferia estar cortando e costurando.
Com um pequeno suspiro, Anna se sentou diante do caf.
- Sim.  to difcil no poder fazer nem as pequenas coisas de que sou capaz. No tenho nem permisso para tirar a presso sangnea.
- No vai demorar para que voc faa muito mais que isso.
- Vivo repetindo a mim mesma: mais um ano, s mais um ano. Mas sou impaciente, Sally.
- Voc e MacGregor tm isso em comum. - Sabendo que seria bem-vinda, Sally levou sua prpria xcara de caf  mesa e acomodou-se. - Ele telefonou para avisar que 
vai se atrasar, e disse que voc pode jantar antes, se no quiser esper-lo... mas aposto que ele gostaria que voc esperasse.
- Eu posso esperar. Voc sente alguma dor nessa mo?
- Fica um pouco rgida quando eu acordo, mas depois no sinto quase nada, mesmo quando a uso muito. - Ela ergueu a mo, admirando a cicatriz que corria pelo pulso. 
- Foi bem costurada. No acho que eu poderia ter feito melhor. - Ento, com um sorriso, abaixou a mo. - Suponho que costurar pele seja diferente de costurar pano.
- A tcnica  bem parecida. - Anna deu um tapinha na mo machucada. - Uma vez que Daniel vai se atrasar, este pode ser um momento para estudarmos o menu da semana 
que vem. Tenho algumas idias, mas se voc tiver alguma especialidade... - Ela parou e inalou o ar. - Sally, o que voc tem no forno?
- Torta de pssego. - Ela sorriu. - Receita de minha av.
- Oh. - Anna fechou os olhos e deixou o aroma envolv-la. - Torta de pssego numa noite de vero. A que horas Daniel vai chegar?
- s oito.
Anna olhou para seu relgio.
- Sabe, tenho a impresso de que vou precisar de energia para trabalhar naquele menu. - Ela sorriu quando se levantou para pegar papel e lpis. - Provavelmente necessitarei 
comer alguma coisinha antes do jantar.
- Um pedao de torta de pssego, talvez?  
- Seria timo.
Quando Daniel chegou, Anna ainda estava na cozinha. Livros de receitas, listas e pedaos de papel estavam espalhados sobre a mesa onde ela e Sally estavam sentadas. 
Entre as duas, havia meia torta de pssego e o restante de uma garrafa de vinho.
- No me importo o quanto queremos impressionar o governador - disse Anna com a cabea perto da de Sally. - No vamos servir midos de carneiro. Eu ficaria verde 
se tivesse de comer alguma coisa com tripas.
- Voc vai ser uma boa cirurgia se sentir nuseas.
- No sinto nuseas sobre o que tenho de ver ou segurar nas mos. O que vai no meu estmago  uma questo diferente. Voto por coq au vin.
- Boa noite, moas.
Anna ergueu a cabea, e o sorriso que j tinha no rosto ampliou-se quando o viu.
- Daniel. - Ela estava em p, segurando-lhe ambas as mos. - Sally e eu estamos planejando o jantar do governador. Lamento por ter ofendido o prato escocs de midos 
de carneiro, mas acho que nossos convidados se sentiro mais confortveis com coq au vin.
- Deixarei isso com vocs duas - murmurou ele, e inclinou-se para um beijo. - As coisas demoraram mais do que pensei. Ainda bem que no me esperou para jantar.
- Jantar? - Ela ainda segurava-lhe as mos, mais por apoio do que por qualquer outra coisa. At se levantar, no tinha percebido como estava tonta pelo vinho. - 
Sally e eu s experimentamos a torta de pssego. Quer um pedao?
- Mais tarde. Mas eu gostaria de um copo desse vinho, se  que sobrou algum. - Os olhos dele estavam ardendo de ter lido tantas pginas impressas.
- Oh. - Anna olhou para a garrafa, perguntando-se como podia estar quase vazia.
- Vou tomar um banho antes.
- Vou acompanh-lo at l em cima. - Ela manuseou a pilha de papis at encontrar o que queria. - Eu gostaria de ler esta lista de convidados para voc, de modo 
que possa adicionar algum que eu tenha esquecido antes de enviarmos os convites.
- Tudo bem. V para a cama, Sally. Eu me sirvo da torta quando estiver pronto.
- Sim, senhor. Obrigado.
- Voc parece cansado, Daniel. Foi um dia difcil?
- No mais do que a maioria. - Ele passou o brao ao redor dela enquanto subiam a escada. -Alguns problemas com uma negociao que estou fazendo. Acho que resolvemos.
- Voc pode falar sobre isso?
- Eu no trago problemas para casa. - Ele apertou-a com carinho. - Passei a tarde com seu pai.
- Verdade? - Anna sentiu uma onda de emoo, mas manteve o tom de voz neutro. - Como ele est?
- Bem, e mantendo os negcios separados de assuntos pessoais.
- Sim. - O sorriso dela era um pouco tenso quando eles alcanaram o topo da escada. - Suponho que seja melhor assim.
- Ele perguntou por voc. - A voz de Daniel era mais gentil agora, porque passara a conhec-la.
- Perguntou? 
- Sim.
Anna entrou primeiro, depois que Daniel abriu a porta do quarto. Sentindo calor, foi para a janela inclinar-se sobre o parapeito.
- Talvez, se eu o contratar, ele pare de me evitar - zombou ela.
- Ele est apenas preocupado com a filha.
- No h nada com que se preocupar.
- Ele ver isso por si mesmo no jantar da prxima sexta-feira.
Anna o fitou, a lista de convidados ainda na mo.
- Ele vir?
- Sim, ele vir.
Anna deu um pequeno suspiro antes de sorrir novamente.
- Suponho que tenho de agradecer a voc por isso.
- Talvez, mas acho que sua me foi uma influncia maior do que eu. - Ele jogou o palet e a gravata em uma das poltronas que Anna tinha posicionado diante da lareira. 
Enquanto Daniel desabotoava a camisa, ela sentiu o aroma das ervilhas-de-cheiro que cresciam em um vaso sobre a mesa perto da janela. Pequenas coisas, coisas enormes. 
Daniel parou de se despir para segur-la forte em seus braos.
Anna sentiu a abrupta e intensa emoo que o dominava. Circulando-lhe a cintura, deixou o sentimento espalhar-se pelo seu corpo. Daniel beijou-lhe o topo da cabea 
antes de afast-la.
- Para que foi isso?
- Por voc estar aqui - disse ele. - Por voc existir.
- Com um pequeno suspiro de alvio, tirou os sapatos.
- Eu no vou demorar. Por que no l os nomes dessa lista para mim? - Em poucos movimentos, acabou de se despir e entrou no banheiro.
Franzindo o cenho, Anna olhou para a pilha de roupas no cho. Imaginou se algum dia se acostumaria com o jeito bagunceiro de Daniel para esse tipo de coisa. Ignorando 
a bvia alternativa, pisou sobre as roupas. Uma mulher que recolhesse as roupas de um homem adulto estava procurando por problemas.
- H o governador e a esposa,  claro - comeou ela em voz alta. - E o intendente municipal e a sra. Steers.
Daniel respondeu com uma descrio precisa do intendente municipal. Anna pigarreou e fez uma anotao na lista para sentar aquele casal em particular bem longe dos 
anfitries.
- Myra e Herbert. Os Maloney e os Cook. - Ela levantou mais o tom de voz sobre o som da gua. Ainda se sentindo quente, abriu os primeiros trs botes da blusa. 
- Os Donahue, com John Fitzsimmons para agentar Cathleen. - Anna piscou para a lista porque sua viso estava nublada.
- John, o qu?
- Fitzsimmons... simmons. Fitzsimmons - repetiu ela quando conseguiu pronunciar o nome difcil. - E Carl Benson e Judith Mann. Myra disse que eles esto prestes 
a ficar noivos.
- Ela tem um corpo... - Daniel conteve-se. -  uma mulher muito atraente - corrigiu. - Quem mais?
Anna entrou no banheiro com os olhos estreitos.
- Ela tem um corpo, como?
Atrs da cortina, Daniel apenas sorriu.
- Perdo? - Para a surpresa dele, Anna abriu a cortina. - Mulher, nada  sagrado?
- Como  o corpo de Judith Marm?
- Como vou saber? - Por segurana, ele enfiou a cabea embaixo do jato de gua. -  melhor voc fechar a cortina. Vai se molhar.
- E como voc saberia? - exigiu ela e entrou, totalmente vestida, dentro do chuveiro.
- Anna! - Rindo, ele viu a blusa dela ensopar-se. - Que diabos est fazendo?
- Tentando receber uma resposta direta. - Ela balanou a lista agora molhada diante dele. - O que voc sabe sobre a anatomia de Judith Mann?
- Apenas o que um homem com uma boa viso pode ver. - Daniel segurou-lhe o queixo e deu-lhe uma boa olhada. -Agora que estou pensando sobre isso, acho que vejo uma 
outra coisa.
Ela ps uma mo no peito ensaboado dele para equilibrar-se.
- E o que ?
- Voc est embriagada, Anna Whitfield. O sentimento de dignidade a dominou.
- Como disse?
A resposta dita de maneira arrogante o encantou. Daniel afastou os cabelos molhados dos olhos dela.
- Voc est embriagada - repetiu ele.
- No seja ridculo.
-  assim que voc est. Embriagada como uma construtora de telhado irlands e duas vezes mais bonita. Eu juro.
- Pode jurar, mas nunca fiquei bbada um nico dia da minha vida. Voc s est tentando fugir da pergunta.
- Qual  a pergunta?
Ela abriu a boca, ento voltou a fech-la, depois sorriu.
- No me lembro. Eu j lhe disse que voc tem um corpo magnfico, Daniel?
- No. - Ele a puxou para si antes de comear a despi-la. - Por que no me diz?
- Msculos peitorais to bem desenvolvidos. A blusa de Anna caiu com um som abafado.
- E onde esto os msculos?
- Bem aqui - murmurou ela e deslizou a mo pelo peito dele. - Os deltides so muito firmes. E,  claro, os bceps so impressionantes, no exageradamente musculosos, 
mas slidos. -As mos delicadas deslizaram pelos ombros fortes enquanto ele lhe tirava a saia. - Eles mostram no apenas fora, mas tambm disciplina... como o abdome... 
muito liso e firme. - A respirao de Daniel acelerou quando ela explorou ali.
- Diga-me, Anna - ele baixou a boca para a orelha dela e comeou a tra-la com a lngua -, quantos msculos tm a?
Anna jogou a cabea para trs, e a gua caiu sobre ela. Nua, molhada, dcil, sorriu-lhe.
- H mais de seiscentos msculos no corpo, todos atados a 206 ossos que formam o esqueleto.
- Fascinante. Pergunto-me quantos deles voc pode apontar em mim.
- Podemos comear com os msculos de seus membros inferiores. Admiro seu andar. 
- Admira?
- Sim,  muito firme e arrogante, mas no exatamente presunoso. Isso,  claro, tem alguma coisa a ver com a sua personalidade, mas voc tambm precisa de seus msculos 
antigravidade, tais como os sleos... - Ela abaixou-se para deslizar um dedo na panturrilha grossa. A gua caiu sobre os cabelos de Anna. - O msculo vasto - continuou, 
correndo um dedo pela coxa dele, e... Com um murmrio de aprovao, deslizou as mos ao redor das ndegas de Daniel.
Ele sorriu e permitiu-se aproveitar. Nunca tivera uma mulher que lhe desse uma aula to interessante.
- Pensei que esse msculo tivesse mais a ver com o ato de se sentar. As coisas que voc aprende na aula de anatomia.
Daniel desligou o chuveiro e pegou uma toalha para cobrir os dois.
- O msculo glteo - com um pequeno gemido, ela apalpou-lhe as ndegas novamente - precisa se estender o bastante, caso contrrio voc teria uma tendncia a inclinar-se 
para frente quando anda.
- No posso fazer isso - murmurou ele enquanto a pegava nos braos. - Especialmente quando estou carregando uma carga preciosa.
- E este  um de seus msculos mais atraentes.
- Obrigado. - Jogando a toalha de lado, ele deitou-se com Anna na cama. O ar quente noturno brincou com as peles midas.
- Agora, os adutores, os msculos no interior das coxas.
- Mostre-me.
- Bem aqui. - Os dedos de Anna passearam por aquele local enquanto Daniel lhe cobria a boca com a sua.
Com os olhos semicerrados, ela suspirou e roou o nariz nele.
- No acho que voc esteja prestando ateno.
- Oh, estou sim. Os adutores, bem aqui. - Dedos fortes passaram entre as pernas de Anna. - Bem aqui - repetiu ele. - Onde sua pele  como seda e j est quente para 
mim. E aqui. - A mo grande traou a rea sensvel onde quadril e coxa se juntavam. - Quais so esses msculos aqui?
- Eles so... - Mas ela pde apenas gemer e arquear-se contra ele.
Daniel mordiscou-lhe o lbulo da orelha.
- Voc esqueceu?
- Apenas me toque - sussurrou ela. - No importa onde.
Com um som de triunfo, ele a tocou, acariciando-a, explorando-a, provocando-a. Como argila, ela parecia disposta a ser moldada. Como o fogo, tentava e ousava. Como 
uma mulher, dava e recebia. As mos de Anna eram to vidas quanto as dele, os lbios sedentos da mesma maneira. A pele deles, seca pela brisa de vero, agora estava 
mida de excitao.
Cada vez que faziam amor, pensou Anna atordoada de paixo, era mais excitante, mais maravilhoso. Na primeira vez, na centsima vez, o desejo nunca diminua. Num 
campo de grama ou em travesseiros de pena, era sempre magia. A luz do dia ou na noite escura e secreta, o ato de amor era sempre frentico. Ela jamais pararia de 
desej-lo. De todas as perguntas que fazia a si mesma, tinha certeza de uma resposta. O desejo fsico por Daniel nunca morreria.
Eles rolaram sobre a cama grande, os corpos em chamas, perdidos um no outro. Envolvida em prazer, Anna ergueu-se, as costas arqueadas, os olhos fechados, os cabelos 
selvagens molhados. O feixe de luz do quarto ao lado lanava uma aurola que a envolvia, a qual parecia tremer com seu xtase. Enlouquecido, Daniel foi para ela, 
de modo que, ajoelhando-se sobre a cama, eles podiam dar prazer um ao outro. Fracos, vibrando, tombaram na cama novamente e deram o ltimo passo para dentro da pura 
paixo.
Os membros de Anna estavam em volta do corpo msculo. O rosto enterrado contra o pescoo de Daniel enquanto ofegava fortemente. Seus dedos enterraram-se nas costas 
largas, sentindo a pele suada. Enquanto Daniel se movia em seu interior, movia-se com ela, Anna viajou no carrossel, voou na montanha russa e perdeu-se no labirinto.
- Voc est deslumbrante. - Daniel a olhou enquanto ela se estudava no espelho. -Absolutamente deslumbrante.
Agradava-a ouvir aquilo, embora nunca tivesse se importado muito com elogios. O vestido deixava-lhe os ombros nus, e caa com leveza at a altura dos tornozelos. 
Prolas enfeitavam o corpete e danavam ao longo da saia. Myra a convencera de compr-lo, embora no tivesse sido necessria muita persuaso. Verdade, ela tinha 
precisado gastar uma boa parte das economias que estava reservando para viver fora do campus durante o outono, mas confiava que encontraria um meio de equilibrar 
suas finanas. A expresso no rosto de Daniel e a satisfao que sentia ao ver seu prprio reflexo faziam tudo valer a pena.
- Voc gosta?
Como ele podia explicar, apesar de conhecer cada centmetro do corpo de Anna, que apenas olh-la ainda tinha o poder de tirar-lhe o flego? Ela estivera certa quando 
pensou que Daniel queria exibi-la. Quando um homem possua uma coisa extraordinria, queria compartilh-la. No, no podia explicar.
- Gosto tanto que desejaria que a noite j tivesse acabado.
Ela deu um ltimo giro, tanto para ele quanto para si mesma.
- Voc est lindo neste palet. Um brbaro elegante. Daniel arqueou uma sobrancelha.
- Brbaro?
- Nunca mude isso. - Anna estendeu as duas mos e pegou a dele. - No importa o que mais tem de mudar, no mude isso.
Ele levou-lhe as mos aos lbios, beijando dedo por dedo.
- Duvido que eu poderia, da mesma forma que voc no poderia deixar de ser uma dama... mesmo depois de muito vinho e torta de pssego.
Ela tentou permanecer sria, mas riu.
- Voc nunca vai me deixar esquecer disso.
- Deus, no. Foi uma das noites mais fascinantes da minha vida. Sou louco por voc, Anna.
- Assim voc diz. - Ela ergueu as mos unidas dos dois para o rosto. - Isso  mais uma coisa que no quero que voc mude.
- Eu no mudarei. Gosto de v-la usando o camafeu. -Daniel passou um dedo sobre a jia, como era seu hbito.
- Ele significa muito para mim.
- Voc no aceitou meu anel. 
- Daniel... 
- Voc no aceitou meu anel - continuou ele -, mas aceitou o camafeu. Eu gostaria que aceitasse isso. -Tirando uma caixa do bolso, esperou.
Anna cruzou os braos.
- Daniel, voc no precisa me comprar presentes.
- Acho que j entendi isso. - Mas ele ainda no tinha entendido como aceitar o fato. - Talvez por isso eu queira lhe dar presentes. Deboche de mim - acrescentou 
e a fez sorrir.
- Voc j disse isso antes. - Porque ele sorriu de volta, Anna aceitou a caixa. - Obrigada. - Ento, abriu o presente e ficou sem fala.
- H algo errado com eles?
Anna conseguiu menear a cabea. De prolas e diamantes, puros em simplicidade, arrogantes em beleza, os brincos estavam aninhados no veludo preto e pareciam quase 
ter vida. Dos simples globos de prolas brancas saam diamantes em formato de lgrimas. Um brilhava, o outro reluzia e, juntos, formavam uma unidade magnfica.
- Daniel, eles so... - Anna meneou a cabea e o fitou. - So absolutamente maravilhosos. No sei o que dizer.
- Voc acabou de dizer. -Aliviado, ele pegou a caixa e removeu os brincos. - Suponho que deva agradecer a Myra. Pedi um conselho  sua amiga. Ela falou algo sobre 
classe e brilho formarem uma boa combinao.
- Verdade? - murmurou Anna enquanto Daniel prendia os brincos nas suas orelhas. 
- Pronto. - Satisfeito, ele deu um passo atrs para inspecionar. - Sim, so vistosos. Talvez chamem bastante ateno e mantenham os olhos dos homens longe da linda 
pele que voc exps.
Rindo novamente, Anna levou uma das mos  orelha.
- Ah, segundas intenes.
-  difcil no me preocupar que voc vai dar uma boa olhada em volta e ver algum que a agrade mais.
- No seja tolo, - Levando o comentrio na brincadeira, Anna enlaou o brao no dele. -Acho melhor descermos antes que os convidados cheguem. Caso contrrio, McGee 
vai nos criticar pelo atraso e por sermos rudes.
- Ah. - Enquanto se dirigiam para a porta, Daniel pegou-lhe a mo. - Como se voc j no o tivesse na palma das mos.
Anna lanou-lhe um olhar inocente quando eles comearam a descer a escada.
- No sei do que voc est falando.
- Ele faz broinhas para voc no meio da semana. Nunca fez isso para mim.
- Ah, a campainha est tocando. - Ela parou ao p da escada. - Prometa no ser muito ostensivo. Nem mesmo com o intendente Steers.
- Nunca sou ostensivo - mentiu ele facilmente, e conduziu-a para o hall, a fim de cumprimentarem os primeiros convidados.
Menos de vinte minutos depois, a grande sala de estar estava repleta de pessoas conversando alegremente. Embora Anna estivesse ciente que ela e Daniel eram, com 
freqncia, o tpico do momento, foi calmamente de grupo em grupo. No tinha precisado do aviso de sua me para saber que sua deciso de morar com Daniel a alienaria 
de algumas pessoas. Porm, nunca fazia escolhas baseadas em opinies de outras pessoas.
O cumprimento de Louise Ditmeyer foi um pouco frio, mas Anna o ignorou, e alegremente dirigiu-a para um grupo de amigas. Mais de uma vez, viu algum olhando de maneira 
especulativa em sua direo. Era bastante fcil lidar com aquilo de maneira tranqila. Esse era o seu jeito. Anna no tinha idia que sua confiana fria e graciosidade 
natural faziam mais para silenciar fofocas do que o poder de Daniel ou o nome da famlia dela.
Se havia uma sombra na noite, vinha do pedido indiscreto do governador de sua opinio sobre a fbrica txtil projetada por Daniel. Como ela poderia ter uma opinio 
ou at mesmo um comentrio inteligente? Daniel nunca lhe falara sobre aquilo, e Anna estava diante do orgulho do governador sobre um projeto que empregaria centenas 
de pessoas e daria bons rendimentos para o estado. O treino a fez manter o sorriso no lugar e dar boas respostas. No havia tempo para raiva quando apresentou o 
governador e a esposa para um outro casal. Houve tempo apenas para um momento de inveja ao notar que a esposa do governador aparentemente estava muito envolvida 
no trabalho do marido. Pressionada pelas tarefas de anfitri, Anna reprimiu o desapontamento pessoal.
No sentiu uma verdadeira tenso at que seus pais chegaram. Prendendo a respirao, aproximou-se do pai.
- Estou to feliz que vocs vieram. - Anna colocou-se na ponta dos ps para beijar-lhe a face, embora ele estivesse inseguro da recepo da filha.
- Voc parece bem. - Ele no falou friamente, mas ela sentiu a reserva.
- O senhor tambm. Ol, me. - Ela beijou a me no rosto e sorriu com o aperto encorajador que sua me lhe deu no brao.
- Voc est linda, Anna. - Ela lanou um rpido olhar para o marido. - Feliz.
- Sim, estou feliz. Deixe-me pegar um drinque para vocs.
- No se preocupe conosco - murmurou sua me. -Voc tem todos esses convidados. L est Pat Donahue. V em frente, ficaremos bem.
- Certo, ento. - Quando Anna comeou a se virar, seu pai segurou-lhe a mo.
- Anna. - Ele hesitou, apertando-lhe a mo. -  bom ver voc.
Aquilo era o suficiente. Ela envolveu os braos ao redor do pescoo do pai e ficou ali por um momento.
- Se eu for ao seu escritrio um dia, vai largar seus livros e dar uma volta comigo?
- Voc vai me deixar dirigir seu carro? Ela sorriu brilhantemente.
- Talvez.
Ele piscou e alisou-lhe a cabea, como sempre costumava fazer.
- V receber seus convidados.
No momento em que Anna se virou, foi para ver Daniel a alguns metros de distncia, sorrindo-lhe. Ela se aproximou com o corao nos olhos.
- Agora voc est ainda mais bonita - murmurou ele.
- Do que se trata tudo isso? - Myra apareceu e se colocou entre os dois. - Os anfitries no deveriam ter tempo nem de se falarem numa festa como esta. Daniel, realmente 
acho que voc deveria ir resgatar o governador de nosso estimado intendente municipal antes que ele perca o apetite. O governador, quero dizer. - Quando Daniel sussurrou 
alguma coisa rude, ela apenas assentiu. - Mesmo assim. Agora, Anna, por que no vamos ver onde Cathleen est aborrecendo os Maloney. Estou louca para v-la babando 
por seus brincos.
- Seja sutil, Myra. - Anna aconselhou-a enquanto manobravam atravs dos grupos. - Lembre-se da beleza da sutileza.
- Querida,  claro. Mas eu realmente apreciaria se voc se exibisse um pouco de vez em quando. Cathleen, que vestido bonito.
Cathleen parou seu discurso sobre os horrios do vero para estudar Myra. Anna no tinha certeza, mas pensou ter visto os Maloney suspirarem de alvio.
- Obrigada, Myra. Suponho que  o momento de congratulaes. No a vejo desde que fugiu com Herbert.
- No,  verdade. - Myra deu um gole em seu drinque e ignorou a descrio sarcstica de seu casamento. Inveja era a coisa mais simples de ignorar quando voc estava 
feliz.
- Suponho que exista certo charme em fugir com o noivo, mas, quanto a mim, eu preferia um outro tipo de casamento.
- As pessoas so diferentes - retornou Myra, e tentou lembrar-se de que era o jantar de Anna.
- Oh, verdade. - Cathleen assentiu. - Mas que pena que voc e Herbert decidiram ser eremitas mesmo depois de privar todos ns de um grande casamento.
- Lamento que Herbert e eu ainda no comeamos uma vida social em grande escala. Queremos acabar de decorar a casa antes de convidarmos os amigos mais ntimos. Voc 
entende.
Vendo a necessidade de intervir, Anna se aproximou mais um pouco.
- Estou certa de que voc teve um vero movimentado, Cathleen.
- Oh, bastante movimentado. - Ela deu um sorriso frio a Anna. - Embora outros paream realizar mais coisas em um curto perodo de tempo. Fiz uma breve viagem  praia 
e, quando retornei a Boston, descobri que Myra e Herbert haviam fugido e que voc tinha mudado de endereo. Devo lhe dar os parabns tambm?
Anna ps uma mo no brao de Myra para silenci-la.
- De maneira alguma. Voc voltou com um lindo bronzeado. Pena que no pude ir  praia. No tive tempo.
- Certamente no teve. - Erguendo o drinque, Cathleen deu um longo gole. No era fcil aceitar que duas das mulheres com as quais ela debutara haviam conquistado 
dois dos homens mais influentes da cidade... particularmente quando estivera de olho em Daniel. - Diga-me, Anna, como devo apresentar voc e Daniel se surgir a ocasio? 
Desculpe-me, mas sou ingnua sobre esse tipo de coisa.
At mesmo a pacincia de Anna j tinha durado muito.
- Por qu? Isso importa?
- Oh,  claro que importa. A propsito, estou pensando em dar um jantar tambm. No tenho idia do que escrever no convite de vocs.
- Eu no me preocuparia com isso.
- Oh, mas eu me preocupo. - Os olhos dela se arregalaram. - Detesto cometer gafes.
- Que pena.
Se Cathleen no conseguia uma coisa do jeito que queria, tentaria de outro.
- Bem, afinal de contas, ningum sabe como se dirigir educadamente  amante de um homem. - Ento, ela deu um gritinho quando Myra derrubou o drinque em seu vestido.
- Oh, como sou desajeitada. -Meneando a cabea, Myra analisou o dano no crepe cor-de-rosa de Cathleen, o qual era quase o bastante para satisfaz-la. - Sinto-me 
um desastre - acrescentou suavemente. - Vou subir com voc, Cathleen. Ficarei mais do que feliz em limpar seu vestido.
- Posso cuidar disso - replicou ela com dentes cerrados. -Apenas fique longe de mim.
Myra acendeu um cigarro e soltou a fumaa para o teto.
- Como voc quiser.
Sentindo-se obrigada, Anna comeou a segurar-lhe o brao.
- Deixe-me lev-la l em cima.
- Tire as mos de mim - protestou Cathleen. - Voc e sua amiga imbecil. - Girando as saias, misturou-se com a multido.  
- Sutileza. -Anna suspirou. - Ns no falamos sobre sutileza?
- Eu no joguei o drinque no rosto dela - disse Myra. - E, para lhe dizer a verdade, venho querendo fazer isso h muito tempo. Essa foi a primeira vez que pude e 
me senti totalmente justificada. - Ela deu um sorriso amplo a Anna. - Tenho tempo para um outro drinque antes do jantar?


Doze

Talvez se Daniel no tivesse ouvido o incidente com Cathleen Donahue, teria lidado com as coisas de modo diferente. Mas ouvira. Talvez, se a fria com o insulto 
no o tivesse consumido, o relacionamento deles teria continuado bastante tranqilo. Mas no continuou. Durante o resto da noite, ele conseguiu ser o anfitrio agradvel. 
Os convidados deixaram sua casa bem alimentados e contentes. Mal podia esperar para fechar a porta atrs do ltimo convidado.
- Precisamos conversar - disse a Anna antes que ela pudesse dar seu primeiro suspiro de alvio.
Apesar de sentir-se bastante nervosa, ela assentiu. Outras pessoas podiam ter sido enganadas pela conversa fcil e generosidade de Daniel ao longo da noite, mas 
Anna tinha sentido a tenso e raiva dele. Num acordo silencioso, eles subiram a escada para a privacidade do quarto.
- Alguma coisa aborreceu voc - comeou ela, e sentou-se no brao de uma poltrona, embora ansiasse por tirar as roupas e cair na cama. - Sei que tinha negcios com 
o governador. Alguma coisa saiu errada?
- Meus negcios vo bem. - Ele andou at a janela e acendeu um charuto. - Minha vida pessoal  que est com problemas.
Anna cruzou as mos no colo, um sinal de irritao ou nervosismo.
- Entendo.
- No, voc no entende. - Ele virou-se para encar-la, pronto para acusar ou cobrar. - Se entendesse, no haveria discusso sobre casamento. Seria simplesmente 
um fato.
- Simplesmente um fato - repetiu ela, e lutou para lembrar-se de como sentir raiva era improdutivo. - Daniel, nosso maior problema parece derivar de nossos pontos 
de vista distintos sobre casamento. No vejo casamento como simplesmente um fato, mas como o maior passo que uma pessoa pode dar com outra. Eu no posso dar esse 
passo com voc at que esteja pronta.
- Como se um dia voc fosse estar pronta - devolveu ele.
Anna umedeceu os lbios. Atrs de sua raiva crescente, havia pesar.
- Se eu um dia estiver.
A fria que ele conteve durante toda a noite explodiu.
- Ento, voc no vai me fazer promessas, Anna. No vai me dar nada!
- Eu lhe disse uma vez que no faria uma promessa que posso no ser capaz de cumprir. Eu lhe darei tudo que posso, Daniel.
- No  o bastante. - Ele tragou o charuto, ento soltou a fumaa no ar.
- Sinto muito. Se eu pudesse, lhe daria mais.
- Se pudesse? - Fria o assolou, cegando-o para a razo. - Se voc pudesse? Nada a est impedindo, exceto sua prpria teimosia.
- Se isso fosse verdade, eu seria uma tola. - Ela se levantou porque era hora de enfrent-lo. Hora, na verdade, de enfrentar a si mesma. - E talvez eu seja, porque 
esperei que voc respeitasse tanto minhas necessidades e ambies quanto respeita as suas prprias.
- O que isso tem a ver com casamento?
- Tudo. Em nove meses, terei meu diploma.
- Um pedao de papel - retrucou ele. Tudo em Anna tornou-se frio: a pele, a voz, os olhos.
- Um pedao de papel? Pergunto-me se voc chamaria suas aes e contratos de pedaos de papel? Pedaos de papel importantes demais para serem discutidos comigo. 
Ou talvez, como com a fbrica txtil sobre a qual o governador me perguntou esta noite, voc no me considere inteligente o bastante para entender seu trabalho.
- Nunca duvidei de sua inteligncia - exclamou ele. - O que aes e contratos tm a ver com isso?
- Eles so parte de voc, assim como meu diploma ser parte de mim. Devotei anos da minha vida para obt-lo. Pensei que pudesse compreender isso.
- Vou lhe dizer o que compreendo. - Rgido de raiva, ele apagou o charuto. - Entendo que estou cansado de vir em segundo lugar em relao ao seu precioso diploma.
- Que coisa, Daniel, ningum pode lhe dizer nada. -Lutando por controle, ela apoiou as duas mos sobre a cmoda. - No  uma questo de lugares, isso no  uma competio.
- O que , ento? Que diabos ?
- Uma questo de respeito - murmurou Anna mais calmamente, e virou-se de novo para ele. -  uma questo de respeito.
- E quanto ao amor?
Daniel falava de amor to raramente que a questo quase a desmoronou. Lgrimas acumularam nos olhos de Anna e a voz enfraqueceu.
- Amor  uma palavra vazia quando no h respeito. Prefiro no ter amor, a t-lo de um homem que no pode me aceitar pelo que sou. Prefiro no dar amor a um homem 
que no compartilha seus problemas comigo, nem o seu sucesso.
O orgulho de Daniel era mais forte do que o dela. Mesmo enquanto sentia que estava perdendo Anna, agarrava-se ao orgulho como se fosse a nica coisa que lhe restasse.
- Ento, talvez, voc prefira que eu pare de am-la. Farei o possvel. - Com isso, ele virou-se. Momentos depois, Anna ouviu a porta da frente bater.
Ela podia ter cado da cama e dado vazo s lgrimas. Queria fazer isso... talvez demais. Porque no podia, s lhe restava uma coisa a fazer. Mecanicamente, comeou 
a arrumar as malas.
A viagem para Connecticut foi longa e solitria. Semanas depois, Anna podia recordar-se vividamente. Dirigiu a noite inteira, at que seus olhos estavam ardendo 
e o sol nasceu. Exausta, parou em um hotel e dormiu at o anoitecer. Quando acordou, tentou esquecer do que tinha deixado para trs. As primeiras semanas foram preenchidas 
procurando um pequeno apartamento perto do campus. Precisava de privacidade e cedeu ao desejo de ter seu prprio lugar. Seus dias eram cheios de planos, preparaes. 
Era uma pena que suas noites no podiam ser cheias, tambm.
Anna podia bloquear Daniel de sua mente por longos perodos durante o dia, mas,  noite, deitava na cama e lembrava como tinha sido aninhar-se ao corpo dele. Comia 
sozinha em sua pequena mesa da cozinha e se recordava de como os dois costumavam prolongar o momento do caf na sala de jantar, simplesmente porque era gostoso ficar 
ali conversando.
Decidida, recusou-se a instalar um telefone. Teria sido muito fcil ligar para ele. Quando as aulas iniciaram, mergulhou nos estudos com um alvio quase desesperado.
Seus colegas notaram sua mudana. A geralmente amigvel, apesar de levemente reservada, srta. Whitfield, agora estava fechada em si mesma. Raramente falava, a menos 
para perguntar ou responder uma questo em aula. Aqueles que por acaso passavam dirigindo na frente de seu apartamento  noite ou tarde no sbado, invariavelmente 
viam uma luz acesa na janela. Estudos incessantes lhe deram olheiras que at mesmo os professores comearam a notar. Ela bloqueava qualquer comentrio ou pergunta 
com uma retirada educada, porm firme.
Os dias se emendavam uns nos outros como se Anna quisesse que assim fosse. Se estudasse muito, por tempo suficiente, poderia cair no esquecimento seis horas por 
noite e no pensar em nada.
Connecticut no meio de setembro estava fresco e lindo, mas Anna tinha pouco tempo para notar a folhagem. As cores fortes e aromas ricos do outono foram renegados 
a favor de livros de medicina e aulas de anatomia. Em anos anteriores, tinha conseguido apreciar as redondezas enquanto se devotava aos estudos. Agora, se parasse 
um momento para admirar as folhas selvagens, pensaria somente no topo de um penhasco e no barulho de gua na pedra. E se perguntaria, antes que pudesse deter-se, 
se Daniel estava construindo a casa.
Em defesa, vinha evitando contato com Myra, embora sua amiga lhe enviasse longas cartas protestando. Quando o telegrama chegou, Anna percebeu que no podia se esconder 
para sempre. Dizia simplesmente:
"Se voc no me quiser na sua porta em 24 horas, ligue para mim. Myra."
Com o telegrama no meio de suas anotaes sobre o sistema circulatrio, Anna foi, em seu intervalo, para o telefone no salo de estudantes. Com as moedas preparadas, 
fez a ligao e esperou.
- Al.
- Myra, se voc aparecer na minha porta, ter de dormir do lado de fora. No tenho um quarto extra.
- Anna! Meu Deus, eu estava comeando a pensar que voc tinha se afogado no Atlntico. - Anna ouviu o barulho de um isqueiro se acendendo e o som da amiga inalando. 
- Era mais fcil acreditar nisso do que no quanto voc foi rude em no responder minhas cartas.
- Desculpe-me. Ando muito ocupada.
- Voc est se escondendo - corrigiu Myra. - E vou tolerar isso contanto que no seja de mim. Estou preocupada com voc.
- No fique. Estou bem.
-  claro.
- No, no estou bem - admitiu ela porque era Myra. - Mas estou ocupada, cheia de livros e anotaes.
- Voc no ligou para Daniel?
- No, eu no posso. - Anna fechou os olhos e descansou a testa contra o metal frio do telefone. - Como ele est? Voc o tem visto?
- Visto Daniel? -Anna quase podia ver Myra rolando os olhos. - Ele enlouqueceu na noite que voc partiu. Acordou Herbert e eu de madrugada, exigindo saber se voc 
estava aqui. Herbert o acalmou. Herbert  incrvel. No vimos muito Daniel depois disso, mas ouvi dizer que ele tem passado muito tempo em Hyannis Port, supervisionando 
a construo da casa.
- Imagino que sim. - E ela podia v-lo l, observando as mquinas cavarem e os homens depositando pedras.
- Anna, voc sabia que Daniel ouviu aquele pequeno incidente com Cathleen na noite do jantar?
Ela pegou-se sentindo autopiedade e meneou a cabea.
- No. No, ele no me contou. Oh... -Anna lembrou-se da fria secreta que sentira em Daniel... a mesma fria que tinha sido voltada contra ela. Aquilo explicava 
muita coisa.
- Ouvi Daniel dizendo a Herbert que queria torcer o pescoo de Cathleen. Apesar de eu aprovar, Herbert o convenceu a no fazer isso. Mas parece que a histria toda 
o arrasou. O homem acredita que voc deve ser protegida de qualquer tipo de insulto.  muito doce realmente, embora, com certeza, podemos cuidar de ns mesmas.
- No posso me casar com Daniel para no ser insultada - murmurou ela.
- No. E embora eu ache que ele merea uma lio, querida, eu juraria que o corao do homem est no lugar certo. Daniel ama voc, Anna.
- Apenas uma parte de mim. - Ela fechou os olhos e determinou-se a ser forte. - Sinto muito por termos envolvido vocs.
- Oh, por favor, voc sabe que adoro ser envolvida. Anna, quer conversar sobre isso? Gostaria que eu fosse at a?
- No, realmente. Pelo menos no ainda. - Mesmo esfregando as tmporas, Anna riu. -Ainda bem que no respondi suas cartas. Falar com voc me fez mais bem do que 
qualquer outra coisa.
- Ento, me d seu telefone. Podemos conversar em vez de escrever.
- No tenho telefone.
- No tem telefone? - Houve uma pausa com o choque de Myra. -Anna, querida, como voc sobrevive?
Ela parou de esfregar as tmporas e realmente riu.
- Sou muito primitiva aqui. Voc ficaria chocada se visse meu apartamento. - E ela imaginou se Myra entenderia seu entusiasmo em passar a maior parte da tarde com 
uma dzia de outros alunos e um cadver. Algumas coisas eram melhor no ser ditas. - Oua, prometo que vou me sentar e lhe escrever uma longa carta esta noite. Vou 
at mesmo ligar de novo na prxima semana.
- Tudo bem, ento. Mas um conselho antes que voc desligue. Daniel  homem, ento comea com um ponto contra ele. Apenas tente se lembrar disso.
- Obrigada. D um abrao em Herbert por mim.
- Darei. Estou contando com essa carta.
- Hoje  noite - prometeu Anna novamente. - Adeus, Myra.
Quando Anna desligou, sentiu-se estvel pela primeira vez em semanas. Verdade, tinha assumido o controle de sua prpria vida quando deixara Boston. Havia alugado 
seu prprio apartamento, iniciado as aulas. Estabeleceu seu prprio horrio de estudo e era responsvel por seu prprio sucesso ou seu prprio fracasso. Mas no 
estava feliz. Era responsvel por isso, tambm, lembrou a si mesma enquanto descia o corredor. Era hora de enfrentar o fato de que tinha feito uma escolha. Se ia 
viver sozinha, como parecia, ento precisava fazer o melhor disso.
Uma olhada para o relgio a informou que tinha dez minutos antes da prxima aula. Desta vez, pararia do lado de fora para apreciar o outono, em vez de correr para 
o prdio ao lado e enterrar o rosto nos livros.
Ao ar livre, viu uma sinfonia de cores que vinha quase deliberadamente ignorando h semanas. Viu outros alunos se apressando para as aulas ou estendidos na grama, 
lendo ao sol. Viu a pequena ladeira e o velho telhado vermelho do hospital. E viu o conversvel azul parado no meio-fio.
Por um instante, Anna no pde se mover. Semanas atrs, estava saindo do hospital de Boston para encontrar Daniel esperando-a. Seus dedos se apertaram nos livros 
que carregava. Mas no era Boston, pensou mais calmamente. E Daniel no era o nico da costa leste que tinha um conversvel azul. Fora simplesmente uma virada do 
destino que a fizera sair ao ar livre para ver aquilo. Recompondo-se, comeou a andar na direo oposta. Segundos depois, virou-se e foi dar uma olhada melhor no 
carro azul.
- Quer uma carona?
Ao som da voz dele, Anna sentiu o corao disparar violentamente no peito. No momento em que se virou, seu semblante foi preenchido com cautela e prazer.
- Daniel, o que voc est fazendo aqui? - E que importncia tinha isso? Era o bastante apenas olhar para ele.
- Parece que estou esperando por voc. - Ele queria toc-la, mas se a tocasse, a agarraria com desespero. Deliberadamente, enfiou as mos nos bolsos. - A que horas 
termina sua ltima aula?
- ltima aula? - Ela tinha esquecido em que dia estavam. - Ah, em aproximadamente uma hora. S tenho mais uma aula hoje.
- Tudo bem, ento. Eu volto.
Voltar? Atordoada, Anna o observou dar a volta no conversvel e abrir a porta do motorista. Antes de perceber que pretendia fazer isso, ela abriu a porta do passageiro.
- O que voc est fazendo?  
- Eu vou com voc - replicou Anna.
Ele lhe deu um longo olhar frio.
- E quanto a sua aula?
Ela olhou ao redor do campus antes de subir no carro.
- Depois eu copio a matria perdida de algum. Posso compensar isso. - Mas no podia compensar mais uma hora longe dele.
- Voc no  do tipo que perde aulas.
- No, no sou. -Abalada, ela colocou os livros sobre o colo. - Meu apartamento no  longe. Podemos tomar um caf. Vire  esquerda, passe o hospital, e ento...
- Eu sei onde  - interrompeu ele, mas no adicionou que soubera quase antes de ela ter alugado o apartamento.
O trajeto de cinco minutos passou rapidamente enquanto dzias de pensamentos giravam na cabea de Anna. Como deveria trat-lo? Educadamente? Daniel ainda estava 
zangado? Pela primeira vez desde que o conhecia, no podia definir-lhe o humor. Seus nervos estavam  flor da pele no momento em que ele parou o carro de novo. Daniel 
parecia perfeitamente calmo.
- Eu no estava esperando ningum - comeou ela quando eles subiram os degraus para seu apartamento no segundo andar.
- Uma pessoa seria capaz de ligar avisando, se voc tivesse um telefone.
- No pensei muito sobre isso - disse ela, ento destrancou a porta. - Entre - convidou.
Assim que ele entrou, Anna percebeu o quo absurdamente pequeno era o apartamento. Na sala de estar, Daniel quase podia tocar as paredes se abrisse os braos. Ela 
tinha um sof, uma mesinha de centro e um abajur, e no vira necessidade para mais nada.
- Sente-se - ofereceu, descobrindo o quo desesperadamente precisava de um momento sozinha. -Vou fazer um caf.
Sem esperar resposta, correu para a cozinha. Quando estava sozinho, Daniel abriu as mos que estavam cerradas. No via apenas um cmodo pequeno, mas os toques de 
charme. Havia almofadas coloridas jogadas no canto do sof e uma travessa com conchas sobre a mesinha de centro. Mais que isso, a sala ensolarada exalava o aroma 
de Anna, o mesmo aroma que havia desaparecido do quarto deles. No podia se sentar, no podia ficar em p sozinho. Cerrando os punhos novamente, seguiu-a para a 
cozinha.
No podia imaginar se ela cozinhava no espao limitado, mas Anna obviamente estudava ali. Sobre a mesa, perto da janela, havia uma mquina de escrever porttil e 
pilhas de anotaes e livros. Lpis gastos e outros bem apontados ficavam dentro de uma caneca de porcelana chinesa. Ele estava fora de seu meio ambiente. Sentia 
isso. Lutava contra isso.
- O caf est quase pronto - murmurou Anna para preencher o silncio. Ele estava l de novo, e ela no tivera tempo suficiente para si mesma. No podia saber que 
Daniel estava sentindo precisamente a mesma coisa. -No tenho mais nada para lhe oferecer. No fiz compras esta semana.
Ela estava nervosa, Daniel percebeu, ouvindo a tenso na voz geralmente calma. Curioso, observou-a, e viu as pequenas mos tremerem de leve enquanto Anna pegava 
as xcaras. Daniel sentiu os ns em seu estmago relaxarem um pouquinho. Como abord-la? Puxando uma cadeira, sentou-se.
- Voc parece plida, Anna.
- No tenho pegado muito sol. Os horrios so sempre frenticos nas primeiras semanas.
- E nos fins de semana?
- H o hospital.
- Humm. Se voc fosse mdica, poderia diagnosticar excesso de trabalho.
- No sou mdica ainda. - Ela colocou o caf sobre a mesa, ento hesitou. Aps um momento, sentou-se diante dele. O momento parecia tanto com o tempo que haviam 
convivido. Entretanto, no tinha nada a ver. - Por acaso, falei com Myra hoje. Ela disse que voc comeou a construir a casa em Hyannis Port.
- Isso mesmo. - Ele tinha visto os homens quebrarem o solo, levantarem a fundao. E no significara nada. Absolutamente nada. - Se mantivermos o prazo agendado, 
a parte principal deve ficar pronta no prximo vero.
- Voc deve estar feliz. - O caf de Anna tinha gosto de lama, e ela o empurrou de lado.
- Tenho as plantas no carro. Talvez voc queira v-las. O peito de Anna estava comprimido quando levantou
a cabea. Daniel viu surpresa nos olhos escuros e amaldioou-se por ser tolo.
-  claro que quero.
Por um momento, ele olhou para as prprias mos. Era um jogador, no era? Estava na hora de correr um outro risco.
- Estou pensando em comprar um escritrio no centro da cidade. Para pequenos negcios, com um aluguel baixo, mas acho que o valor da propriedade pode dobrar em cinco 
ou sete anos. - Ele adicionou uma pedrinha de acar no caf, mas no mexeu. - Tenho tido alguns problemas com a fbrica txtil. Seu pai est trabalhando para que 
possamos comear a produzir na primavera. Anna manteve os olhos fixos nele.
- Por que est me contando isso?
Ele levou um momento para responder. Confisses no lhe eram fceis. Mas os olhos de Anna estavam escuros, to pacientes. Difcil como era, Daniel tinha percebido 
que precisava dela tanto quanto de seu prprio orgulho.
- Um homem no gosta de admitir que estava errado, Anna. Porm, mais do que isso, no gosta de encarar que sua mulher o abandonou porque ele no podia admitir isso.
Nada que ele tivesse dito a faria am-lo mais.
- No abandonei voc, Daniel.
- Voc fugiu.
Ela engoliu em seco.
- Certo, eu fugi. De ns dois. Voc se d conta de que me ofereceu mais de si mesmo nestes ltimos cinco minutos do que no tempo inteiro que vivemos juntos?
- Nunca me ocorreu que voc quisesse saber sobre fbricas e taxas de juros. - Ele comeou a se levantar, ento mudou de idia quando viu a impacincia nos olhos 
de Anna. -  melhor dizer no que est pensando.
- Na primeira vez que entrei no seu quarto, vi quo pouco de voc havia l. Depois de um tempo, descobri por qu. Estava to determinado a avanar. Daniel, por mais 
que voc falasse da casa e da famlia que queria, pretendia fazer tudo sozinho. Eu estava fora dos planos.
- No haveria famlia sem voc, Anna.
- Mas voc queria dar, no compartilhar. Nunca se ofereceu para me mostrar a planta da casa que dizia querer para ns dois. Nunca me pediu uma opinio ou uma sugesto.
- No. E enquanto eu assistia aos homens construrem a fundao, percebi que eu teria a casa que queria, mas no o lar de que necessitava. - Ele largou a colher 
num impulso. - Nunca pensei que isso realmente lhe importasse.
- Eu no sabia como lhe mostrar. - Anna deu um pequeno sorriso. - Tolice. - Porque precisava de um pouco de distncia, levantou-se para ir at a janela. Estranho, 
pensou, estudava ali todas as noites e no tinha notado a grande rvore avermelhada no quintal. Era linda. Quanta beleza estava cortando de sua vida? - Parte minha 
queria compartilhar aquela casa com voc. Mais do que qualquer coisa.
- Mas somente uma parte sua.
- Suponho que  a parte que voc no pode aceitar que me restringe. Que restringe a ns dois. Sabe, voc nunca me perguntou sobre meu trabalho no hospital, sobre 
os livros ou sobre por que quero ser cirurgia.
Daniel se levantou tambm. J tinha enfrentado a si mesmo. Agora tinha de enfrent-la.
- Um homem no pergunta para a mulher que ama sobre o outro amor da vida dela.
Dividida entre raiva e confuso, ela virou-se.
- Daniel...
- No me pea para ser lgico - interrompeu ele. - Estou perto de me rastejar se necessrio, mas no me pea para ser lgico.
Com um suspiro, Anna meneou a cabea.
- Certo, no vou pedir. Vamos apenas dizer que algumas mulheres podem ter dois amores e ser felizes, passando a vida tentando dar o que cada um necessita.
-  uma vida difcil.
- No se a mulher tem dois amores que esto dispostos a lhe dar o que ela precisa.
No havia lugar para andar na pequena cozinha. Em vez disso, Daniel ficou parado, as mos ainda enfiadas nos bolsos.
- Sabe, pensei muito sobre sua profisso de mdica nessas ltimas semanas. Mais, suponho, do que eu queria pensar desde a primeira vez que a vi. Muitas vezes, Anna, 
pude enxergar que nasceu para alguma coisa a mais, para ser algum, mas consegui bloquear isso. Quando voc partiu e passei minhas noites sozinho, no tive escolha 
seno refletir. Lembrei-me do jeito como voc cuidava da sra. Higgs. E de sua aparncia no momento em que saa do hospital no fim da tarde. Recordo-me de quando 
a vi parada no meio da cozinha com sangue na blusa e explicou, muito calmamente, como havia lidado com o pulso de Sally. Ela me contou que o mdico disse que voc 
salvou-lhe a vida. Alguma coisa que aprendeu em um daqueles - disse ele, indicando a pilha de livros. - No algo to difcil de aprender, mas certamente no to 
fcil de fazer. - Daniel pegou um livro e ergueu-o enquanto a olhava. - No, no perguntei antes porque voc queria ser cirurgia. Estou perguntando agora.
Anna hesitou, com medo de que ele fizesse alguma crtica ou, pior, uma observao arrogante. Daniel a tinha procurado... um jogador. Ela podia jogar tambm.
- Tenho um sonho - murmurou Anna calmamente. -Quero que minha vida faa alguma diferena no mundo.
Ele a estudou em silncio, os olhos azuis estreitos e profundamente intensos.
- Tenho um sonho - disse ele, colocando o livro no lugar. Pela primeira vez, deu um passo na direo dela. -  um apartamento pequeno, Anna. Mas acho que h espao 
suficiente para dois.
Ele ouviu um grande suspiro antes que Anna abrisse os braos e os envolvesse ao seu redor.
- Vamos precisar de uma cama maior.
- Esta  minha garota. - Com uma risada, ele a tirou do solo e deu a si mesmo o prazer de provar-lhe a boca. Alvio o percorreu como vinho, at que estava embriagado 
do mesmo. - Senti saudade sua, Anna. No posso mais viver sem voc.
- No. - Com o rosto enterrado no pescoo dele, Anna inalou o aroma nico e deleitou-se nele. - Nunca mais. Daniel, sinto-me apenas meio viva sem voc. Tento ocupar 
meus dias com estudos, trabalhando mais arduamente, passando mais horas no hospital, mas isso no significa nada. Quero estar com voc, preciso estar com voc.
- Voc me ter. Uma cama maior e trs telefones devem resolver.
Com uma risada, Anna encontrou-lhe os lbios. Daniel podia ter seus telefones, contanto que ela o tivesse.
- Eu amo voc.
- Voc nunca me disse isso. - Instvel, ele a afastou. - Voc nunca falou isso antes.
- Eu tinha medo. Achei que se voc soubesse o quanto eu o amava, poderia usar isso para me fazer dar o resto.
Ele comeou a negar, ento parou porque era verdade.
- E agora?
- O resto no significa muita coisa se voc no estiver comigo.
Daniel a afastou ainda mais.
- Uma vez eu lhe disse que voc poderia olhar em volta e ver algum que a agradasse mais. Eu no estava brincando.
Ela o sacudiu de leve.
- Deveria estar.
Ela no percebia o quanto era adorvel, o quo regia parecia? No sabia o que poderia fazer um homem sentir apenas com um sorriso?
- No acredite que penso que voc pode ser s minha ou pensarei um dia. Posso agir dessa forma, Anna, mas no  verdade. Voc  a resposta para a minha vida, e quero 
ser para a sua.
Ela descansou o rosto no ombro dele por um momento. Nunca lhe ocorrera que a confiana de Daniel pudesse ser abalada. Amava-o ainda mais por saber que isso era possvel.
- Voc , Daniel. Eu no tinha certeza se podia lhe dar o que voc parecia querer.
- Eu queria uma esposa, uma mulher que estivesse l de noite quando eu chegasse do trabalho. Uma que mantivesse flores nos vasos e rendas nas janelas. Uma que ficasse 
contente com tudo que eu pudesse lhe dar.
Anna olhou para os livros espalhados sobre a mesa, ento para o homem parado  sua frente.
- E agora?
- Estou comeando a pensar que uma mulher assim me daria tdio dentro de uma semana.
Ela pressionou os dedos nos olhos para conter as lgrimas.
- Eu gostaria de pensar que sim.
- No estou voltando atrs. - A voz de Daniel de repente era rouca quando a puxou para seus braos de novo. - Voc vai se casar comigo, Anna, no dia seguinte que 
receber seu diploma. Ser a doutora Whitfield por menos de 24 horas.
Ela curvou os dedos na camisa dele.
- Daniel, eu...
- Ento voc ser a doutora MacGregor.
Os dedos de Anna pararam. Ela respirou fundo trs vezes antes de ousar falar:
- Voc est falando srio?
- Sim. Sempre falo srio. E voc ter de me agentar apresentando-a como a melhor cirurgia do pas. Quero compartilhar seu sonho, Anna, tanto quanto voc quer compartilhar 
o meu.
- No ser fcil para voc. Enquanto eu estiver fazendo residncia, os horrios sero detestveis.
- E daqui a vinte anos, ns vamos olhar para trs e lembrar como passamos por tudo. Gosto de uma viso a longo prazo, Anna. Eu queria que voc se casasse comigo 
porque achei que cumpriria um bom papel de esposa. - Ele segurou-lhe as mos. - Agora, estou lhe pedindo em casamento porque a amo exatamente como voc .
Anna o estudou por longos momentos. Desta vez, no haveria um passo atrs.
- Voc ainda tem o anel?
- Sim. - Daniel enfiou a mo no bolso. - Peguei o hbito de carreg-lo comigo.
Rindo, ela levou ambas as mos ao rosto dele.
- Vou aceit-lo agora. - Quando ele comeou a deslizar a jia por seu dedo, Anna fechou a mo sobre a de Daniel.
- Aqui vai uma promessa para voc, Daniel. Darei o melhor de mim.
O anel deslizou.
-  o suficiente.


Eplogo

Anna tinha apenas cochilado sentada durante a noite, rejeitando a cama de armar que um atendente de planto havia levado ao quarto, preferindo a cadeira ao lado 
da cama de Daniel. De vez em quando durante a noite, ele murmurava no sonho. Sempre que Anna ouvia seu nome, tentava acalm-lo, conversando baixinho at que ele 
descansasse de novo.
Somente uma vez, ela o deixou para descer e dar uma olhada em Shelby. O resto do tempo ficava olhando-o dormir e ouvindo todos os bipes e sons das mquinas.
As enfermeiras trocaram de turno. Algum lhe levou caf antes de sair do servio. A lua comeou a se pr. Anna pensou no homem que amava, na vida que eles tinham 
construdo e esperou em silncio.
Um pouco antes do amanhecer, inclinou-se para descansar a cabea na cama ao lado da mo dele. Quando Daniel acordou, Anna foi a primeira pessoa que viu. Ela estava 
dormindo levemente.
Ele ficou desorientado apenas por um momento. Embora as drogas ainda estivessem atuando em seu sistema nervoso, lembrou-se do acidente com perfeita clareza. Pensou 
brevemente sobre seu carro. Gostava muito daquele brinquedo em particular. Ento, sentiu a presso no peito, viu os tubos atados a seu brao.
Recordou-se mais do que do acidente agora. Lembrou-se de Anna inclinando-se sobre ele, falando, assegurando-o de que tudo ficaria bem, enquanto ele era empurrado 
numa maa ao longo do corredor do hospital. Recordou-se do medo que vira nos olhos dela, e, antes de perder a conscincia, o momento de puro terror ao perceber que 
estava sendo levado para longe de Anna.
Estranhamente, pensou lembrar-se de olhar para si mesmo, de cima, enquanto mdicos e enfermeiras o viravam do avesso. Ento, teve a impresso de ser sugado de volta 
para seu corpo, mas a sensao era muito vaga para ser descrita. Lembrou-se de mais uma coisa. Anna novamente, inclinando-se sobre ele, beijando-lhe a mo. Depois, 
tinha apenas sonhado.
Ela parecia to cansada, pensou Daniel. Em seguida, percebeu como seu prprio corpo parecia velho e abalado. Furioso com sua fraqueza, esforou-se para se sentar 
e no conseguiu. Porque o esforo o embaraou, estendeu o brao e tocou o rosto de Anna. Ela estava acordada em um instante.
- Daniel. - Ela entrelaou os dedos em volta dos seus. Em questo de segundos, ele viu tudo no rosto de sua amada: terror, alvio, sofrimento, cautela e fora. Usando 
toda fora de vontade que possua, Anna controlou a necessidade de baixar a cabea no peito dele e chorar. - Daniel - a voz era to calma quanto da primeira vez 
que ele a ouvira -, voc me reconhece?
Apesar de isso ser um esforo, ele arqueou uma sobrancelha.
- Por que diabos eu no reconheceria a mulher com quem vivo h quase quarenta anos?
- Por que diabos no? - concordou ela e deu a si mesma o prazer de pressionar os lbios nos dele.
- Voc pode ficar mais confortvel se subir aqui na cama comigo.
- Talvez mais tarde - prometeu ela e ergueu-lhe uma das plpebras para estudar a pupila.
- No comece a me cutucar e me espetar. Quero um mdico de verdade. - Ele conseguiu sorrir-lhe.
Anna pressionou um boto ao lado da cama.
- Sua viso est nublada?
- Posso ver bem o bastante. Voc est to bonita quanto estava na primeira noite em que danamos.
- Alucinando - brincou ela, ento olhou para cima quando a enfermeira entrou. - Por favor, chame o dr. Feinstein. O sr. MacGregor acordou e est requisitando um 
mdico de verdade.
- Sim, dra. MacGregor.
- Adoro quando eles a chamam assim - murmurou Daniel, e fechou os olhos apenas por um minuto. - Quanto dano causei, Anna?
- Voc teve uma concusso. Quebrou trs costelas e...
- No a mim mesmo - disse ele impaciente. - Ao carro.
Cerrando os dentes, Anna cruzou os braos.
- Voc nunca muda. No sei por que ainda me preocupo. Sinto muito por ter perturbado as crianas.
- As crianas. - A luz nos olhos dele no estava to forte quanto deveria, mas estava l. - Voc chamou as crianas?
Ele lhe deu precisamente a reao que Anna precisava para se assegurar de que estava tudo bem. Mas ela fingiu indiferena.
- Sim, devo me desculpar com eles.
- Eles vieram?
Ela conhecia muito bem as tticas de Daniel.
-  claro.
- O que vocs iriam fazer? Um velrio? Ela arrumou o lenol de cima.
- Queramos estar preparados. - Daniel fez uma careta e quase conseguiu gesticular em direo  porta.
- Bem, mande-os entrar.
- Eu no os deixaria passar a noite aqui. Eles esto em casa.
Daniel ficou boquiaberto.
- Em casa? Quer dizer que eles no esto aqui? Deixaram o pai no leito de morte e foram beber usque?
- Sim. Lamento que nossos filhos so muito irresponsveis, Daniel. Puxaram o pai. A est o dr. Feinstein agora. - Ela apertou a mo do mdico rapidamente antes 
de andar para a porta. - Deixarei vocs dois sozinhos.
- Anna.
Ela parou  porta e sorriu para o marido.
- Sim, Daniel?
- No fique longe muito tempo.
Anna o via agora como o tinha visto muitos anos antes: indomvel, arrogante e forte o bastante para precisar dela.
- Eu alguma vez fico?
Anna saiu do Centro de Terapia Intensiva e foi direto para o seu consultrio. Trancando a porta, deu a si mesma o luxo de chorar por vinte minutos. J havia chorado 
ali antes, aps perder um paciente. Desta vez, chorava de um alvio muito grande para medir e de um amor forte demais para apaziguar. Depois de lavar o rosto vrias 
vezes com gua fria, foi para o telefone.
- Al.
- Caine.
- Me, ns j amos ligar. Ele est...
- Seu pai quer ver vocs - disse ela facilmente. - Est com medo que estejam tomando o usque dele.
Ele suspirou e Anna o ouviu momentaneamente lutando por controle.
- Diga-lhe que no tocamos no usque. Voc est bem?
- Estou maravilhosa. Pea a Rena para me trazer uma muda de roupas quando vocs vierem.
- Estaremos a em meia hora.
-  uma vergonha quando um homem precisa quase morrer para receber a visita dos filhos. - Apoiado nos travesseiros, envolvido em bandagens, Daniel recebeu seus admiradores.
- Algumas costelas quebradas - disse Serena e beliscou-lhe o dedo de sua posio aos ps da cama. Tinha passado a noite acordada nos braos de Justin.
- Ah! Diga isso ao mdico que ps este tubo no meu peito. E vocs nem trouxeram meu neto. - Ele olhou brevemente para Serena antes de voltar-se para Caine. - Ou 
minha neta. Estaro todos na faculdade antes que eu os veja de novo. Nem sabero quem eu sou.
- Ns mostramos sua foto para Laura uma vez por semana - ofereceu Caine. Continuou segurando a mo de Diana, imaginando se teria sobrevivido as ltimas 24 horas 
sem a fora incansvel dela. - No mostramos, meu amor?
- Todos os domingos - concordou Diana.
Com um murmrio irritado, Daniel voltou-se para Grant e Gennie.
- Suponho que sua irm tenha uma razo para no ter vindo - disse para Grant. - E  correto que Alan esteja com ela, embora ele seja meu primognito. Afinal, ela 
est prestes a me dar um outro neto em algumas semanas.
- Boa desculpa - disse Grant suavemente enquanto Caine sorria e examinava as unhas da mo.
- Voc est bonita - ele falou para Gennie. - Uma mulher floresce que est carregando uma criana.
- E engorda - retornou Gennie, tocando uma das mos no estmago redondo. - Mais alguns meses e no vou alcanar meu suporte de pintura.
- Certifique-se de usar um banquinho - ordenou Daniel. - Uma mulher grvida no deve ficar em p o dia inteiro.
- E certifique-se de estar fora deste lugar e de p at a primavera. - Grant passou o brao ao redor da esposa. - Voc ter de ir a Maine para ser o padrinho do 
beb.
- Padrinho. - Ele envaideceu-se. -  uma coisa triste para um MacGregor ser padrinho de um Campbell. - Ignorando o sorriso de Grant, apesar de reprimir o prprio 
sorriso, olhou para Gennie. - Mas farei isso por voc. Tem descansado o bastante?
Anna deslizou uma mo sob o pulso de Daniel para, discretamente, monitorar-lhe a pulsao.
- Ele esquece que eu estava grvida de Alan nos ltimos trs meses de minha residncia. Nunca me senti melhor na vida.
- Eu me senti maravilhosa durante a gravidez, tambm
- comentou Serena. - Suponho que  por isso que estou fazendo isso de novo.
Daniel s levou um minuto para entender.
- Novamente?
Serena se colocou na ponta dos ps para beijar Justin antes de sorrir para seu pai.
- Novamente. Daqui a sete meses.
- Bem, agora...
- Sem usque, Daniel - murmurou Anna, antecipando-o.
- Pelo menos no at que voc saia do Centro Intensivo.
Ele fez uma careta, resmungou, ento abriu os braos o melhor que pde.
- Venha aqui ento, minha garota.
Serena inclinou-se sobre a cama e o abraou.
- Nunca mais me assuste desse jeito - sussurrou emocionada.
- Agora, no me critique - murmurou ele e acariciou-lhe os cabelos. - Rabugenta como sua me. Cuide bem dela - ordenou para Justin. - No quero meu prximo neto 
ou neta nascendo diante de uma mquina de caa-nqueis.
- As apostas esto oito a cinco que dessa vez  uma menina - respondeu Justin.
- Vocs esto na frente. - Sorrindo, Daniel virou-se para Diana. - Voc precisa alcan-la.
- No seja ganancioso - replicou ela e segurou-lhe a mo.
- Um homem tem o direito de ser ganancioso quando chega a certa idade, no , Anna?
- Uma mulher tem o direito de tomar suas prprias decises... em qualquer idade.
- Ah! - Verdadeiramente satisfeito consigo mesmo, Daniel olhou ao redor do quarto. - Nunca mencionei que a me de vocs lutou por direitos iguais antes que isso 
fosse moda, mencionei? Morar com ela no foi nada alm de um teste. E pare de medir minha pulsao, mulher. No h remdio melhor para um homem do que a sua famlia.
- Ento, talvez devssemos lhe dar um pouco mais. - Anna gesticulou para a enfermeira do lado de fora da porta. Com um suspiro, encostou-se contra a cama. Eles j 
estavam quebrando todas as regras do hospital. Que diferena fazia mais uma violao? Sentiu os dedos de Daniel se apertarem ao redor dos seus quando Alan empurrou 
a cadeira de rodas na qual Shelby estava sentada para dentro do quarto.
- O que  isso? - ele exigiu saber, e teria tentado se sentar se Anna no o tivesse impedido.
- Este - comeou Shelby, descobrindo o pequeno pacotinho em seus braos -  Daniel Campbell MacGregor. Ele tem oito horas e vinte minutos e queria ver o av.
Alan pegou o filho para colocar nos braos de seu pai. Tinha passado a noite rezando para que fosse capaz de fazer exatamente isso.
- Que viso - murmurou Daniel, sem incomodar-se em reprimir as lgrimas. - Um neto, Anna. Ele tem o meu nariz. Olhe, est sorrindo para mim. - Quando Anna se inclinou, 
Daniel riu. - E no me fale aquelas bobagens sobre os reflexos. Mdicos! Conheo um sorriso quando vejo um. - Olhando para cima, sorriu para o filho. - Bom trabalho, 
Alan.
- Obrigado. - Ainda maravilhado pelo filho, Alan se sentou na beira da cama. Com uma das mos, cobriu a do pai sobre o beb. Por um momento, trs geraes de MacGregor 
do sexo masculino estavam felizes.
- Campbell - Daniel disse abruptamente. - Voc falou Campbell? - Seus olhos prenderam os de Shelby.
- Certamente falei. - Ela pegou a mo livre de Alan quando se levantou. Podia ter sado da sala de parto a menos de nove horas, mas se sentia forte como um touro. 
Com certeza, forte como um MacGregor. -  melhor voc aceitar o fato de que ele  meio Campbell, MacGregor. - Com a risada de seu irmo, ela ergueu mais o queixo.
- Possivelmente a melhor metade.
Os olhos de Daniel brilharam. Anna notou-lhe a cor do rosto e aprovou. Ele abriu a boca, ento riu at ficar fraco.
- Que lngua afiada tem essa garota. Pelo menos voc teve o bom senso de dar-lhe o nome de Daniel.
- Nomeei-o em homenagem a algum que amo e admiro.
- Bajulao. - Ele sinalizou, relutante, para Alan pegar o beb. Pegando a mo de Shelby, segurou-a entre as duas suas. - Voc est maravilhosa.
Ela sorriu, um pouco admirada com as lgrimas que viu nos olhos do sogro.
- Eu me sinto maravilhosa.
- Voc devia t-la ouvido xingar o mdico. - Encantado com a esposa, Alan deu-lhe um beijo na testa. -Ameaou levantar-se e ir para casa ter o beb sem a interferncia 
dele. E teria feito isso mesmo, se o pequeno Daniel no tivesse idias diferentes.
- Bom para voc - decidiu Daniel, e pensou que seu nome combinava muito com o neto. - Nada pior do que ter um mdico revirando voc quando quer fazer as coisas do 
seu jeito. - Aps enviar um sorriso amvel a Anna, voltou-se para Shelby. - Agora, quero que volte para cama, que  o seu lugar no momento. No quero me preocupar 
com voc. Deu um presente a todos ns.
Ela inclinou-se para beijar-lhe o rosto.
- Voc me deu um presente. Alan. Amo voc, seu velho texugo.
- Fala exatamente como uma Campbell. V para cama.
- Sinto muito, mas todos precisam sair agora, antes que a diretoria do hospital me chame para reclamar.
-Mas, Anna...
- Se o pai de vocs descansar bastante - ela virou-se para lhe dar um olhar de aviso -, vai sair da UTI pela manh.
No foi rpido, no foi sem barulho ou confuso, mas Anna finalmente conseguiu esvaziar o quarto. Fingiu no ouvir Daniel pedindo um jogo de pquer com Justin mais 
tarde, ou exigindo que Caine pegasse seus charutos que estavam escondidos no escritrio. Se ele no tivesse feito suas exigncias, ela ficaria preocupada. Independentemente 
de quanto Daniel protestasse, Anna sabia que visitas eram uma bno, mas tambm muito cansativas. At que ficasse satisfeita com a condio de seu marido, manteria 
as visitas futuras mais curtas. O truque era faz-lo pensar que a idia era dele. Anna tinha anos de prtica.
- Agora - ela aproximou-se da cama e tirou-lhe os cabelos da testa -, tenho de fazer uma dzia de coisas que deixei de lado enquanto me preocupava desnecessariamente 
com voc. Quero que durma.
Ele podia demonstrar ser mais fraco agora que estava apenas com ela.
- No quero que voc v ainda, Anna. Sei que est cansada, mas preciso que fique s mais um pouquinho.
- Tudo bem. - Ela sentou-se na cadeira ao seu lado novamente. - Descanse.
- Ns fizemos um bom trabalho, no fizemos? Ela sorriu, sabendo que ele falava dos filhos.
- Sim, fizemos um excelente trabalho.
- Sem arrependimentos? Intrigada, Anna meneou a cabea.
- Que pergunta tola.
- No. - Ele pegou-lhe a mo na sua. - Ontem  noite, eu sonhei. Sonhei com voc. Comeou na noite em que nos conhecemos, naquela primeira valsa.
- O baile de vero - murmurou ela. Tinha apenas de sorrir para ver a luz da lua, sentir o aroma das flores.
Estranho, havia sonhado com aquilo, tambm. - Foi uma noite linda.
- Voc estava linda - corrigiu Daniel. - E eu a quis mais do que qualquer coisa que j desejei na vida.
- Voc era arrogante - lembrou ela, sorrindo. - E muito atraente. - Inclinando-se, beijou-o suave e demorada-mente. A mesma paixo que haviam compartilhado no comeo 
pairava sobre os dois. -Voc ainda , Daniel.
- Estou velho, Anna.
- Ambos estamos velhos.
Ele pressionou-lhe a mo nos lbios. O anel que lhe dera tantos anos atrs estava frio contra sua pele.
- E eu ainda a quero mais do que j quis qualquer coisa na vida.
Ignorando regras e procedimentos, Anna deitou-se ao lado dele na cama e descansou a cabea no ombro forte.
- Vou perder minha reputao por isso. - Ela fechou os olhos. - Vale a pena.
- Olhe quem est falando sobre reputaes. - Daniel roou os lbios nos cabelos de sua amada. O aroma era o mesmo depois de todos aqueles anos. -  estranho, Anna. 
Continuo sentindo um forte desejo por torta de pssego.
Ela ficou imvel por um minuto, sonolenta, ento abriu os olhos com uma risada. Eles eram jovens e travessos quando Anna inclinou a cabea em direo  dele.
- Assim que voc estiver num quarto particular.



066 - INSTINTO DO AMOR - NORA ROBERTS
Os MacGregors - LIVRO VI O patriarca do cl MacGregor  rico, poderoso... e determinado a ver suas trs netas casadas. Assim, ele escolhe trs insuspeitos candidatos 
a consorte. E, agora, tudo o que precisa fazer  colocar seus planos em andamento... e esperar que o destino faa o resto. 

067 - BEIJOS QUE CONQUISTAM - NORA ROBERTS
Os MacGregors -LIVRO VII De uma hora para a outra, Darcy Wallace passou de jogada  prpria sorte a milionria, com direito a jantar  luz de velas com Robert MacGregor 
Blade. Mac  o homem mais sedutor que ela j conheceu, mas certamente no  do tipo que se casa. No entanto, Darcy estava se sentindo numa mar de sorte... Assim, 
com beijos ingnuos e um charme frgil, a; bela inocente decide faz-lo perceber que o amor  o maior dos jogos... ei que ele ter de apostar... 

068 -O AMOR NUNCA  DEMAIS -NORA ROBERTS
Os MacGregors - LIVRO VIII  
O rico e poderoso Daniel MacGregor descobre as mulheres perfeitas para seus trs netos. D.C., Duncan e Ian so, assim, apresentados das formas mais criativas a Layna 
Drake, Cat Ferrell e Naomi Brightstone. Agora, eles e suas futuras noivas precisam apenas ser convencidos de que esto diante dos amores de suas vidas. Mas este 
 um trabalho para o destino... e para o corao.

ltimos lanamentos

064 - ENCANTO DA LUZ - NORA ROBERTS
Os MacGregors - LIVRO IV Ainda chorando a morte de sua irm, Genvive Grandeau quer isolamento, e no consolo. Mas, sozinha em uma estrada deserta no litoral, ela 
 forada a procurar ajuda em um farol, onde vive o igualmente triste e solitrio Grant Campbell. Agora, eles lidaro juntos com a tristeza, e com o que sentem um 
pelo outro...
Nora Roberts - Hoje e Sempre
(Destinos 65)




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